| Abacaxi:
desajeitado, canhestro, malamanhado. Dificuldade, problema complicado.
Descascar o abacaxi, resolver habilmente a situação. Mau dançarino.
Mulher gorda, sem donaire. Denominação dos escravos enviados
furtivamente de Pernambuco para o Ceará, para alforriarem-se.
Afiambrado:
vestido com elegância, chibante, faceiro, no trinque, roupa nova.
Água:
banalidade, vulgaridade, monotonia. A festa foi uma água.
Falhar o plano, deu água. Acabou em água de bacalhau,
diz-se em Portugal. Água morna, os apáticos, os neutros. Água
suja, conflito, balbúrdia, mexericos.
Alfinim:
maneiroso, delicado, melindroso, afetado, artificial. Amável mas fátuo
ou leviano. Empregado identicamente nos autos portugueses do século
XVI.
Angu:
complicado, chafurdo, briga, bagunça. Angu de caroço.
Arrotar:
denúncia de repleção integral. Quem bem arrotou, bem almoçou.
Suetônio lembra o imperador Vitélio arrotando para provar haver
jantado (Vitellius, VII). Ostentação. Exibicionismo. Arrotar
grandeza, valência, riqueza. Comer sardinha, arrotar tainha. Faminto
em casa e arrotando na rua. Arrotar o que não comeu. Tobias Barreto
fala dos que comem francês e arrotam alemão.
Arroz-doce:
vulgar, comum, banal.
Arroz
doce de pagode: infalível nas festas.
Azeites:
mau humor, zanga, capricho.
Azeitona:
mulatinha frajola. Morder azeitona, gostar de beber. No Auto
da Ave Maria, 1530, Antônio Prestes, diz casou co’azeitona, significando
o bebedor.
Bacalhau:
azorrague de couro. Mulher magra. Bacalhau de porta de venda.
Badejo:
os peixes serranídeos são considerados entre os mais lindos da nossa
ictiofauna. Belo, atraente, grande, volumoso. Festa badeja, frevo
badejo, clube badejo. Nesse sentido a imagem viajou do sul para o
norte. Os badejos nortistas são os serigados.
Bago
de jaca: fácil, cômodo, acessível; sem personalidade, demasiado
tímido; subserviente, submisso.
Banana:
covarde, tolo, amaricado, sempre concordante. Banana-mole. Bananzola.
Morais já registrara nessa acepção. Gesto obsceno, de sugestão fálica;
por a mão ou o antebraço no sangradouro do outro, oscilando este com
a mão fechada. Dar bananas. Adeus de mão fechada. Com
o nome de banana é recriação brasileira. Veio de Portugal
onde o denominam as armas de São Francisco, manguito, mangarito. Herman
Urtel não mencionou o sinônimo brasileiro quando estudou o gesto em
Portugal. Comum na Espanha, Itália, França, très vulgaire et
obscéne, escreve A. Mitton aludindo sua signification
ithyphallique. Membro viril.
Batata:
acertado, justo, eficiente. Foi ou é na batata. No alvo. Morder a
batata é beber cachaça.
Beba
água: resigne-se, console-se, acomode-se.
Beber
jurema: feitiçaria, catimbó, macumba. Praticar, exercer, fazer
feitiços.
Bocado:
sinônimo de subsistência, alimentação diária. Preciso ganhar o
meu bocado. Não posso perder o bocado de minha família.
Prato. Pirões.
Bife:
o inglês, comedor de beef.
Biscoitar:
surrupiar, apropriar-se astuciosamente, com esperteza mas
indevidamente. Sugestão do biscoito, fácil de conduzir e consumir.
Abiscoitar.
Bode:
farnel de caçador e de trabalhador ferroviário ou rodoviário.
Bofe:
velha meretriz. Mulher gorda, feia, avelhantada, ainda desejosa.
Bom-estômago:
tolerante em excesso, resignado, bonachão. Engole-tudo.
Bredo:
namoro, derriço.
Bromar:
estragar-se, transformar-se inferiormente. Piorar em vez de melhorar,
degenerar, involuir. Ia ser um rapaz culto mas bromou. Estado
do açúcar que não atinge a cristalização, dando apenas qualidade
inferior, o mascavado. Diz-se que o açúcar bromou.
