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Fevereiro 2001
Ano III - nº 30

VELHOS CARNAVAIS

As estúrdias folganças de deus Momo, derivado autêntico das saturnais que se realizavam nos tempos da velha Roma, paixão violenta de nossos avós, que sempre por elas viveram e deliraram, aqui vieram ter, trazidas pelos portugueses, logo pelos princípios da colonização. Quando, porém? Exatamente não se sabe. Sobre elas bem pouco nos instruem os cronistas de antanho, menos por esquecimento da verdade, certo, que por uma natural deferência para com a Santa Madre Igreja, perseguidora implacável, nesse tempo, de todas as alegrias que não fossem alegrias do céu.

Bom será, entretanto, saber-se que, apesar da campanha sistemática e terrível mantida pela mesma com o intuito, aliás, louvável, de impedir desvarios profanos que transformavam o homem, filho de Deus, em filho de Satã, o carnaval pôde, sempre, existir, tanto aqui, como em Portugal, burlando a censura do clero, a desafiar as iras do Senhor. Nem o que se chamou, um dia, “jubileu das quarenta e duas horas”. conseguiu dominá-lo.

Essa idéia engenhosa e sutil foi uma invenção matreira de certo bispo português que sonhava dar ao báculo de Sua Santidade a coroa de louros que marcaria a vitória decisiva travada entre devotos do deus Momo e os fiéis amigos de Jesus. Com ela, entretanto, não logrou sabotar o delírio da gentalha carnavalesca e foliona que, em demasia, estava a reviver a intemperança das orgias de Roma.

E como se organizavam as cerimônias desse jubileu? Assim: a igreja de São Roque, em Lisboa, era toda decorada com galhardetes e folhagens. Altares enfeitadíssimos, cheios de palmas e de flores. No coro, vozes, dezenas de cantores, músicas. No centro da nave, num espetáculo impressionante, a massa austera de uma pirâmide, mostrando, na parte superior, a imagem do Santíssimo. (Quem dá as bases ao informe que ora divulgamos é Ribeiro Guimarães, que as escreveu no seu Sumário de Vária História). Sobre ele, de asa espalmada e bamba, um serafim de olho melífluo e cabelancha loira, autêntica tramóia, guardando no oco interior, um sacrista solícito que manejava uma cordinha... Quando ele a retesava, o serafim maquinado mexia olho, colhia a túnica, arregaçava a asa. Era quando a multidão contrita caía de joelhos e a solfa das gargantas beatas gemia loas ao Senhor, fazendo-se acompanhar dos instrumentos que, escandalosamente, clangoravam.

A igreja de outros tempos, tanto em Portugal como no Brasil, possuía desses maquinismos que foram desaparecendo com o tempo. Pela época de Pedro I, por exemplo, ainda existia, na igreja do Carmo do Rio de Janeiro, um deles que representava uma enorme cabeça esculturada em madeira que emitia sons agudos, com eles comovendo ou aterrando os fiéis, na hora de certas cerimônias religiosas. Essa tramóia, um tanto espetaculosa, é citada por vários viajantes que nos visitaram no começo do século XIX como coisa muito de ver e de admirar. Leiamos o que nos diz sobre a mesma, John Luccock, no seu livro intitulado Notes on Rio de Janeiro, publicado em Londres, no ano de 1820: “Bem defronte e abaixo do gradeado do coro se vê uma imagem finamente esculpida, muito semelhante ao que na Inglaterra se chama uma cabeça de sarraceno. O rosto exprime pasmo, cólera e vexame, ou melhor, uma espécie de ferocidade contida. Seus olhos são grandes e estatelados e, por tal forma diretamente fixos sobre o pequeno crucifixo que se encontra no altar, que ninguém se pode enganar quanto ao seu objetivo. A boca é rude e aberta, contendo um pequeno tubo escondido, em comunicação com o órgão. Durante as partes mais patéticas da missa e, muito especialmente, na elevação da hóstia, tocam na tecla desse tubo e a cabeça emite um grunhido pavoroso, como expressão de horror que os fiéis devem ressentir em tal momento.”

Mas voltemos à igreja de São Roque, na tranqüila Lisboa de outros tempos. Fora, no adro, em indumentária espaventosa, ficavam outros sacristas balouçando caçoilas e turíbulos, tentando, de tal sorte, arrastar pelo nariz, à prática piedosa, o cristão que por ali surgisse. De três que passsassem, um, pelo menos, enfiava pela igreja.

