Janeiro
2001
Ano III - nº 29 |
|
A
BALEIA, O LEÃO E O SAPO
Uma história de Jão Alfaias |
Tinha o leão, o leão, não é, e a baleia, um bichão, rei dos bicho. Intão o leão querendo fuzilá com a baleia, né. Chegava assim numa itapeva, numa itapecerica, tava aquele costão boiado. E tinha o sapo, o sapo sempre vitorioso na proposta dele, sapinho piquinininho assim. Ixistia nessa floresta. Intão aí, o sapo conhecia aonde habitava, passava o leão e aonde tomava sol a baleia. Diz o sapo: - Ai, eu vô matá êsses dois miserave. Vô matá. - Ó leão, bom dia. - Bom dia, que veio fazê aqui? - Que veio fazê aqui? - Eu venho fazê uma proposta com você. - Mais que proposta você qué fazê? - Uma aposta, uma aposta portanto. Cabia dinhêro, cabia dinhêro nele, lá. - Você qué apostá comigo como eu te ponho no mar? - Sai daí prá fora, pois um bicho que nem eu, o rei dos animar, você ainda vem cum isso aqui, sai, sai, sai daí, heim. - Ah, você num qué fazê a aposta, quem sai perdendo é você. Aí apostô. O leão: - Vamo apostá. Chegô lá em baxo, estava a baleia, né, que é o rei dos peixes. Diz: - Baleia, qué fazê uma aposta cumigo? O sapinho piqueno, na berada da itapeva. - Que, qual é o que você qué fazê cumigo, sapo. - Você qué apostá que eu te ponho dessa itapeva lá em cima, no seco. - Não, eu sô o rei dos peixes, você vai fazê isso? - Qué apostá, vamo. - Intão vamo vamo vê. Diz o sapo: - Intão, amanhã, às dez horas do dia, eu estou aqui. Aí, feis essa proposta para o leão também. Chegô lá com a sapaiada, com a saparia, com a sapaiada toda, combinô-se e arranjaro uma corrente boa, num aí, arrastano como Deus ajudô a eles. Chegô lá, estava o leão, co aquele peso feio, né. - Leão, tá na hora. O sapo: - Tá na hora. Diz o leão: - Tá bom. Intão me abaixa que eu quero passá esta corrente na tua barrigueira, pra vê se eu te ponho na água ou não te ponho, né. O leão abaixô-se de deixô o corpo por conta do sapinho, do sapinho, né. O sapinho tarrachô aquilo. Tarrachô e foi arrastano, chegô lá. - Baleia, tá na hora, de você querê o aposto. - Diz à baleia: - Como, levanta o rabo, a cauda, que eu quero passá essa corrente. Passô. Passô i: - Olha, quando eu dé um assobio é hora da força. Eu vô lá pra cima forcejá, heim, baleia. E tenho que dá um assobio pra você sabê. Foi indo, e disse pro leão a mesma coisa. Diz: - Olha, eu vou forcejá pa te pô no má; eu tenho que dá um assobio, heim. O leão não sabia que era a baleia, pois os dois animal mais possante. Não sabia que era a baleia nem o leão. Chegô no meio da estrada assim, deu um assobio; o leão sentindo força e foi abrindo aquelas pata e foi indo, foi indo, enterrou na terra e rolou pra baxo, arrastando barro, arrastando tudo, né. E a baleia também, danada; o leão criou força e foi arrastando a baleia, foi, foi que encostou na pedra e a baleia: - Que tou, tou perdido. Vô por cima da pedra mêmo. E aguenta daqui, aguenta dali, rebenta a corrente. O leão cai como morto. E lá foi o sapinho: - Leão, tá cansado assim. Diz o leão: - Oi, sai daí pra fora. - Ó, ainda não dei a metade da força. Foi lá correndo, tava a baleia de barriga pra cima, tomando aquele fôlego. E o sapo: - Qué isso? T'és tonta, baleia. I, mais foi você, diz a baleia. Fui eu, diz o sapo. Não dei nem a metade da força que eu tenho. Diz a baleia: - Sai, sai daí pra fora, que tu és o mais poderoso que todos.
(Estória de João Alfaias. In LIMA, Rossini Tavares de (e outros). O folclore do litoral norte de São
Paulo) |
|