Bucho:
o mesmo que Bofe. Edison Carneiro informa na Bahia: “Bucheiro,
homem que tem predileção por mulheres feias. Buchada, grupo de
mulheres feias”.
Cachaça:
vício, mania, hábito, predileção. A cachaça dele é a política.
Café-pequeno:
facilidade, proveito imediato, sucesso obtido sem custo. Foi café-pequeno.
Cana-de-açúcar
descascada: pedaço de cana descascado, sorte inesperada, ensejo
favorável, favor espontâneo. Ia à pé mas peguei uma carona
descascada.
Canja:
idêntico ao café pequeno. Êxito sem custo.
É ou foi canja. Na canja, vida boa.
Carne-seca:
passadismo; constumes antiquados; avareza; economia exagerada; velho
ranzinza; teimoso.
Catolés:
seios de adolescente. Anda mostrando os catolés na rua.
Cebola:
interjeições de protesto, negativa ou desdém: Cebolas!
Cebolinha! Cebolório! Velhos relógio de bolso, de prata maciça,
dos antigos modelos.
Cebolão:
relógio maior, de algibeira. No elemento feminino, as sexualmente
exaltadas, de fácil excitação amorosa, são acusadas de ter a
cebola quente.
Chá:
gosto, requinte, retoque essencial, característica mais apreciada. O
chá é mandar chumbar um dente a ouro e pôr uma coroa na frente;
Cornélio Pires. “Aí é que está o chá!”. (J. M. Cardoso
de Oliveira). No interior de São Paulo servir de chá é ser
objeto de zombaria. Não dar um chá, não ter importância,
pouca desvalorização. Não tomar chá em criança, não ter
modos, educação, maneiras.
Cocada:
bofetão, tapa, cocorote, murro na cabeça ou na face. Derriço,
faceirice, prosa fiada, elogio fácil. Ferida na cabeça. Fazer
cocada, chamego, libidinagem, namoro grudado. Na Bahia, correio
entre namorados ou amantes.
Coirana:
courana, coerana, Cestum leviegatum, Schl, uma solanácea,
extremamente amarga e picante. “A coerana, já esteve muito em voga,
quando o seu nome significava o mesmo que atualmente quer dizer a
palavra roedeira, isto é: ciúmes, ciumadas, amores
contrariados, pretensões não cabíveis entre namorados, despeito,
etc.”, escreve Getúlio César:
Se coerana se vendesse,
Uma folha era um tostão;
Eu bem sei quem tá roendo
Mas, não dá demonstração.
Roer coirana é estar ciumado. Altera-se para courama, roer
courama, roer um couro, na mesma intenção.
Colher:
facilidade imediata, vantagem sem demora. Foi ou é de
colher.
Comer:
supor, presumir, julgar. Eu o comia por médico e era um
charlatão. Explica-se o estado psicológico ou a situação social
pela espécie alimentar. Comendo pimentas, furioso,
decepcionado, cheio de ira. Comendo areia, desempregado,
faminto, azarado. Comendo barata, enfrentando dificuldades,
fatos desagradáveis. Comendo fogo, ambiente hostil, áspero,
antipático. Comendo água, embriagando-se. Comendo prego, na
batalha pela manutenção. Comer rama, embebedar-se. Comer
verbena, beber cachaça. Comer pedras, comer queijo de brisa, sem
meios de subsistência. Come-longe, indivíduo pálido,
macerado, hipoêmico. Comer insosso, amarguras diárias,
sucessivas. Comer com a testa, não conseguir, falhar o plano e
vê-lo realizado por outrem. Comer couro, ser surrado, sovado. Comer
calado, pacientemente. Comer safado, contrariedades,
contratempos. Comer brisa, passar fome, não querer comer. Comer
da banda podre, adversidades. Comer brocha, o mesmo que comendo
pregos. Comer, copular. A fecundação por via oral é uma tradição
mitológica mantida nas versões populares a menção de ervas e
frutos que engravidam. Comer gerumba, suportar trabalhos
pesados, curtir desapontamentos, forçado pelas conveniências, ou
pela necessidade, e análogos estados d’alma. Comendo corda, acreditando
em mentiras. Comeu junça, sexualmente forte. A junça, Cyperus
esculentus, Linneu, dizem ser tônico afrodisíaco, nos tubérculos
terminais das raízes. Comer salgado, enfrentar situação
dificultosa, precariedades.
