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QUEBRANTO

O mau olhado, na Amazônia, tem o nome de quebranto é uma designação expressiva. Talvez mesmo mais expressiva que a outra, aquela que ofereceu a Veiga Miranda o entrecho de seu melhor romance.

A influência magnética do olhar e os fluidos bons e maus que dele se desprendem são para as gente simples de todo o Brasil uma das maiores preocupações domésticas.

No sul é o mau olhado; no norte, o quebranto. As mães têm um cuidado infinito em preservar os seu bebês das desgraças malignas. E apelam para tudo. Na Amazônia que é o habitat das velhas superstições da raça, onde se cruzam e identificam as crendices do europeu, do africano e do indígena há um verdadeiro arsenal de coisas para evitar remediar e sarar os efeitos do quebranto.

A mentalidade da gente rústica seguindo até certo ponto a tradição dos antepassados da maloca, recusa-se a admitir a doença por si mesmo; só a considera em virtude de forças estranhas, que se desencadeiam principalmente através do olhar.

Daí a força que se atribui ao quebranto.

A gripe, a dor de cabeça, o cansaço, a debilidade orgânica, qualquer prostração ou abatimento produzido pelo próprio clima, nada disso tem uma justificativa científica para o espírito ingênuo do povo.

Ele diz logo que foi quebranto.

E não admite outra causa.

É curioso e palpitante o estoque de novidades catalogadas com o objetivo de preservar a espécie humana das sortidas de um olhar perigoso. Homens, mulheres e crianças defendem-se bravamente dos fluidos maléficos que andam no ar, inventando armas pitorescas para combater inimigos invisíveis. Figas, cantas, saquitéis orações, galhos de arruda, os mais variados amuletos são utilizados com o fim de neutralizar as forças ocultas do mal, que andam espalhadas pelo mundo.

Por isso mesmo, é muito comum encontrar-se nos bairros pobres, e até entre gente arremediada e culta, que se não dispense de juntas ao peito ou ao pulso de seu bebê um breve ou uma figa, na convicção de que essas prendas desviam as descargas magnéticas e afastam os maus intuitos das pessoas.

As imagens de santos, principalmente a de Nossa Senhora de Nazaré, padroeira do povo paraense, entram também como elementos seguros na lista contra salvação na benzedura.

Não há medicina capaz de rivalizar com a habilidade daquelas comadres saídas de uma página do passado, e buscadas ao esconderijos dos cortiços para tirar do corpo das crianças, com um galinho de arruda, o fluído maléfico que se introduziu nelas.

A benzedura opera verdadeiros milagres a esse respeito. O que não conseguiria a sapiência de um médico por mais que empregasse todos os recursos de sua especialidade, logra obter, em poucos momentos de oração, a técnica da mulher que benze.

Recordo-me de ter ouvido, em minha infância, uma velha doceira, doublé de benzedeira, chamada tia Melania, passar a mão sobre a cabecinha de meus irmãos menores, murmurando trechos como este que me ficou na memória:

"Em nome da Virgem,
Quebranto, mau olhado,
Sai-te daqui:
Que este menino
Não é pra ti."

Aos influxos desta experiência desaparece o mal-estar, acaba-se a prostração, some-se a fraqueza a dor de cabeça, vai embora e a confiança volta novamente a alegrar e a povoar o ânimo da vítima.

Esse ritual empresta um prestígio absoluto ao quebranto, a doença mais resistente às imposições da ciência e mais sensível à solicitação das velhas comadres que ainda espelham a ingenuidade o sentimento e a crendice da alma popular.

(Orico, Osvaldo. Vocabulário de crendices amazônicas)

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