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NOMES BRASILEIROS

NOMES BRASILEIROS
(28 de maio de 1846)

Mas temos mais alguma coisa a fazer, além de estar espiando da janela. Aqui está o Orçamento Nacional para 1847-1848, que acaba de ser divulgado, exibindo a receita e a despesa da nação, os salários do imperador, dos funcionários do Estado, e uma lista de quase 2.000 aposentados. Folheando as suas páginas vemos nomes notáveis por sua significação literal, outros por seu profundo matiz religoso, e alguns por suas singulares combinações. Como hoje não vamos sair, dediquemos uma hora à leitura desse documento, pois estes nomes oferecem motivo para especulações curiosas.

Como nos velhos tempos, a ordem alfabética é por nome dos indivíduos e não das famílias. As cartas nos correios são sobrescritas como entre nós, mas na lista dos aposentados os nomes começam com Ágatas, e Anas, continuam com Claras, Floras, Henriques, Manuéis e em seguida Pedros, Teresas, Verônicas e Zeferinas.

São comuns, na grande parte das pessoas, nomes derivados de qualidades pessoais, profissões, instrumentos, animais, árvores. Ninguém mantém deles traços mais interessantes, nem os desfigura mais que os portugueses. Como existe a crença de que os santos se lisonjeiam com a circunstância de as crianças virem a ter os seus nomes, predominam entre os meninos Pedros e Josés, enquanto entre as meninas pululam as Marias e as Anas. E como a mãe de Cristo é reverenciada sob diversos nomes, quase todas as Marias têm cognomes expressivos das encarnações populares da Madona. Outro hábito é o de aglomerar uma série de nomes na criança na esperança de que ela alcance as virtudes de cada padroeiro celeste. Com esse objetivo, prenomes e agnomes masculinos são dado às mulheres, e nomes femininos às vezes se dão aos homens.

Dos patronímicos primitivos, principalmente tomados à natureza, os seguintes são apenas alguns dos muitos exemplos que poderiam ser dados. Os prenomes, na sua maioria religiosos, são, para maior brevidade, abandonados, exceto um: Angélica Ramos Calçada, Amélia Pacífica, Imógine Sardinha, Ana Salgueiro dos Remédios, Rosa Lampreia, Francisca Gago, Clara Braseiro, Claudina Peixe, Emília Pires, Maria das Fontes, Luísa Emancipada de França, Luísa Pena, Boa Pastora da Costa Navarro, Joaquim Leitão de Almeida, Maria de Oliveira Belo, Maria Canto de Almeida, Isabel Barbalho, Isabel Milfolhas, Bárbara Chaves, João Machado, Florença Caldeira, Antônio Falcão, Inocência Brandão de Arruda, Joaquina Castelo Branco.

Combinação de sobrenomes primitivos: Catarina Lobo Espinheiro, Maria Ramos Pires, João Pereira Cunha, Joana das Neves, Maria Perdigão Ribeiro, Bárbara Chaves e Aranha, Manuel Leitão Bandeira, Ana Pena de Alencar. Uma senhora ao meu lado é Maria Pires Coelho e um médico assina-se Fortegato, strong-cat.

Combinação de nomes leigos com religiosos: Pinheiro de Jesus, Conceição Coelho, Assunção Espinheiro, Rosa Espírito Santo, Catarina Branca dos Santos, Purificação Perdigão, Pureza Falcão, Jesus Flores Cravo, Ferreira Trindade, Jardim Freire de Macedo, Justo Santos Portugal, Flecha dos Santos.

Inteiramente religiosos: Maria do Amor Divino, Rosa da Conceição, Rosa do Espírito Santo, Catarina Branca dos Santos, João Santos Rocha, Joaquim Valente de Jesus, Ana Plácida do Coração de Jesus, Maria da Luz, da Maternidade, etc. A lavadeira de nossa família é Maria Rosa de Jesus e do Espírito Santo.

Não nos devemos esquecer de que a mania dos nomes tirados da Escritura não se confina a uma seita. Um tipo protestante desta doença prevaleceu na Inglaterra durante a Commonwealth, e quanto aos patronímicos leigos ocorrem, sem dúvida, alguns entre nós, tão curiosos quanto os que citei. É apenas quando se apresentam numa roupagem estrangeira que causam alguma surpresa. Revestindo-os, poderão transformar-se em nomes de amigos, quando não parentes.

Nomes ligados a profissões, exemplos do Almanaque do Rio: José Maria da Sé é fabricante de sabonetes. José Jesus faz esporas e amuletos. Sabina Madeira Nazaré é ourives. São Francisco Antônio César vende paliteiros. João Batista é dourador. Francisco Ribeiro Leitõ é pirotécnico. Miguel da Natividade é curtidor. Manuel Jesus, chapeleiro. José Maria da Trindade, carpinteiro. A viúva Lagarto tem uma tabacaria. José Pinheiro dos Santos é um caldeireiro. A viúva Silvano Leite vende vinho. Joaquim dos Santos vende carne-seca. O barão da Boa Ventura é despachante. José Mãe de Deus vende charutos. Benjamin Carneiro é segundo-tenente. Simão de Nazaré é armeiro, Antônio Santos Passos tem uma cocheira. Miguel Arcanjo de Miranda é colador de papel. Augusto César é funcionário da Alfândega.