Confeito:
decoração açucarada nos bolos de festa. Remate, coroação, para
findar. Para confeito da questão, não me pegou!
Para confeito da obra
Uma viola na mão.
Cuscuz: seios flácidos, disfarçados sob a blusa.
Dendê:
coisa gostosa, apreciável, pitéu, excelente. “Fez ontem o seu
dendê em frente a nossa tenda de trabalho o velho maracatu Porto
Rico”, noticiava no Recife o jornal Pernambuco, nº 104,
1914. Dificuldade, empecilho, obstáculo; aí é que está o dendê!
Derrama-molho:
pequena barraca, estreita ou de boca diminuta.
Empada:
preguiçoso, lerdo, poltrão, negligente. Visita inoportuna.
Farinha:
abundância, fartura, quantidade. Gente como farinha.
Farofa:
vaidade, presunção, gabolice, mentiras, ostentação falsa. Farofeiro.
Por fora muita farofa,
Por dentro molambo só.
Feijão:
comida diária, o trivial, o passadio comum. Fui serrar os feijões
de papai. Feijão-todo-dia, o ritmo cotidiano, inalterável.
Feijão-com-coco, festa suspeita, confusa, convidados desiguais.
Filé:
moça nova, sadia, atraente. Rapaz afeminado.
Fruta:
aguardente; gostar da fruta, cachaceiro. Fruta verde, mocinha;
jovem namorada curiosa de agrados. Fruta nova, pessoa estranha,
estrangeiro. Meretriz recém-chegada. Aplicada ao indivíduo estranho
era corrente em Portugal, na primeira metade do século XVI. No Auto
da Ave-Maria, Antônio Prestes escreveu:
D’onde vem a fruta nova
não n’a vi senão agora.
Furrundum:
doce de cidra ralada, com rapadura ou açúcar mascavo. Entre os
caipiras de São Paulo e fronteiras de Minas Gerais é também discussão,
barulho, briga.
Galinha:
covarde, moleirão, assustado. Pederasta. Mulher lasciva e fácil.
Galinha
morta, incapaz de reação. Inerte. Abúlico. Comendo galinha, mulher
de resguardo, parturiente.
Galinheiro:
a mais alta galeria nos teatros, também denominada Poleiro e Paraíso.
Poulailler, Paradis, em França, origem do nome no Brasil. Quem
faz opinião no teatro é o galinheiro.
Galo:
brigão, provocador, arruaceiro. Mulherengo, bordeleiro. Ter grande
potência sexual. Comendo um
galo, apressado, inquieto, atarefado, ansioso. Um galo na
testa, hematoma. Salgar o galo, bebida matinal. Cabeça de
galo, ovos cozidos com pirão. Cocktail. Rabo de galo, cachaça
e vinho.
Ganço:
bebedeira, pileque, carraspana. Viver no ganço. Está de
ganço. Gancista. Deu a gança, zangar-se deblaterar,
irar-se dizendo desaforos.
Garapa:
solução fácil; banalidade, vulgaridade. Foi aquela garapa.
Encarapar, enganar, iludir, persuadir convencer. Morais registrou
no seu dicionário; “Engarapar, v.at. Dar garapa § fig. Fazer a
boca doce a alguém, para o reduzir à aquilo que queremos”. Antônio
de Morais Silva foi senhor de engenho em Pernambuco.
Goiaba:
proveito. Ganho desonesto. Comendo goiabada, outrora vida de cáften
e presentemente receptador de contrabandos. Olho da goiaba, ânus.
Na gíria dos ciganos em São Paulo, Minas Gerais, pelo sul do país, morder
na guaiába é fazer negócio, entrar em acordo de compra, permuta
ou venda.
Goiabada:
solução imprevista; transação mais rendosa e fácil que se
pensava. Que tal o negócio? Goiabada, amigo! Na goiabada, tratamento
carinhoso, abundante, sem previsão da finalidade. Está na
goiabada, vamos ver o que sai.
