Ir para a página principal

fiomenu.gif (223 bytes)
Festança
Cancioneiro
Imaginário
Oficina
Palhoça
Colher de Pau
Catavento
Almanaque
Candeeiro
Mural
Expediente

fiomenu.gif (223 bytes)
Folhinha
fiomenu.gif (223 bytes)
Arquivos
fiomenu.gif (223 bytes)
Outras Edições
fiomenu.gif (223 bytes)
Busca

fiomenu.gif (223 bytes)

Retornar para Panacéia
Inspirado em desenho de picadeiro de circo
A ORAÇÃO DE SANTA PELONHA PARA CURAR DOR DE DENTE E OUTRAS ORAÇÕES DO CATIMBÓ

"Estava Senhora Santa Pelonha em sua cadeira de ouro sentada com a mão posta no queixo. Passa Nosso Senhor Jesus Cristo. Perguntou: - O que te dói, Pelonha? – Um dente, Senhor! – Pois, Pelonha, do sul ao norte e do nascente ao poente, ficará esta criatura livre e sã e salva de dor de dente, pontada, nevralgia, estalicido e força de sangue. P. N. e A. M., oferecido às cinco chagas de Jesus Cristo."

Santa Apolônia teve os dentes arrancados a torquês pelo carrasco. É a defensora das boas dentaduras. No sertão de Augusto Severo (antigo Campo Grande) tive uma dor de dentes curada pela velha Chica Cardosa, rezando a oração acima, e benzendo em cruz, com um raminho de alecrim. Convergiram para o catimbó onde as encontrei todas essas orações.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, na Comédia Eufrosina, ato III, cena VI, faz dizer à moça Vitória: - São Manso que os amanse... evidenciando a antigüidade da oração a Santo Amâncio, num prestígio que a confusão verbal autorizava.

De Santa Apolônia, Pelonha, corria seu renome desde remota documentação literária. Fernando de Rojas, em fins do século XV, punha na boca da velha Celestina: - Uma oración, señora, que le dijeron que sabias de Sancta Polonia para dolor de las muelas (Celestina, o Comedia de Calisto y Melibea, ato IV). Cita-a Don Quixote (IIº, VIII).

Nas orações do Rio Jordão, do Sol, e de Santo Amanso-amansador (4ª, 9ª, 11ª e 13ª) as frases, com dois eu te vejo, com três eu te ato; com dois eu te vejo, com os três eu te falo, atestam centos de anos de uso e abuso devocional. Na Tragédia Policiana (Toledo, 1547), o autor, bachiller Sebastián de Fernández, resume, na voz da alcoviteira Claudina, os ingredientes indispensáveis para um feitiço, galinha preta, pedaço da perna de um porco branco, três cabelos da futura vítima, cortados numa manhã de terça-feira, antes do sol sair. O consulente Silvano, com o pé direito sobre o pé esquerdo, diria, num fôlego, sem pestanejar: - Con los dois que te miro con cinco te escanto, la sangre le bevo y el coraçon te parto.

Menendez y Pelayo divulgou uma nota de Don Francisco Rodriguez Marin, dando conta da ancianidade da fórmula e sua freqüência nos processos da Santa Inquisição espanhola. Num processo de 1600 contra Alonso Berlanga, na Inquisição de Valência, consta uma oração encantatória semelhante: - Con tres te miro, - Con cinco te ato, - Con sangre de leon tu vertut te pido, - Que seas em mi favor de contino. Numa documentação contra Isabel Bautista, ano de 1638 em Toledo, aparece essa fórmula de hacer mansos y sufridos a los hombres, igual às rezas do catimbó natalense: Con dos te miro, - Con dos te miro, - Con tres te tiro, - Con cinco te arrebato, - Calla, bobo, que te ato, - Tan humilde vengas a mi – Como la suela de mi çapato. Compare-se com o final da Oração do Rio Jordão: - Vocês todos hão de ficar humildes e mansos como a sola dos meus sapatos.

