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Cortesias e obrigações no Rio de Janeiro
do século XVIII Acompanhemos,
porém, a toilette íntima do avô carioca no século XVIII, que já deu por
lavada a caraça, que se reflete extremunhada num pequeno espelho de
Veneza posto em moldura ao gosto rococó.
Após ablução rápida, vêm as raízes
para a limpeza dos dentes, e, logo atrás, um copo d'água com açúcar para o gargarejo.
A nossa etiqueta citadina não impõe grandes complicações de penteado para hora tão
matinal. Em regra, no Brasil, as cabeleiras postiças são raras. Usam-se cabeleiras
naturais, o que, até certo ponto, torna mais difícil compô-las, encanudá-las,
encaracolá-las, encacheá-las, dando-lhes ainda por cima o empoamento da pragmática,
motivo pelo qual, numa trança rápida, ou num coque improvisado, o gentleman dá
por findo o penteado. Antes de sair para ir à missa, vai ainda ao oratório. Na rua, por
igreja ou capela que passe, uma entradinha para o minuto de devoção, dois dedos de água
benta, um Padrenossozinho, uma Ave-Maria e, quando calha, um terço de rosário ou ainda
mais. Quando volta da rua, de novo, oratório. Loas aos céus por terem preservado, para
bem dos homens em geral e da igreja em particular, aquele pecadorzinho elegante e generoso
que, se traz em inobservância os mandamentos da lei de Deus, em troca dá
públicas mostras de alma cristianíssima, enchendo de sonoros cruzados a patena das esmolas, pelas
sacristias por onde passa. Quando larga o oratório, traz um apetite de lobo. Para o
pecado da gula há acomodações com o confessor: por isso é desamarrar os cordéis do
calção e dar começo à obra. Antes de infringir a devota cartilha, entretanto, recita o
oremus, que está em todos os livros de civilidade: Senhor, lançai-nos vossa
benção sobre estes dons e presentes que recebemos de vossa liberalidade. Pelo amor do Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.
No final da papança, o homem, grávido de
várias bateladas de alimento, o olho terno de piedade e de vinho, de novo invoca os
céus: Eu vos dou graças, Deus onipotente, por todos os benefícios, vós que viveis
e reinais por todos os séculos dos séculos. Amém.
Até a hora de enfiar-se sob os lençóis da cama o homem ainda reza, sem descanso, a
importunar Deus, ora pedindo, ora agradecendo, menos agradecendo que pedindo, e sempre da
maneira a mais afetada e pertinaz possível.
Assim mandou, no tempo, a boa educação.
Os manuais de civilidade, abrindo como abriam por um capítulo dedicado ao
culto divino, determinavam ao elegante católico maneiras especiais de se portar no
templo.
O povo glosava:
Maneira bonita
Para que se veja
Na hora da mesa
Na hora da igreja
Numa igreja, devia-se entrar com a capa ao braço, nunca vestida. Capa e chapéu. Na hora
de molhar o polegar na pia de água benta, o que queria ser chique enfiava a mão em
concha na bacia sagrada e a apresentava pingante às pessoas de consideração que o
rodeavam. Que o não fizesse, porém, a estranhos e muito menos a alguma moçoila que por
ali aparecesse de olhos negros fulgindo sob o crivo de renda da mantilha. As
inobservâncias a tais preceitos, por vezes, eram castigadas com cargas de pau...
Não se devia falar num templo, fazer saudações, cuspir, diz um mestre de civilidade,
que acrescenta: nem falo em murmurações, maus acenos, brincos e outras torpezas que,
por si sós se mostram abomináveis.
Uma ordem, datada de 1757, proibia, à porta das igrejas e nos adros, falatórios, namoros
e quaisquer manejos alheios ao lugar e ao culto. Ordem vã.
Na hora de confessar, ou comungar, a espada ficava fora da cinta.
Em sociedade saudava-se, dizendo:
- Muitos santos dias, senhor chanceler-mor!
- Santíssima noite, senhor presidente da Mesa de Inspeção.
- Louvado seja Deus, que tão lindas cores lhe dá, senhor provedor da Câmara dos
Defuntos.
- Para sempre seja louvado, senhor tesoureiro-mor da Fazenda.
- Beijo com humildade a santíssimamão de Vossa Excelência Reverendíssima, senhor
bispo.
- Deus abençoe a Vossa Excelência, senhor vice-rei.
- Entrem Vossa Mercê e seu anjo da guarda, senhor sargento-mor.
- Que Deus esteja nessa casa e eu em sua santíssima companhia, senhor
Intendente Geral do Ouro.
- Tenha Vossa Mercê, com a graça do Senhor, alegres dias durante a minha ausência,
senhor Deão, são os meus gostos.
- Goze Vossa Senhoria os mesmos, senhor ouvidor.
- Escravo de Vossa Senhoria, senhor barão.
- Negro de Vossa Mercê, minha senhora...
Importante era a questão dos tratamentos, estabelecida por várias pragmáticas. Por um
tratamento errado podia-se ir parar até a Costa D'África.
Ao vice-rei, dava-se, aqui, excepcionalmente o tratamento de Excelência.
Também era excelência o bispo.
Tinham honra de Senhoria os condes, viscondes e barões.
O burguês, em geral, recebia o tratamento de Vossa Mercê, que posteriormente se
corrompeu em Vosmecê, Vassuncé e Vancê.
Vancê me chamou de feio
Eu não sou tão feio assim
Foi depois que vancê veio
Que pegou feio em mim
As mulheres tinham os tratamentos dos maridos. Os filhos chamavam aos pais: Senhor
pai, Senhora mãe. Também se dizia: Senhor mano, Senhora mana, Senhor tio, Senhor
padrinho.