Goma:
contar vantagem, auto-elogio, alardear importância. Mentira, exagero,
filáucia. Vive contando uma goma danada! Tumor no periósteo, exostoses
molles. Engomado, nas gomas, elegante caprichoso na
indumentária. Gomeiro, pábulo.
Guabiraba:
é um adjetivo que significa zangado ou irritado. Estar nas
guabirabas, desconfiado. É uma mirtácea comum a todo território
nacional, fruta e doce.
Grude:
bolo de goma de mandioca, açúcar, leite de coco. Os grudes de
Estremoz eram os mais famosos do Rio Grande do Norte. Goma líquida
para colar couro papel, fazenda. Briga, barulheira, altercação,
rezinga. Namoro agarrado.
Jaca,
jaqueira: negócio sem embaraço, pronto, rápido, lucrativo.
Jaca, chapéu alto. Jaca mole, molenga, aparvalhado, imbecil. Conseguiu
o emprego? Foi jaqueira!
Jenipapo:
mancha azul-negra nos glúteos ou na cintura, mancha mongólica,
tida como indicativa de mestiçagem. Fidalgo de jenipapo,
ironizavam com os mulatos ricos do tempo do Império.
Jerimum:
o mesmo que melancia na linguagem popular.
Limão:
temperamento azedo, constante mau-humor, zangadão irritante. Falhando
o plano, errado o cálculo, deu limão. Pormenor característico,
vivacidade comunicante, simpatia envolvente, não existindo, dizem faltar
limão. Limão de cheiro, mocinha airosa, agradável,
simples. No Auto dos Cantarinhos, meados do século XVI, Antônio
Prestes cita o limão de gentileza, como elogio a uma namorada
em Lisboa.
Lingüiça:
homem magro, comprido, desajeitado. Encher lingüiça, ocupar o
tempo com banalidades; discurso sem assunto digno de audição; palavrório;
chantagem verbal.
Macaxeira:
braços alvos e roliços. Perna branca. Na Bahia, anota Hildegardes
Vianna, descascar aipim e desnudar perna branca. Aipim é
macaxeira. Membro viril. Nas macaxeiras é vida folgada, o rato
dentro do queijo.
Minha gente venha ver
A vidinha do preá;
Metido nas macaxeiras,
Comendo sem trabalhar.
Maduro:
todo objeto em situação propícia. Bom ensejo. No ponto, “O
negócio está maduro e se não aproveitar apodrece”. Idade madura.
Maturidade. Já estou maduro para as frutas verdes. Jinjibirra.
Malassada:
carne mal-assada, à inglesa, ligeiramente passada. Frigideira ou
fritada improvisada. Demi-vierge. Donzela de candeeiro; quae
virgo putatur impudica vero est. Nesse sentido malassada é
a donzela fiambre, dos séculos XVII e XVIII, não empregada
verbalmente no Brasil na mesma vulgarização da Espanha e
Portugal.
Mamata:
rendimentos abundantes sem trabalho; função vantajosa sem esforço;
fortuna tranqüila. Mamavero. Marmionda. Melgueira.
Mangaba:
É uma mangaba!... Essa expressão exclamativa é aplicada a
uma fruta gostosa; a um alimento qualquer de sabor esquisito e agradável;
a um objeto que exprima superioridade. Cheirando a mangaba, bêbado.
Mangabinha:
namorada ardente, excitadora, provocando luxúria.
Manga-verde:
negócio prematuro; aviso ou promessa inoportuna; intromissão indébita.
Compromisso incumprível.
Manjuba:
é a mesma pititinga, Menidia brasiliensis, a sardinha
nacional. Genérico de alimentação, comida, passadio. Manjubar,
comer. Intercorrência de manjar. Dinheiro ilícito, lucro
vergonhoso; gorjeta; molhar a mão; pepineira, mamata.
Pititinga denominada povoação praeira ao norte de Natal.
Manteiga:
melindroso, molenga, cheio de dengues, susceptibilidades, agastando-se
por tudo. Manteiguinha, namorada derretida.
Marmelada:
negócio escuso, tratantada, desonestidade proveitosa. Malandragem.