Ainda o período: - com dois te vejo, com três te falo, ocorre num processo toledano de 1645, contra Francisca Rodriguez que faria uso de súplicas deprecatórias parecidas: - con dos te miro, - Con una te hablo, etc. As imagens de campos verdes, campos secos, fidelidade sexual absoluta, todos os elementos das invocações amorosas, estão numa oração de 1639, do Santo Ofício de Valencia, apreendida entre os papéis de Juana Ana Pérez:

Con dos te miro,
Con cinco te ato,
Tu sangre bebo,
Tu corazón te arrebato,
Con los pares de tu madre y mia
La boca te tapo.
La garfia del fiero león
Que te ligue y te ate el corazón.
Asno, mira que te ligo
Y te ato y te reato y te vuelvo á reatar,
Que no puedas comer ni beber,
Ni armar ni desarmar,
Ni encampo verde estar,
Ni en campo seco pasear,
Ni en casa de nenguna mujer entrar,
Ni con ella horgar,
Ni en viuda ni en casada
Ni en doncella ni em soltera á efeto llegar,
De aqui adelante de mis ojos vengas atado,
Hechizado, conjurado,
A quererme, (a) amarme,
Todos tus dineros vengas à darme,
Que vengas, que vengas, que vengas;
Que hombre ni mujer me detenga.

A Oração do Sol, uma das mais típicas, prova a convergência dessas espécies, associando as imagens divinas e humanas em serviço da atração amorosa. Certas "permanentes" sobrevivem, quase inalteráveis: com dois eu te vejo, com cinco eu te ato o sangue, eu te bebo o coração, eu te parto debaixo do meu pé esquerdo, etc. Os verbos ligar, atar, amarrar têm grande força expressiva, sugerindo a idéia de aproximação e proximidade. Na mais alta percentagem essas palavras são pronunciadas ao mesmo tempo que entrelaçam, dão nós aos fios ou amarram, uma sobre a outra, duas bonecas. Saintyves menciona o valor dos nós, significando ligação de amor físico.

Para verificar as "permanentes" psicológicas nas orações-fortes brasileiras, vindas da península ibérica e empregadas no catimbó ou no segredo das velhas alcoviteiras rezadeiras, encontro essa oração popular do século XVI, ensinada por uma legitimíssima Celestina, Antônia Fernandes, de alcunha a Nóbrega, degradada de Lisboa para o Brasil por alcovitar sua própria filha. Ensinou-a a Guiomar de Oliveira, cristã velha, cheia de desejos e recalques.

"Fuão! Eu te encanto e reencanto, com o lenho da Vera Cruz, e com os anjos filósofos que são trinta e seis, e com o mouro encantador que tu te não apartes de mim e me digas quanto souberes e me dês quanto tiveres, e me ames mais que a todas as mulheres."

Desapareceu, pelo menos onde procurei, uma modalidade vulgaríssima do amuleto amoroso, a carta de tocar. Veio até fins do século XVII, com decisivo prestígio. D. Francisco Manuel de Melo as cita. As Denunciações da Bahia, 1591-93, estão cheias de alusões, com maior ou menor confiança, assim como as próprias Confissões ante o Visitador, licenciado Heitor Furtado de Mendonça. Eram orações misteriosas, que não podiam ser lidas e agiam pelo simples contato. Escrevia-a, com protocolo secreto, a feiticeira, e daí em diante bastaria tocar a carta na pessoa indicada pelo desejo amoroso. Rendia-se logo. Margarida Caneira, viúva cega de um olho e sempre apaixonada, mandou uma sua mameluca com uma carta de tocar, na noite do Natal, enfeitiçar Gaspar de Góis. A mameluca, de nome Vitória, enganou-se e tocou em Manuel Fernandes Leitão. O homem enamorou-se perdidamente da Margarida e com ela se casou, depõe o sobrevivente Gaspar de Góis a 12 de agosto de 1591. (Denunciações da Bahia, 311, ed. de Paulo Prado, São Paulo, 1925). Comprava-se a carta ou alugava-se. Era caríssima. Isabel Anroniane, (idem, 433) informa: "e assim mais lhe dixe Francisco Roiz casado com hua mameluca filha de Antônio da Costa defunto morador em Tasuapina residente também nesta cidade na rua de Sam Francisco que Isabel Roiz dalcunha Bocca torta moradora nesta cidade lhe emprestara hua carta que chamão carta de toquar por cinco tostõis que lhe dera pera tocar com ella a hua molher com quem elle muito desejava de casar e isto lhe contou elle sendo solteiro averá seis annos em casa della denunciante."