No Teatro Municipal encontramos Antônio Tomás Peregrino, empresário, Maria José Nunes, ponto. João Araújo do Espírito Santo, guarda-livros, Antônio de Oliveira, colador de cartazes, José da Natividade e Joaquim Vigia de Santa Rita, cenarista. Joana Rosa de Jesus, figurante, etc. Grande parte dos artistas, entre eles, B. J. Ferdinando Caqueirada – literalmente, um golpe com um caco de louça – moram nas ruas Espírito Santo, Conceição e Sacramento.

Se houver moral nas palavras e virtudes nos nomes, os ocupantes do continente sul são superlativamente felizes; mas nomes nem celestes nem terrestres tornam os homens sábios ou bons. Todo dia, o noticiário policial mostra-nos a associação dos nomes mais sagrados com as paixões mais vis.

Esméria Maria da Conceição e Ana de Jesus foram presas ontem por terem promovido um conflito na rua e Saturnina Maria Conceição por embriaguez. Outro dia, Mônica Maria da Paixão, Luísa Tereza Rosa, Zeferino do Espírito Santo, José Maria dos Anjos e Antônio Luís dos Santos foram presos por briga; e mais ainda, Generosa Luísa da Conceição, Maria e José Maria dos Santos foram presos por conflito; José Dionísio Piedade por agressão e os mulatos Lourenço Alves e Jacinto José do Espírito Santo por necromancia.

Nomes de navios: Percorrendo as colunas marítimas dos jornais, vê-se que a piedade dos construtores e proprietários dos navios transparece nos nomes dos barcos. Nomes políticos e morais ocorrem, mas a maior parte é tirada do calendário, ou então com implicações religiosas. Alguns exemplos bastam: Triunfo do Brasil, Tentação, Bom Jesus do Além (comum), Conceição (muito comum), Santa Cruz, Coragem, Novo São Francisco, Santos Mártires, Nossa Senhora da Natividade, Segunda Conceição de Maria, Prazer de Deus, Protetor dos Anjos, Espírito Santo, Aleluia, Brilhante Santo Antônio, Protetora dos Anjos, Asilo da Virtude, Conceição da Rainha dos Anjos.

Mudança de nomes: Frades e freiras despem-se dos velhos nomes assim como todo cardeal, que quando chega ao papado, escolhe nome novo. Este costume começou com Sergius e por alguma razão, pois que Os Porci, cara de porco, era alguma coisa que não condizia em absoluto com o nome de Sua Santidade.

Muitos patronímicos portugueses indicam não apenas uma origem remota mas oriental, especialmente os derivados dos nomes de animais, aves, frutas, utensílios domésticos, de caça, etc. Dos últimos nomes, Sílvio pode ser um deles, mas pode ser dificilmente posterior à época da Ilíada. Boa Ventura e Bom Sucesso são da alta antigüidade. O último foi o nome de Aristóteles, que em grego quer dizer a mesma coisa. Alguns que parecem de origem eclesiástica são de data muito anterior. Silva é provavelmente um deles. Significa um cilício usado por penitentes, mas a auto-tortura vai a tempos mais recuados. Os sacerdotes de Baal estimulavam-na. O mesmo acontece com Romeiro. Data provavelmente de tempo anterior às Cruzadas, uma vez que as peregrinações a lugares santos também eram feitas pelos antigos pagãos.

O primeiro senhor Leitão pode ter recebido o seu nome na infância por ser parecido com um filhote de porco, sugando vigorosamente os seios da mãe. A família dos Paios deriva-se claramente dos seus apetites carnívoros. O grande ancestral de Joaquim e Joaquina Sampaio teriam sido possivelmente acusados de nutrir sua família às expensas de um mosteiro. Os porcos eram um presente comum que se fazia aos antigos padres, e eram então considerados sagrados, mas de que o seu roubo não constituía pecado raro existem abundantes provas. Alguns conventos possuem nada menos que dois mil, cuja alimentação lhes sai de graça, pois que eles têm o privilégio de errar pelas ruas, mercados e mesmo pelas residências particulares, sem que ninguém se atreva a enxotá-los, pois que são considerados os "porcos do Senhor". Para salvar seus porcos, os padres lançavam anátemas contra os que os roubassem e dão-se exemplos de homens que morreram loucos depois de terem comido carne de porco roubado. Imaginamos que o primeiro senhor Sampaio haja santificado o seu roubo com o provérbio "Roube um porco e dê os seus pés de esmola" – brocardo instrutivo que devemos à piedade de algum ladrão de porcos.

Com o consentimento do leitor, encerraremos o capítulo dos nomes com o do senhor Pompílio, um jovem cavalheiro do Congo, que por alguns momentos se inclinou diante de nós sorrindo apenas como os seus conterrâneos sabem sorrir. Ele estende o indicador da mão direita sobre o seu ombro e depois em cortesia, acena em direção de uma porta interior, e vendo-nos por fim deixar a pena, seus olhos inundam-se de alegria diante do sucesso de seu convite para acompanharmos as senhoras no chá.


(EWBANK, Thomas. A vida no Brasil)

Agnome: entre os romanos, alcunha ou apelido que se acrescentava ao cognome, e que ordinariamente se derivava de uma virtude ou feito notáveis

Anátema: maldição, excomunhão

Brocardo: axioma, aforismo, provérbio

Cilício: pequena túnica ou cinto ou cordão, de crina, de lã áspera, às vezes com farpas de madeira, que, por penitência, se trazia vestido diretamente sobre a pele

Necromancia: magia negra

Patronímico: diz-se do sobrenome derivado do nome do pai ou de antecessor

 

Na rede:

Adegesto Pataca, Alce Barbuda, Antônio Camisão, Antônio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete... Veja uma colêtanea de centenas de nomes curiosos no website Jus Navigandi.

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