Melaço:
mel-de-furo exportado do Brasil para Portugal onde lhe davam esse
nome. Por extensão, o mesmo que garapa. “A festa começou
muito bem mas acabou que era um melaço”. Namoro quente. Está
num melaço daqueles... Nobreza do melaço, diziam no Rio de
Janeiro da aristocracia rural fluminense. Barão-do-mel-de-furo,
zombavam em Pernambuco dos senhores de engenho feitos barões do Império.
Meladura:
gorjeta. Ganho demasiado. Tirar meladura, aproveitar-se. Comigo
ninguém tira meladura. É a quantidade de caldo de cana comportável
na caldeira, na fabricação do açúcar.
Melancia:
seios volumosos. Mulher gordalhona, pesada, lenta.
Melões:
despesas, gastos diários. Preciso arranjar com que comprar os melões.
Mingau:
pessoa sem energia, inútil, molenga; covarde, assustada; choro fácil,
incontido, sem motivo. Comendo mingau, ajudado pela amante.
Mantido sem despesas pessoais. Parasitando.
Molho:
de molho, em observação, na espera; sem confiança; em prova.
Moqueca:
estar de moqueca, encolhido; arredado. Adoentado. Fora da
circulação.
Ova:
negativa peremptória. Uma ova! De modo algum! Não e não!
Ovo:
coisa repleta, cheia, completa. A sala ficou um ovo. A princesa
dona Isabel Maria, regente do Reino, 1826-1828, dizia: Portugal é
um ovo, pequenino mas cheio!
Paçoca:
misturada, confusão de coisas amarfanhadas. Fitas, rendas, panos
revolvidos. Seco na paçoca, destemido, forte, resistente;
interior de São Paulo.
Paio:
pagador crédulo, bonachão, mão-rota, o coronel. Pague o
paio e bata o bombo!
Pamonha:
desprovido de iniciativa, parvalhão, submisso, lerdo, pesadão.
Pamonhice no Maranhão. Escrevendo em
outubro de 1835, o português João Loureiro informava do Rio de
Janeiro para Lisboa: “Este Império dá cuidado pelo estado convulso
do Norte, e Sul, e pelas desarmonias pessoas, e intrigas do centro;
mas tudo segue com esperanças no Novo Regente, que não he Pamonha
(adivinhe o significado desta palavra) e he homem de mãos limpas,
e de Constância”. O Novo Regente era o padre Diogo Feijó.
Panelinha:
minoria influente, unida, decisiva, dominadora.
Panqueca: o frito de ovos,
manteiga, açúcar e canela, denomina quem viva sossegado, sem
cuidados e preocupações. Está na panqueca. “Vadiação
regalada, boa vida”, anota Amadeu Amaral.
Papa-angu:
homem ridículo, sem compostura, tolo. Papangu era o farricoco,
mascarado que afastava à chicote os curiosos atrapalhadores na
procissão de Cinzas no Recife, Olinda, e noutras cidades nordestinas.
No Recife desapareceu à volta de 1831 mas em Natal veio até depois
de 1870. Pessoa grotesca pelas feições ou traje. Houve no Recife,
1846, um jornalzinho com este nome, O Papa-Angu.
Papa-arroz:
o natural do Maranhão.
Papa-goiaba:
o fluminense, natural da província do Rio de Janeiro.
Papa-jerimum:
o natural do Rio Grande do Norte.
Papa-mamão:
o natural de Olinda.
Papo:
arrogante, ameaçador, mandão. Falar de papo grosso ou de
papo cheio. Garganta. Falastrão. Está no papo, coisa
resolvida, possuída, questão liquidada.
Pão-pão,
queijo-queijo: razões últimas e lógicas. Referência ao farnel
suficiente para trabalho e jornada em Portugal: Queijo e pão é
refeição; De pão e queijo não existe sobejo. Equivalência
e satisfação irrecorríveis. Elas por elas.
Pão-com-dois-pedaços:
máximo proveito; facilidade absoluta; êxito.
Pão-doido:
amalucado; leviano, inconseqüente; recadeiro de políticos e de
namorados, sem descanso na tarefa. Pão-doido é o que retiram o miolo
para assar.