Na confissão de Paula de Sequeira (Confissões, 49) diz-se que a carta de tocar irresistível era aquela que, escondida sob o toucado, teria ouvido três Evangelhos por três padres.

Em parte alguma ouvi falar nas reminiscências da carta de tocar. As chamadas "forças diretas", os "preparos", despachos, ebós, cangerês, valem pelo contato, mas as orações de tocar desapareceram no arsenal amoroso da feitiçaria que se diluiu no catimbó.

Ninguém não mais possui o poder das velhas feiticeiras quinhentistas, comadres de Satanás, onipotentes criaturas que morriam de fome ou nas fogueiras do Santo Ofício, relapsas, obstinadas, insubmissas, como gritava o sinistro pregão, abrindo o préstito para o Auto-de-Fé.

Catarina Roiz, em 12 de agosto de 1591, conta maravilhas que humilhariam os nossos "mestres" do século XX: "e denunciando disse que averá doze annos que em Juguaripe fazenda de Graviel Soares nesta Capitania lhe disse Ana Fernandes casada com Antônio Roiz feitor que foi do dito Graviel Soares em Perabasu desta capitania que ella fazia hua devoção com a qual fazia vir hua pesoa donde quer que estava se era viva ao terceiro dia e se era morta que lhe aparecia hu vulto." (Denunciações, 307)

Não é mais possível essas perfeições. Verificar se o ausente é vivo ou morto só o "sonho" pode fazer. Adaptar ao ausente o "Sonho do Senhor São João".

Substituir a frase se eu tenho de ser casada por um simples se Fulano é vivo mostrai-me casas novas, campos verdes e águas claras; se é morto, mostrai-me casas caídas, campos secos e águas turvas. Cinco Padre-Nossos e cinco Ave-Marias e cinco Glória-ao-Padre, oferecendo no dia seguinte, na mesma hora em que fez a súplica.

Não pude saber se sobrevivem as fórmulas verbais de irresistível efeito na fidelidade amorosa. Certas frases latinas, retiradas do latim da missa, eram supremas ligadoras de homem e mulher.

Essa parte verbal da bruxaria, convergida para o catimbó, era a mais saliente e típica em Portugal. Orações, palavras, fórmulas secretas caracterizavam aos feiticeiros muito mais acentuadamente que os "trabalhos". Brás Luís de Abreu, no Portugal Médico (Coimbra, 1726) doutrina: "A esta peste da Monarquia Medicinal, a quem a nossa vulgata chama FEITICEIROS, dizem os Latinos EMPSALMATORES; que são uns homens, que costumam curar achaques, e vencer doenças com certas orações, ou formas de palavras compostas, à maneira de versos, ou de Psalmos, a que chamam encantos." (p. 590, 44.) Não fala no "feitiço feito".

Era o "mestre" em Portugal feiticeiro, mesmo no séc. XVIII, muito próximo ao nosso catimbó no século XX. Uma convergência sem que indígenas e negros defuntos orientassem tratamento e malefício. O bruxedo estava fiel ao Demônio e suas pompas. O catimbó licenciou Satanás...

(CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro)

Topo

Jangada Brasil © 2000