Vejamos, agora, como se cumprimentava uma pessoa.
O hábito de dar a mão foi sempre muito do Brasil: não obstante o famoso cumprimento de
mergulho era o do tempo. As mulheres faziam-no pegando nas partes laterais do vestido, tal
queal como se vê nos quadros antigos onde se dança o minueto. O pé direito sempre para
a frente.
Na rua, era desta forma que se tirava o chapéu: pegava-se, com a mão
direita, na ponta do mesmo pelo bico que descia sobre a testa, ou, quando foi moda o bico
para trás, pelo bico do lado direito, lançando-se o tricórnio fora da cabeça e
virando-se-lhe o interior para o rosto, isso para depois atirá-lo em linha reta, diante
dos olhos, como que a querer ofertá-lo ao cumprimentado. Uma pequena pausa e, num
movimento, depois, levava-se o mesmo numa linha curva lateral, que descia até ao joelho.
Esse arco de círculo precisava ser descrito sem afetação e com muita brandura,
diziam os compêndios.
Quando o chapéu, durante o passeio, vinha debaixo do braço, era muito comum o
cavalheiro, rapidamente tirá-lo do seu lugar e enfiá-lo na cabeça, para a formalidade
da cortesia citada, isso ao estilo francês.
Vejamos, agora, as regras que determinavam quais os que primeiro, tinham que descobrir-se
numa rua ou numa praça. Devia sempre tirar o chapéu antes o que estivesse melhorado no
lugar. Exemplo: o que desce uma ladeira tinha que descobrir-se, primeiro, a aquele que a
subia, e o que descesse ou estivesse numa cadeirinha saudaria primeiro o que passasse pela
rua a pé, e assim por diante.
Na rua colonial havia, sempre, ao centro, um rego, por onde corriam as águas, e onde iam
ter as imundícies atiradas das casas próximas. A delicadeza mandava que se desse, ao
encontrar-se alguém, o lado menos sujo, que era o das casas.
Por vezes, a disputar esse artigo de etiqueta, esbarravam-se os elegantes, quando não
escorregavam, caindo e emporcalhando as vestes de seda na estrumeira e na lama do caminho.
Era de mau tom, ao fazer na rua qualquer cumprimento, encarar com as pessoas, a ver se as
mesmas correspondiam.
Quando acontecia dar-se o encontro de dois cavalheiros que se dispunham a conversar e os
chapéus estavam na cabeça, deviam ir, logo, para debaixo do braço.
O que passeasse a cavalo, querendo dar provas de sua polidez, impunha-se ao mais cruel e
mais fatigante dos exercícios, uma vez que a grande prova de boa educação era fazer o
seguinte: passando pessoas de alta qualidade ou senhoras, se apeia logo e se lhes faz
a costumada reverência e não se monta sem que tenham passado.
E já que falamos em cumprimentos, saiba-se que durante o período colonial tirava-se,
sempre, o chapéu diante das sentinelas.
Ainda depois dos tempos da colônia, com dom João VI reinante em São Cristóvão, muitos
aborrecimentos diplomáticos tivemos por causa de tão imcompreensível etiqueta.
Os humildes e os escravos saudavam o vice-rei de joelhos.
Para fazer uma visita, quando se tratava de pessoa de cerimônia, logo ao saltar do coche,
da sege, do paquebote, da cadeirinha ou do banguê, a primeira cousa que se
fazia era enviar um escudeiro, em geral paramentadíssimo, num fardão de veludo e ouro,
embora indefectivelmente descalço. Esse embaixador da visita é que penetrava o saguão e
batia palmas, três vezes. Quando a casa era de rotula, as palmas batiam-se da
mesma forma, rente à mesma.
Havia o preconceito de se bater com a mão, bengala ou copo da espada às portas.
Batiam-se as palmas, ou, então, quando a intimidade permitia, arranhava-se com a unha a
madeira da portada, discretamente. O bom tom vinha de França, onde homens chiques, para
essa prática singular, usavam uma unha colossal.
Está em Molière:
Est ce l'ongle long qu'il porte au petit doigt
qu'ils s'est asquis chez vous l'estime ou l'on le voit?
Depos de bater, penetrando o senhor na morada, o escudeiro ficava à porta, de braços
cruzados.
As reuniões em família chamavam-se assembléias. Foram por aqui um tanto raras pelo
correr de todo o século XVIII, época, entre nós, da mais precária sociabilidade. As
leis de etiqueta existentes para tais recepções, no entanto, como as que se referiam às
danças, nada de extraordinário apresentavam nos livros de cortesia. Apenas os
cavalheiros e as senhoras viviam nesses saraus de certa intimidade mais ou menos separados
em dois bandos.
Mandava a praxe que, quando todos se preparassem para dançar, os donos da casa
escolhessem um casal distinto para romper o baile. O que dançasse de luvas incorreria na
mais graves das faltas de cortesia.
Os compêndios de civilidade cristã, entanto, condenavam severamente os bailes - assembléias
- diziam os mesmos - que se fazem à noite para esconder o que de
indecente se passa nelas.
Isso pela época dos minuetos e da pavana, em que as figuras da mulher
e do homem se moviam separadas, uma vasta saia de arame, em curva, de permeio.
E em afirmando tal cousa, não se esqueciam, os puritanos, de citar Santo Ambrósio, que
chamava à dança uma excitação à paixões vergonhosas...
(LUIZ EDMUNDO. O Rio de Janeiro no tempo dos
vice-reis)
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