| Cateretê, dança usada pelos catequistas,
é muito conhecida e difundida entre os caipiras do estado de São Paulo. Nas zonas
litorâneas que temos visitado desde de Angra dos Reis (estado do Rio de Janeiro) até a
baía de Paranaguá (estado do Paraná) ele é dançado com tamancos de madeira dura. Nas
zonas pastoris (Barretos, Guaratinguetá, Itararé e sul do estado de São Paulo, Piraí
no estado do Paraná), usam grandes esporas chilenas para retinir; em Taubaté,
Cunha, São Luís do Paraitinga, Natividade da Serra, Redenção da Serra, Jambeiro, São
Pedro de Catuçaba, Lagoinha, nas danças que temos participado, quase todos dançam
descalços. O dançador do Cateretê procura sempre pisar nas cordas de viola
expressão popular encontrada em todos os lugares citados, que significa, ritmar o bater
dos pés com o som da viola. Observamos que no estado de São Paulo, em zonas diferentes,
à mesma dança dão-lhe nomes diferentes. Assim em Nazaré paulista, Piracaia, chamaram
catira, havendo algumas pessoas nesses lugares que também chamavam de cateretê. Em
Cunha, tivemos oportunidade de, por diversas vezes, tomar parte nessa dança, que a chamam
de Xiba. Em Tiête, Tatuí, Porongaba, Itapetininga e Taubaté, chama-na de cateretê.
Esta é a denominação mais encontrada. Nos
Cateretê, Xiba, Catira, das regiões acima citadas, somente tomam parte elementos do sexo
masculino. (No de Parati, estado do Rio de Janeiro, tomam parte mulheres que não
sapateiam).
Pelas observações in-loco das danças do
Cateretê, quer sob nome de Xiba ou Catira, comparando-as com as descrições colhidas nas
tribos indígenas, e pela cinegrafia que temos vistos, levaram-nos à conclusão de que
Cateretê é de origem ameríndia. É coreografia índia sabiamente aproveitada pelo
catequista tal qual se fizera com a dança do Cururu, Santa Cruz. O Cateretê é
semi-profano e semi-religioso ao passo que aquelas são danças religiosas.
No Cateretê em geral tomam parte dois violeiros e cinco
ou mais pares de dançantes. O traje é comum. Em geral todas as danças são realizadas
à noite, característico que no sul do país as distingue dos bailados ou
danças-dramáticas realizados durante o dia. Não é dança de terreiro mas de salão.
No centro do salão os dançadores formam duas colunas,
tendo à testa delas um violeiro cantador. Um dos violeiros é o mestre e o outro é
contra-mestre. Mestre é a designação popular dada ao violeiro que faz a
primeira voz e também é o autor da moda que vai ser cantada. Contra-mestre
é o que faz a segunda voz. Entre dançantes e violeiros na coluna em que está o mestre
fica o tirador de palmas e na outra o tirador de sapateado. Não raro um
exerce as duas funções de determinar o momento das batidas de palmas e do bater dos
pés, execução do pateio, porque batem com o pé em cheio no solo. Não é o sapateado
batidas da ponta, meia planta e planta do pé; em nossas danças caipiras o que realmente
há é o pateio. Jamais vimos o taconeio, batidas do calcanhar que denunciam origem
espanhola.
Os violeiros cantam e batem os pés, não batem palmas.
Os dançantes não cantam, mas batem palmas e pés.
Quando todos estão formados, os violeiros dão uns
harpejos. Iniciam o canto em dueto, pedindo licença para cantar. Cessado o canto da
primeira estrofe os violeiros saem dos seus lugares por fora das colunas, em passo normal,
andando naturalmente vão até a extremidade da fila, sendo acompanhados pelos seus
respectivos companheiros de coluna. Param. Depois de uma pausa muito pequena, todos os
dançantes e os violeiros também, trocam de lugares com os pares fronteiros ritmicamente,
cruzando pelo centro da colunas. Chamam a esta figura , vorteá e cruzá (dar
volta e cruzar). A volta é feita para cumprimentar os assistentes. Esse cumprimento não
se manifesta por movimentos da cabeça ou outro gesto, mas apenas através do significado
da figura da volta que é por todos conhecida.
Esta volta é dada com os violeiros harpejando molemente
as violas e é executada somente na fase inicial não há repetição. Finalizando o vorteamento
e o cruzamento, os violeiros dão início a moda que é cantada a duas vozes. Os
dançadores ficam em seus lugares, parados e geralmente com as duas mãos metidas nas
algibeiras das calças.
Quando os violeiros finalizam a estrofe, dão uns
acordes, e o Tirador de palmas dá início a batidas de palmas. Todos os demais
dançantes olham atentos para ele, assim batem ritmadamente sem errar.
As violas fazem uma pequena pausa, e em outro ritmo dão
início ao bater dos pés, que é dirigido pelo tirador de sapateado. Quando os
violeiros percebem que todos os dançantes estão firmes no bater do pés , também repicam
os pés pateando com vontade. Param todos. Os violeiros cantadores, iniciam o
harpejar das violas e como que tomando um fôlego isto é, respirando até
normalizar a respiração, reiniciam a moda, cantando outra estância. Vão alternando
canto, bater de palmas e de pés.
Para finalizar a moda, os violeiros fazem a suspendida.
A suspendida consiste na inclusão de dois ou três versos (número incerto) a
mais que as estrofes anteriores. Cantam estes versos uma oitava acima, geralmente em
falsete. Ao finalizar a estrofe, param de planger as violas, está terminado o cateretê,
os dançadores deixam seus lugares, enxugando o suor do rosto.
(ARAÚJO, Alceu
Maynard. Documentário Folclórico
Paulista e Instrumentos Musicais e Implementos) |
|