Ano V - janeiro  2003 - nº 53

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 53
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)São Sebastião num reis de boi, por guilherme Santos Neves.

setaquad.gif (95 bytes)Pastoris e maracatus em Alagoas.

setaquad.gif (95 bytes)Presépios dramáticos, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


SÃO SEBASTIÃO NUM REIS DE BOI

Guilherme Santos Neves


São Sebastião é – como São Benedito – um dos santos mais queridos e festejados em terras capixabas. Em sua honra e louvor dramatiza-se, agora todos os anos, em Conceição da Barra, a imponente festa popular do Alardo e em toda a parte, há folia de Reis, a 19 e 20 de janeiro, brincando-se também, em São Mateus, Conceição da Barra e povoações do norte do estado, o chamado reis de boi, variante dos bumba-meu-Boi do Nordeste.

Em Conceição da Barra, a 20 do corrente, pudemos apreciar e aplaudir a representação de um reis de boi, organizado e dirigido por mestre José de Carvalho, vulgo José barrigudo.

Este reis de boi compunha-se do mestre, do sanfoneiro, do Vosso Pai, de João Mole (um boneco desengonçado), de Pai Francisco e sua mulher Catirina, da Cobra, de Agaú – a fantasma do Boi e de mais quatorze marujos com seus pandeiros.

Como nos ternos de reis, o início da representação compreende cantorias de reis diante da porta da casa, fechada e de luzes apagadas:

O oriente saiu fora
ô menino vá vê quem é
– É os treis Reis de Oriente
na barquinha de Noé

* * *

 

Em Belém cantô um galo.
Ai meu Deus, quem nasceria?
Foi o neto de Santana
Filho da Virge Maria

* * *

 

Porta aberta, luz acesa,
Entramos com alegria;
Aqui nos mandô Deus Padre,
filho da Virge Maria.

Também há, como nos Santos Reis, o descarte, entoado num batuque sacudido e ligeiro:

Sinhora dona da casa
Gaio de alecrim maió,
a sua sombra me cobre
que chova, que faça só

* * *

 

No caminho me dissero
que aqui vinhemos cantá
o sinhô dono da casa
tinha munto que nos dá

* * *

 

Alecrim bateu na porta,
manjerona que sai.
O sinhô dono da casa
a porta mandai me abri.

Depois, desenvolve-se o enredo do reis de boi, tal como nos bumba-meu-boi.

Entre as marchas e toadas que ouvimos cantar em louvor de São Sebastião, recolhemos e gravamos estas três:

Boa luz que vos alumeia
Deus vos sarve este salão.
Vinhemos recebê as novas
De Santo Sebastião

Nóis samo aquelas folhinhas
que avóa quando o vento dé.
Glorioso São Sebastião
que veio nos ajudá.

O meu Santo Reis
que santo lindo e adorado
Santo Sebastião
no vosso dia festejado

É verdade que, segundo me informaram, esses versos se prestam a louvar qualquer santo de festa, e, como são versos de Reis, é possível que, originariamente, em lugar de São Sebastião, estivesse aí o Menino Deus, São José, a Virgem Maria, Santana ou os três Reis Magos.

Na gravação que fizemos da segunda marcha, por exemplo, serviu ela, alterada, de canto de despedida. Assim:

Nóis samos aquelas folhinha
que avôa quando o vento dá
Se não tivé a seu gosto
oi quera nos descurpá.

E foi assim que vimos, dentro ainda do ciclo de Natal, o glorioso São Sebastião louvado e cantado num bulhento e pitoresco reis de boi, lá na longínqua e mimosa cidade de Conceição da Barra.


(Neves, Guilherme Santos. "São Sebastião num reis de boi". Vida Capixaba. Vitória Janeiro de 1951)

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