Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
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... Um dia, há de haver coisa de dez anos,
eu tinha ido ao campo, à casa de um meu compadre que mora daqui a três léguas.
Era uma sexta-feira, ainda me lembro, como se fosse hoje.
Quando montei no meu burro para vir-me embora, já o sol estava baixinho; quando cheguei
na mata, já estava escuro; fazia um luar manhoso, que ainda atrapalhava mais a vista da
gente.
Já eu ia entrando na mata, quando me lembrei que era sexta-feira. Meu coração deu uma
pancada e a modo que estava me pedindo que não fosse para diante. Mas fiquei com vergonha
de voltar. Pois um homem, já de idade como eu, que desde criança estou acostumado a
varar esses matos a toda hora do dia ou da noite, hei de agora ter medo? de quê?
Encomendei-me de todo o coração à Nossa Senhora da Abadia, tomei um bom trago na guampa
que trazia sortida na garupa, joguei uma masca de fumo na boca, e toquei o burro para
diante. Fui andando mas sempre cismado; todas as histórias que eu tinha ouvido contar da
cova de Joaquim Paulista estavam-se-me representando na idéia: e, ainda por meus pecados,
o diabo do burro não sei o que tinha nas tripas, que estava a refugar e a passarinhar
numa toada.
Mas, a poder de esporas, sempre vim varando. A proporção que ia chegando perto do lugar
onde está a sepultura, meu coração ia ficando pequenino. Tomei mais um trago, rezei o
Creio em Deus Padre, e toquei para diante. No momento mesmo que eu ia passar pela
sepultura, que eu queria passar de galope e voando se fosse possível, aí é que o diabo
do burro dos meus pecados empaca de uma vez, que não houve forças de esporas que o
fizesse mover.
Eu já estava decidido a me apear, largar no meio do caminho burro com sela e tudo, e
correr para casa; mas não tive tempo. O que eu vi, talvez vosmicê não acredite, mas eu
vi, como estou vendo este fogo: vi com estes olhos que a terra há de comer, como comeu os
do pobre Joaquim Paulista... mas os dele não foi a terra que comeu, coitado! foram os
urubus, e os bichos do mato. Dessa feita acabei de acreditar que ninguém morre de medo;
se morresse, eu lá estaria até hoje fazendo companhia ao Joaquim Paulista. Cruz!... Ave
Maria.
Aqui o velho fincou os cotovelos nos joelhos, escondeu a cabeça entre as mãos e
pareceu-me que resmungou uma Ave Maria. Depois acendeu o cachimbo e continuou:
- Vosmicê se reparasse, havia de ver que aí o mato faz uma pequena aberta de banda, em
que está a sepultura do Joaquim Paulista.
A lua batia de chapa na areia branca do meio da estrada. Enquanto eu estou esporeando com
toda a força a barriga do burro, salta lá, no meio do caminho, uma cambada de ossinhos
brancos, pulando, esbarrando uns nos outros, e estalando uma toada certa, como gente que
está dançando ao toque da viola. Depois, de todos os lados, vieram vindo outros ossos
maiores, saltando e dançando da mesma maneira.
Por fim de contas, veio vindo lá de dentro da sepultura, uma caveira branca como papel, e
com os olhos de fogo; e dando pulos como sapo, foi-se chegando para o meio da roda. Daí
começaram aqueles ossos todos a dançar em roda da caveira, que estava quieta no meio,
dando de vem em quando pulos no ar, e caindo no mesmo lugar, enquanto os ossos giravam num
corrupio, estalando uns nos outros, como fogo de queimada, quando pega forte num sapezal.
Eu bem queria fugir, mas não podia; meu corpo estava como estátua, meus olhos estavam
pregados naquela dança dos ossos, como sapo quando enxerga cobra; meu cabelo enroscado
como vosmicê está vendo, ficou em pé como espetos.
Daí a pouco os ossinhos mais miúdos, dançando sempre, batendo uns nos outros, foram-se
ajuntando e formando dois pés de defunto.
