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As estúrdias folganças de
deus Momo, derivado autêntico das saturnais que se realizavam nos
tempos da velha Roma, paixão violenta de nossos avós, que sempre por
elas viveram e deliraram, aqui vieram ter, trazidas pelos portugueses,
logo pelos princípios da colonização. Quando, porém? Exatamente não
se sabe. Sobre elas bem pouco nos instruem os cronistas de antanho,
menos por esquecimento da verdade, certo, que por uma natural deferência
para com a Santa Madre Igreja, perseguidora implacável, nesse tempo,
de todas as alegrias que não fossem alegrias do céu.
Bom será, entretanto, saber-se que, apesar da campanha sistemática e
terrível mantida pela mesma com o intuito, aliás, louvável, de
impedir desvarios profanos que transformavam o homem, filho de Deus,
em filho de Satã, o carnaval pôde, sempre, existir, tanto aqui, como
em Portugal, burlando a censura do clero, a desafiar as iras do
Senhor. Nem o que se chamou, um dia, “jubileu das quarenta e duas
horas”. conseguiu dominá-lo.
Essa idéia engenhosa e sutil foi uma invenção matreira de certo
bispo português que sonhava dar ao báculo de Sua Santidade a coroa
de louros que marcaria a vitória decisiva travada entre devotos do
deus Momo e os fiéis amigos de Jesus. Com ela, entretanto, não
logrou sabotar o delírio da gentalha carnavalesca e foliona que, em
demasia, estava a reviver a intemperança das orgias de Roma.
E como se organizavam as cerimônias desse jubileu? Assim: a igreja de
São Roque, em Lisboa, era toda decorada com galhardetes e folhagens.
Altares enfeitadíssimos, cheios de palmas e de flores. No coro,
vozes, dezenas de cantores, músicas. No centro da nave, num espetáculo
impressionante, a massa austera de uma pirâmide, mostrando, na parte
superior, a imagem do Santíssimo. (Quem dá as bases ao informe que
ora divulgamos é Ribeiro Guimarães, que as escreveu no seu Sumário
de Vária História). Sobre ele, de asa espalmada e bamba, um
serafim de olho melífluo e cabelancha loira, autêntica tramóia,
guardando no oco interior, um sacrista solícito que manejava uma
cordinha... Quando ele a retesava, o serafim maquinado mexia olho,
colhia a túnica, arregaçava a asa. Era quando a multidão contrita
caía de joelhos e a solfa das gargantas beatas gemia loas ao Senhor,
fazendo-se acompanhar dos instrumentos que, escandalosamente,
clangoravam.
A igreja de outros tempos, tanto em Portugal como no Brasil, possuía
desses maquinismos que foram desaparecendo com o tempo. Pela época de
Pedro I, por exemplo, ainda existia, na igreja do Carmo do Rio de
Janeiro, um deles que representava uma enorme cabeça esculturada em
madeira que emitia sons agudos, com eles comovendo ou aterrando os fiéis,
na hora de certas cerimônias religiosas. Essa tramóia, um tanto
espetaculosa, é citada por vários viajantes que nos visitaram no
começo do século XIX como coisa muito de ver e de admirar. Leiamos o
que nos diz sobre a mesma, John Luccock, no seu livro intitulado Notes
on Rio de Janeiro, publicado em Londres, no ano de 1820: “Bem
defronte e abaixo do gradeado do coro se vê uma imagem finamente
esculpida, muito semelhante ao que na Inglaterra se chama uma cabeça
de sarraceno. O rosto exprime pasmo, cólera e vexame, ou melhor, uma
espécie de ferocidade contida. Seus olhos são grandes e estatelados
e, por tal forma diretamente fixos sobre o pequeno crucifixo que se
encontra no altar, que ninguém se pode enganar quanto ao seu
objetivo. A boca é rude e aberta, contendo um pequeno tubo escondido,
em comunicação com o órgão. Durante as partes mais patéticas da
missa e, muito especialmente, na elevação da hóstia, tocam na tecla
desse tubo e a cabeça emite um grunhido pavoroso, como expressão de
horror que os fiéis devem ressentir em tal momento.”
Mas voltemos à igreja de São Roque, na tranqüila Lisboa de outros
tempos. Fora, no adro, em indumentária espaventosa, ficavam outros
sacristas balouçando caçoilas e turíbulos, tentando, de tal sorte,
arrastar pelo nariz, à prática piedosa, o cristão que por ali
surgisse. De três que passsassem, um, pelo menos, enfiava pela
igreja.
Depois, para fulminar, de vez, o irrequieto Satã, estroina e
desembestado, pelas ruas – procissão, préstito pomposíssimo.
Andores, estandartes, irmãos vestindo opas de cor berrante. Tochas.
Solfas, danças, máscaras, (assim eram as procissões do tempo) e o
senhor São Roque, trajando galas como um príncipe, num tufo de
pedras preciosas, sobre o seu plaustro vistoso, arrastado em triunfo.