Depois, para fulminar, de vez, o irrequieto Satã, estroina e desembestado, pelas ruas – procissão, préstito pomposíssimo. Andores, estandartes, irmãos vestindo opas de cor berrante. Tochas. Solfas, danças, máscaras, (assim eram as procissões do tempo) e o senhor São Roque, trajando galas como um príncipe, num tufo de pedras preciosas, sobre o seu plaustro vistoso, arrastado em triunfo. Enfim, era a Santa Madre Igreja desafiando Momo, o inimigo cruel, pelas vielas e alfurjas da cidade, incitando-o a uma refrega que, para sempre, o desmoralizasse e vencesse. O cristãozinho da rua, olhando o préstito catita, diante do fausto espetaculoso que passava, impressionado e vencido, punha o joelho em terra, persignava-se, fazia o olho de carneiro morto e começava a rezar. Rezava, rezava, não engrossando, porém, a preparada procissão. No cérebro um pensamento hostil ao jubileu, ardia-lhe. E era de vê-lo, então, de novo, chafurdar na orgia, refocinhando na lama ignominiosa do pecado, pobrezinho de Deus, dilatando em júbilos grosseiros, mas gostosos, a alminha de beato e de cristão. Com tal prática, maculava-se bastante, emporcalhava-se. Como, porém, uma consciência é lavada como se lava uma camisa ou uma ceroula, no confessionário, batendo com a mão espalmada no peito e a chamar pelo nome de Jesus, o folião, pensando na hora do arrependimento, após tão árdegas folganças, nada receava e tranqüilamente seguia o espírito do mal, dando de ombros a São Roque, ao seu plaustro, aos padres e a toda aquela esplêndida e pomposa liturgia. Era a vitória do Tinhoso... A igreja derrotada, para evitar o maior vexame, acabou por extinguir, e para sempre, o Jubileu, sem poder evitar que se perdessem e se danassem os chafurdadores do pecado. E o entrudo continuou.

E o que era o carnaval português, esse mesmo entrudo que veio transportado para cá? Uma festa grosseira, desabrida festança popular, onde se bebia e se comia, intemperantemente; selvático deleite de homens que cantavam, dançavam e se divertiam com brutalidades que só mesmo podiam ser por esses tempos desculpadas. Para saber o que nós fomos temos que viver olhando para trás. Por isso, bom será indagar do passado como era o carnaval do colonizador e tanto quanto possível documentar essas respostas. Eis, por exemplo o que nos diz o escritor Pinto de Carvalho, quando nos descreve os famosos entrudos que eram os dos fins do século XVIII e ainda continuaram por quase todo o século XIX, em Lisboa. “Chegavam-se para junto das janelas os cestos de ovos de gemas e de farinha, cartuchos de pós de goma, cabacinhas de cera com água, os sacos dalqueire, de tremoços, os tubos de vidro para os soprar, os papelinhos, as laranjas, a luva de areia destinada a cair de chofre, espipando o enfático chapéu alto, os púcaros de barro e até os fogareiros, os tachos e os alguidares inválidos, para serem despedidos, com ligeireza ginástica, sobre a cabeça do próximo...”

Delicadezas do tempo que não seria bem o dos boudoirs de ouro e laca, dos minuetos que se dançavam com reverências e sorrisos, das suaves galanterias pintadas por Lancret e por Watteau.

Pinto de Carvalho, escritor português, revivendo o carnaval de Lisboa nos primeiros anos do século XIX, continua os detalhes pitorescos desta festa pagã: “Nos escusos das escadas exerciam-se sevícias graves, garotices inéditas, ataques a mão armada; aplicava-se a velha gebada portuguesa, puxada com força galaica: suprimiam-se os cordões de campainhas, os degraus das escadas eram besuntados de sebo, os fechos das portas untados com substâncias tresadando a fétidos... etc.” (Lisboa de outros tempos, v. I, p. 161)

Já Fernão Seropita chamava ao carnaval “festa de rascões”, folganças onde não faltavam monumentais carraspanas e formidabilíssimas pançadas:

Filhós, fatias, sonhos mal assados
Galinhas, porco, vaca e mais carneiro
Os perus em poder do pasteleiro
Esguichar, deitar pulhas, laranjadas

Esfarinhar, pôr rabos, dar risadas
Gastar para comer muito dinheiro
Não ter mãos a medir o taberneiro
Com réstias de cebolas dar pancadas

Das janelas com tanhos dar nas gentes
A buzina tanger, quebrar panelas
Querer em um só dia comer tudo

Não perdoar a arroz, nem cuscuz quentes
Despejar pratos e limpar tigelas
Estas as festas são do gordo entrudo

O soneto vem da época do senhor dom João V, quando não se podia compreender alegrias carnavalescas sem desregramentos de estômago, vinhaça e vômito. Armavam-se largas e longas mesas pelos terreiros das casas cheias de comeisanas, do melhor vinho e vá de comer e de beber até rolar de farto ou de doente!

Que se saiba, esses desmandos epicuristas não são muito contados pelas crônicas de antanho, pois eram vulgares, infalíveis nas demonstrações de júbilo por parte do fiel devoto de Momo. Infalíveis, outrossim, eram as máscaras que não foram, como talvez se pense, apenas um disfarce gracioso para carnaval, mas, ainda, um atributo do antigo culto católico. Como a dança. Porque não só se dançava nas procissões, como até dentro das igrejas.