Pão-dormido: pobre em roda de
ricos. Come pão dormido e arrota galinha. Passar altivamente
com os próprios recursos. Pão dormido mas não quero o seu peru.
O senador Nilo Peçanha dizia ter sido criado com paçoca e pão
dormido.
Pão-duro:
avarento, cauíra, usurário. Defensor de costumes mortos. Modelo do
mau-gosto antigo. Mendigo rico.
Papinha:
negócio vantajoso sem muita labuta; namoro farto; recompensa sem
merecimento. Estar ou viver nas papinhas, tratado
esplendidamente e sem retribuição. Papinha e de colher,
fartura e agrado.
Pastel
de nata: Conhecer a força dos pastéis de Nata, reconhecer
e respeitar o poderio ou prestígio de alguém. Frase colhida no
Recife por Pereira da Costa nos primeiros anos do presente século. O
caipira paulista, significando castigo sofrer lição pesada, diz: Conhecer
o rigor da mandaçaia. A mandaçaia Melipona anthiodes,
Lep, é uma abelha produzindo mel delicioso e ferroando dolorosamente.
Pato:
o pagante a vítima, crédulo, imbecil, pacóvio. O otário.
Pedaço de charque correspondendo à omoplata.
Peixão:
mulher bonita, de formas opulentas. Pancadão.
Peixe:
Pegar peixe, cochilar. É peixe de fulano, ser o favorito.
Peixe
caro: visita rara, ausência nas festas, recusa de convites. Vender
o peixe é valorizar a causa própria, argumentando com veemência.
vender o peixe caro é apreçar demasiado o merecimento.
Peixe
fresco: prostituta nova. Estreante político ou literário.
Primeiros namoros. Debutante.
Peixe
podre: sem valia, sem significação, desprezível. Refugo, destroço
humano.
Peixinho:
o preferido, o mimado, o favorito. O mesmo que peixe.
Pepineira:
negociata, tramóia venturosa com abundantes resultados. Clima propício
para determinada produção. O pepinal, pepinière, deu em França
a mesma intenção satírica, de onde, possivelmente, a tivemos. Pândega,
patuscada, esbórnia. Pechincha. Compra barata.
Pepino:
temperamento, gênio, propensão, tendência. De pequenino é que
se torce o pepino. Em França é ter paixão, amor ardente; avoir
um pépin pour quelqu’un. Membro viril.
Peru:
assistente impertinente, indesejável, obstinado. Peru calado ganha
um cruzado. Aperuar, acompanhar jogo ou acontecimento social sem
participação responsável. Namorado, porque sabe fazer roda.
Ostentação, pompa incabida, exibicionismo. Apaixonado teimoso na
perseguição.
Piaba:
pequena quantia, cousa de pouca importância. Na piaba, penúria.
Piabando vivendo com recursos limitados. Piabeiro,
pescador indolente.
Pinhões:
exclamativa de repulsa, protesto, desagrado: Ora, pinhões! Correspondente
ao português: E peras! Sabe o que mais? Pinhões!
Pipocas:
exclamação de desabafo, ora pipocas! Ora, sebo!
Pirão:
genérico de alimentos. Ganhar pros pirões! Vou aos pirões! Mulher.
Ao distraído, insistentemente provocado. Dizia-se no Recife de 1924: Pega
o pirão, esmorecido!
Pitomba:
pancada, pedrada, cocre, tiro, na cabeça. Levou uma pitomba no
quengo. Exclamativa: Ora, pitombas! “Pequenos pedaços de
carne do Ceará, charque, quase que perdido provindos dos que se
cortam por imprestáveis, ou perfazer as pesadas”; Pereira da Costa.
Ponto
de bala: não se alude ao projetil de arma de fogo mas
simplesmente ao ponto em que a calda do açúcar refinado com
essência de fruta, atinja à densidade indispensável para o
esfriamento e feitura de balas, bolas, rebuçados, vendidos em
cartuchos de papel.
Prato:
genérico de alimentação, subsistência. Só ganha pro prato.
Puba:
estar na puba, isto é, estar no trinque, estar muito bem vestido e
ataviado, informa Amadeu Amaral. Casquilhice, faceirice no trajar,
segundo Valdomiro Silveira.