Estes pés não ficam quietos, não; começam a sapatear com os outros ossos numa roda
viva. Agora são os ossos das canelas que lá vêm saltando atrás dos pés, e de um pulo,
trás!... se encaixam em cima dos pés. Daí a um nada vêm os ossos das coxas, dançando
em roda das canelas, até que, também de um pulo, foram-se encaixar direitinho nas juntas
dos joelhos. Toca agora as duas pernas que já estão prontas a dançar com os outros
ossos.
Os ossos dos quadris, as costelas, os braços, todos esses ossos que ainda agora saltavam
espalhados no caminho, a dançar, a dançar, foram pouco a pouco se ajuntando e embutindo
uns nos outros, até que o esqueleto se apresentou inteiro, faltando só a cabeça. Pensei
que nada mais teria que ver; mas ainda faltava o mais feio. O esqueleto pega na caveira e
começa a fazê-la rolar pela estrada, e a fazer mil artes e piruetas; depois entra a
jogar peteca com ela, e a atirá-la pelos ares mais alto, mais alto até o ponto de
fazê-la sumir-se lá pelas nuvens; a caveira gemia zunindo pelos ares, e vinha estalar
nos ossos da mão do esqueleto, como uma espoleta que rebenta. Afinal o esqueleto escanchou
as pernas e os braços, tomando toda a largura do caminho, e esperou a cabeça, que veio
cair direto no meio dos ombros, como uma cabeça oca que se rebenta em uma pedra, e
olhando para mim com os olhos de fogo!...
Ah! meu amo!... eu não sei o que era feito de mim... eu estava sem fôlego, com a boca
aberta, querendo gritar e sem poder, com os cabelos espetados; meu coração não batia,
meus olhos não pestanejavam. O meu burro mesmo estava a tremer e encolhia-se todo, como
quem queria sumir-se debaixo da terra. Oh! se eu pudesse fugir naquela hora, eu fugia
ainda que tivesse de entrar pela goela de um sucuri adentro.
Mas ainda não contei tudo. O maldito esqueleto do inferno - Deus me perdoe! - não tendo
mais nem um ossinho com quem dançar, assentou de divertir-se comigo, que ali estava sem
um pingo de sangue, e mais morto do que vivo, e começava a dançar defronte de mim, como
essas figurinhas de papelão que as crianças, com uma cordinha, fazem dar de mão e de
pernas, vai-se chegando cada vez mais para perto, dá três voltas em roda de mim,
dançando e estalando as ossadas, e, por fim de contas, de um pulo, encaixa-se na minha
garupa...
Eu não vi mais nada depois; fiquei atordoado. Pareceu-me que o burro saiu comigo e com o
maldito fantasma, zunindo pelos ares, e nos arrebatava por cima das mais altas árvores.
Valha-me Nossa Senhora da Abadia e todos os santos da corte celeste! gritava eu dentro do
coração, porque a boca essa nem podia piar. Era à toa; desacorçoei, e pensando que ia
por esses ares nas unhas de Satanás, esperava a cada instante ir estourar nos infernos.
Meus olhos se cobriam de uma nuvem de fogo, minha cabeça começou a andar a roda, e não
sei mais o que foi feito de mim.
Quando dei acordo de mim, foi no outro dia, na minha cama, a sol alto.
Quando a minha velha, de manhã cedo, foi abrir a porta, me encontrou no terreiro,
estendido no chão, desacordado, e o burro selado perto de mim.
A porteira da manda estava fechada; como é que esse burro pôde entrar comigo para
dentro, é que não sei. Portanto ninguém me tira da cabeça que o burro veio comigo
pelos ares.
Acordei com o corpo moído, e com os miolos pesados como se fossem de chumbo, e sempre com
aquele maldito estalar de ossos nos ouvidos, que me perseguiu por mais de um mês.
Mandei dizer duas missas pela alma de Joaquim Paulista, e jurei que nunca mais havia de
por meus pés fora de casa em dia de sexta-feira.
(GUIMARÃES, Bernardo. Lendas e romances. São Paulo, Livraria Martins, sd. Em
LACERDA, Regina (org.). Estórias e lendas de Goiás e Mato Grosso) |
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