Em 1717 Gentil de la Barbinais, passando pela Bahia, não só descreve danças religiosas que viu na igreja de São Gonçalo, como estampa, ainda, no terceiro volume (p. 216) da sua Voyage autour du monde, impressa em Paris, chez Brisson, rue Saint Jacques a la Science (1729), curiosíssima gravura, representando as mesmas. Elucidando o seu clichê, escreve ele: “Bem ou mal, fizeram-nos dançar. Era na verdade interessante ver-se em uma igreja cheia de padres, de mulheres, de frades, de cavalheiros e de escravos, todos a dançar, em confusão, gritando – Viva São Gonçalo do Amarante!”

Pode bem ser que o ilustre viajor caricaturasse um tanto o quadro que assistiu: o fato, porém, é que as danças, como as máscaras, já se integraram ao culto da igreja. Há muito tempo e mesmo entre nós.

Nos tempos do senhor dom João VI, Debret observava que o carnaval carioca, como o do resto do Brasil, em nada parecia com o que ele vira em França, uma vez que era organizado sem bailes de máscaras e, mesmo, sem cortejos populares, com gente a pé, a cavalo ou em carruagens, pelas ruas. Era, como ele próprio observava, um carnaval d’água, três dias de folia desfreada e chambã, sem músicas, sem cortejo e sem bailados. Eram, além de folganças de copo e mesa, de bebedeiras e de indigestões, chocarrices e facécias mais ou menos violentas e brutais, cópia fiel dos velhos entrudos lisboetas que, ainda no começo da última centúria, não haviam mudado.

Que as modas de cá
Vêm de lá
Menos as modas do saraná

Há quem afirme que o imperador Pedro I, com o seu gênio folião, era devoto do deus Momo. Assim sendo, no paço de São Cristóvão, por horas de estouvada loucura, a primeira coisa que deveria fazer, quem tivesse juízo, era fechar o protocolo da Corte, escondendo-se na mais recôndita arca de pau santo, pôr em lugar seguro os bibelôs de preço, os quadros e os tapetes de valor, esperando pelas “gracinhas” de sua majestade o imperador que talvez as tivesse tão boas como as do Chalaça. E, atônito, assistir, sobre ministros de estado, sobre embaixadores, generais, bispos, desembargadores e senhores do melhor nome e mais citada distinção, num desespero de entrudo, à chuva implacável de legumes, de hortaliças, de frutas verdes, de utilidades caducas, arrancadas ao fundo das cozinhas imperiais, de envolta com pós de goma, de carvão e água, ouvindo loucas e estrídulas gargalhadas do Bragança, ébrio de contentamento e de prazer, aos saltos, aos guinchos, o uniforme do melhor brinde em tiras, fazendo rir a austera mordomia do palácio, os criados de galão e a baixa famulagem. Imagine-se o patriarca José Bonifácio subindo as escadarias do paço da Boa Vista, com quatro gemas de ovo no chapéu armado, o olho roxo por uma abóbora d’água, o rabo da casaca do uniforme, em sanfona, com manchas de polvilho e carvão vegetal! E todos gozando a complacência heróica do patriarca, o seu sorriso amarelo e as suas calças agarradas ao corpo como as de um homem que atravessasse um rio a nado...

E o povo? Esse, também, se divertia.

Logo às primeiras horas da manhã, os escravos iniciavam, bulhentamente, o entrudo, pelas senzalas e pelos logradouros da cidade.

O Rio de Janeiro acordava em alvoroço, ouvindo os ambulantes que já apregoavam as mercadorias da ocasião:

- Porvio! Limão de chêro, de toda cô. Bom chêro. Bom chêro.

Um pacote de polvilho custava, no começo da passada centúria, cinco réis e uma dúzia de limões d’água, cheirando a canela, dois tostões. O limão vinha no tabuleiro da preta e o pacote de pó de goma no cesto ou no samburá.

- Porvio! Limão de chêro!

As crianças saltavam da cama, gritando: Entrudo! Entrudo! Entrudo!

E iam provocar a vizinhança, bombardeando as urupemas e grades de pau com bolas de cera cheias de água, que lhes davam as famílias, atrás das rótulas, a cocar a cabeça do primeiro que surgisse para responder ao desafio. Dentro em pouco generalizava-se o combate. A labareda de alegria pegava fogo em todo o Rio de Janeiro. E os limões de cheiro a cruzar!

Entrudo! Entrudo! Entrudo!

Quem entruda sem amô
Dá siná de intimidade
Sinhá, entrude o sinhô
Para ter dele amizade...


(LUIZ EDMUNDO. Recordações do Rio antigo)

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