Puxa-puxa:
recadeiro, serviçal, fâmulo espontâneo nas intrigas ou correspondências
de amor. Leva-e-trás. Namoro, para o caipira paulista.
Queijo:
corpo feminino, as partes mais volumosas. Comer queijo é
acalcanhar o calçado. Quem come muito queijo fica sem memória. No século
XVII, 1665, Dom Francisco Manuel de Melo versejava:
Sempre ouvi por regra aceita
De Galeno que aja glória
Que tira o queijo a memória
A toda gente direita.
Comendo queijo de brisa,
curtindo fome. Foi queijo, valeu a pena. Facilidade.
Quitanda:
biscoitos, bolo ou qualquer doce de forno, e também saúde, posição
social, para o interior de São Paulo.
Rapadura:
lamber a rapadura detrás dum pau, esperar indefinidamente pelo
inimigo para matá-lo (Nordeste). Entregar a rapadura, desistir
de alguma empresa ou plano (São Paulo).
Roer:
ter ciúmes. Roedeira, roendo, ciúmes, despeito amoroso.
Rosca:
face, mais vulgarmente, o nariz. Disse-lhe as verdades nas roscas
da venta. Marido passeando ou dançando com a esposa é pão em
rosca.
Sal:
graça, espírito, talento. Bom de sal, temperado. Sal e
pimenta, cabelo grisalho.
Siri:
o rapaz que conduzia o lampião ou facho iluminado a marcha dos
figurantes do Bumba-Meu-Boi (Natal, RN).
Sopa:
coisa, negócios, conquista amorosa, sem custo e prontamente. É
sopa! Foi uma sopa! Sopa no mel, o cúmulo do êxito.
Suco:
essência, o principal, o superior, a excelência. É o suco!
Sururu:
o saboroso molusco. Mytilus alagoensis, J. Lima ou Mytilus
mumdahuensis, E.D., significa barulho, confusão, balbúrdia,
alteração da ordem. Há em São Luís do Maranhão em festa de
estudantes com essa denominação. Clitóris.
Taioba:
nádegas. Negócio inconfessável mas vantajoso. Roendo taioba sem
ninguém saber.
Tareco:
biscoito de farinha de trigo, ovos, açúcar, de forma discóide,
pequenino e duro. Miudezas caseiras, bugigangas e bagatelas domésticas,
pequeninos objetos, misturados, confusos. Cacarecos.
Texeré:
é a infusão de erva-mate (Ilex paraguaiensis, St.Hil.) n’água
fria, sul do Mato Grosso e Paraguai, ao contrário do chimarrão que
é feito com água quente, tradicional no Rio Grande do Sul e províncias
vizinhas. O tereré não determina o mesmo efeito no plano da convivência
que o semi-alimento gaúcho. Daí as frases alusivas: Tereré não
resolve, deixe de tereré, isto é tereré, valendo circunlóquio,
inutilidade verbal, paliativo. A frase divulgou-se, depois de 1930,
por todo o Brasil.
Tomates:
testículos. Exclamação: Uns tomates!
Uva:
beleza, sabor, suficiente para ser cobiçada; completa. É uma uva!
Já era empregada em Portugal no século XVI.
Vinagre:
usurários, agiotas, emprestando dinheiro a juros altos, executando as
penhoras sem piedade. Vinagrada, vinagreira, ação do vinagre,
eram aplicados no mesmo sentido, notadamente no Recife em princípios
do século XX onde Pereira da Costa do registrou.
Xaréu:
o peixe Caranx hippos no vocabulário nordestino valia mentira,
imaginação. Todos afirmavam ter ceado xaréu quando a comida fora
outra bem diversa. Comi cação, arrotei xaréu. Ficou o
delicioso carangídeo valendo petas e lorotas. Os nascidos na Cidade
Alta, em Natal, têm o apelido de xarias, comedores de xaréus. Os
da Cidade Baixa, a Ribeira, são os canguleiros, apreciadores
do cangulo. Pegou xaréu, mentir.
(Cascudo, Luís da Câmara. “Folclore da alimentação”. Em Revista
Brasileira de Folclore,
ano 3, nº 7, setembro/dezembro de 1963) |