Enfim, era a Santa Madre Igreja desafiando Momo, o inimigo cruel,
pelas vielas e alfurjas da cidade, incitando-o a uma refrega que, para
sempre, o desmoralizasse e vencesse. O cristãozinho da rua, olhando o
préstito catita, diante do fausto espetaculoso que passava,
impressionado e vencido, punha o joelho em terra, persignava-se, fazia
o olho de carneiro morto e começava a rezar. Rezava, rezava, não
engrossando, porém, a preparada procissão. No cérebro um pensamento
hostil ao jubileu, ardia-lhe. E era de vê-lo, então, de novo,
chafurdar na orgia, refocinhando na lama ignominiosa do pecado,
pobrezinho de Deus, dilatando em júbilos grosseiros, mas gostosos, a
alminha de beato e de cristão. Com tal prática, maculava-se
bastante, emporcalhava-se. Como, porém, uma consciência é lavada
como se lava uma camisa ou uma ceroula, no confessionário, batendo
com a mão espalmada no peito e a chamar pelo nome de Jesus, o folião,
pensando na hora do arrependimento, após tão árdegas folganças,
nada receava e tranqüilamente seguia o espírito do mal, dando de
ombros a São Roque, ao seu plaustro, aos padres e a toda aquela esplêndida
e pomposa liturgia. Era a vitória do Tinhoso... A igreja derrotada,
para evitar o maior vexame, acabou por extinguir, e para sempre, o
Jubileu, sem poder evitar que se perdessem e se danassem os
chafurdadores do pecado. E o entrudo continuou.
E o que era o carnaval português, esse mesmo entrudo que veio
transportado para cá? Uma festa grosseira, desabrida festança
popular, onde se bebia e se comia, intemperantemente; selvático
deleite de homens que cantavam, dançavam e se divertiam com
brutalidades que só mesmo podiam ser por esses tempos desculpadas.
Para saber o que nós fomos temos que viver olhando para trás. Por
isso, bom será indagar do passado como era o carnaval do colonizador
e tanto quanto possível documentar essas respostas. Eis, por exemplo
o que nos diz o escritor Pinto de Carvalho, quando nos descreve os
famosos entrudos que eram os dos fins do século XVIII e ainda
continuaram por quase todo o século XIX, em Lisboa. “Chegavam-se
para junto das janelas os cestos de ovos de gemas e de farinha,
cartuchos de pós de goma, cabacinhas de cera com água, os sacos
dalqueire, de tremoços, os tubos de vidro para os soprar, os
papelinhos, as laranjas, a luva de areia destinada a cair de chofre,
espipando o enfático chapéu alto, os púcaros de barro e até os
fogareiros, os tachos e os alguidares inválidos, para serem
despedidos, com ligeireza ginástica, sobre a cabeça do próximo...”
Delicadezas do tempo que não seria bem o dos boudoirs de ouro
e laca, dos minuetos que se dançavam com reverências e sorrisos, das
suaves galanterias pintadas por Lancret e por Watteau.
Pinto de Carvalho, escritor português, revivendo o carnaval de Lisboa
nos primeiros anos do século XIX, continua os detalhes pitorescos
desta festa pagã: “Nos escusos das escadas exerciam-se sevícias
graves, garotices inéditas, ataques a mão armada; aplicava-se a
velha gebada portuguesa, puxada com força galaica: suprimiam-se os
cordões de campainhas, os degraus das escadas eram besuntados de
sebo, os fechos das portas untados com substâncias tresadando a fétidos...
etc.” (Lisboa de outros tempos, v. I, p. 161)
Já Fernão Seropita chamava ao carnaval “festa de rascões”,
folganças onde não faltavam monumentais carraspanas e formidabilíssimas
pançadas:
Filhós, fatias, sonhos mal assados
Galinhas, porco, vaca e mais carneiro
Os perus em poder do pasteleiro
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas
Esfarinhar, pôr rabos, dar risadas
Gastar para comer muito dinheiro
Não ter mãos a medir o taberneiro
Com réstias de cebolas dar pancadas
Das janelas com tanhos dar nas gentes
A buzina tanger, quebrar panelas
Querer em um só dia comer tudo
Não perdoar a arroz, nem cuscuz quentes
Despejar pratos e limpar tigelas
Estas as festas são do gordo entrudo
O soneto vem da época do senhor dom João V, quando não se podia
compreender alegrias carnavalescas sem desregramentos de estômago,
vinhaça e vômito. Armavam-se largas e longas mesas pelos terreiros
das casas cheias de comeisanas, do melhor vinho e vá de comer e de
beber até rolar de farto ou de doente!
Que se saiba, esses desmandos epicuristas não são muito contados
pelas crônicas de antanho, pois eram vulgares, infalíveis nas
demonstrações de júbilo por parte do fiel devoto de Momo. Infalíveis,
outrossim, eram as máscaras que não foram, como talvez se pense,
apenas um disfarce gracioso para carnaval, mas, ainda, um atributo do
antigo culto católico. Como a dança. Porque não só se dançava nas
procissões, como até dentro das igrejas.
Em 1717 Gentil de la Barbinais, passando pela Bahia, não só descreve
danças religiosas que viu na igreja de São Gonçalo, como estampa,
ainda, no terceiro volume (p. 216) da sua Voyage autour du monde,
impressa em Paris, chez Brisson, rue Saint Jacques a la Science
(1729), curiosíssima gravura, representando as mesmas. Elucidando o
seu clichê, escreve ele: “Bem ou mal, fizeram-nos dançar. Era na
verdade interessante ver-se em uma igreja cheia de padres, de
mulheres, de frades, de cavalheiros e de escravos, todos a dançar, em
confusão, gritando – Viva São Gonçalo do Amarante!”
Pode bem ser que o ilustre viajor caricaturasse um tanto o quadro que
assistiu: o fato, porém, é que as danças, como as máscaras, já se
integraram ao culto da igreja. Há muito tempo e mesmo entre nós.
Nos tempos do senhor dom João VI, Debret observava que o carnaval
carioca, como o do resto do Brasil, em nada parecia com o que ele vira
em França, uma vez que era organizado sem bailes de máscaras e,
mesmo, sem cortejos populares, com gente a pé, a cavalo ou em
carruagens, pelas ruas. Era, como ele próprio observava, um carnaval
d’água, três dias de folia desfreada e chambã, sem músicas, sem
cortejo e sem bailados. Eram, além de folganças de copo e mesa, de
bebedeiras e de indigestões, chocarrices e facécias mais ou menos
violentas e brutais, cópia fiel dos velhos entrudos lisboetas que,
ainda no começo da última centúria, não haviam mudado.
Que as modas de cá
Vêm de lá
Menos as modas do saraná
Há quem afirme que o imperador Pedro I, com o seu gênio folião, era
devoto do deus Momo. Assim sendo, no paço de São Cristóvão, por
horas de estouvada loucura, a primeira coisa que deveria fazer, quem
tivesse juízo, era fechar o protocolo da Corte, escondendo-se na mais
recôndita arca de pau santo, pôr em lugar seguro os bibelôs de preço,
os quadros e os tapetes de valor, esperando pelas “gracinhas” de
sua majestade o imperador que talvez as tivesse tão boas como as do
Chalaça. E, atônito, assistir, sobre ministros de estado, sobre
embaixadores, generais, bispos, desembargadores e senhores do melhor
nome e mais citada distinção, num desespero de entrudo, à chuva
implacável de legumes, de hortaliças, de frutas verdes, de
utilidades caducas, arrancadas ao fundo das cozinhas imperiais, de
envolta com pós de goma, de carvão e água, ouvindo loucas e estrídulas
gargalhadas do Bragança, ébrio de contentamento e de prazer, aos
saltos, aos guinchos, o uniforme do melhor brinde em tiras, fazendo
rir a austera mordomia do palácio, os criados de galão e a baixa
famulagem. Imagine-se o patriarca José Bonifácio subindo as
escadarias do paço da Boa Vista, com quatro gemas de ovo no chapéu
armado, o olho roxo por uma abóbora d’água, o rabo da casaca do
uniforme, em sanfona, com manchas de polvilho e carvão vegetal! E
todos gozando a complacência heróica do patriarca, o seu sorriso
amarelo e as suas calças agarradas ao corpo como as de um homem que
atravessasse um rio a nado...
E o povo? Esse, também, se divertia.
Logo às primeiras horas da manhã, os escravos iniciavam,
bulhentamente, o entrudo, pelas senzalas e pelos logradouros da
cidade.
O Rio de Janeiro acordava em alvoroço, ouvindo os ambulantes que já
apregoavam as mercadorias da ocasião:
- Porvio! Limão de chêro, de toda cô. Bom chêro. Bom chêro.
Um pacote de polvilho custava, no começo da passada centúria, cinco
réis e uma dúzia de limões d’água, cheirando a canela, dois tostões.
O limão vinha no tabuleiro da preta e o pacote de pó de goma no
cesto ou no samburá.
- Porvio! Limão de chêro!
As crianças saltavam da cama, gritando: Entrudo! Entrudo! Entrudo!
E iam provocar a vizinhança, bombardeando as urupemas e grades de pau
com bolas de cera cheias de água, que lhes davam as famílias, atrás
das rótulas, a cocar a cabeça do primeiro que surgisse para
responder ao desafio. Dentro em pouco generalizava-se o combate. A
labareda de alegria pegava fogo em todo o Rio de Janeiro. E os limões
de cheiro a cruzar!
Entrudo! Entrudo! Entrudo!
Quem entruda sem amô
Dá siná de intimidade
Sinhá, entrude o sinhô
Para ter dele amizade...
(LUIZ EDMUNDO. Recordações
do Rio antigo) |