Jangada Brasil, nº 18, fevereiro de 2000: Festança – Cateretê

CATERETÊ

Cateretê, dança usada pelos catequistas, é muito conhecida e difundida entre os caipiras do estado de São Paulo. Nas zonas litorâneas que temos visitado desde de Angra dos Reis (estado do Rio de Janeiro) até a baía de Paranaguá (estado do Paraná) ele é dançado com tamancos de madeira dura. Nas zonas pastoris (Barretos, Guaratinguetá, Itararé e sul do estado de São Paulo, Piraí no estado do Paraná), usam grandes esporas chilenas para retinir; em Taubaté, Cunha, São Luís do Paraitinga, Natividade da Serra, Redenção da Serra, Jambeiro, São Pedro de Catuçaba, Lagoinha, nas danças que temos participado, quase todos dançam descalços. O dançador do Cateretê procura sempre pisar nas cordas de viola expressão popular encontrada em todos os lugares citados, que significa, ritmar o bater dos pés com o som da viola. Observamos que no estado de São Paulo, em zonas diferentes, à mesma dança dão-lhe nomes diferentes. Assim em Nazaré paulista, Piracaia, chamaram catira, havendo algumas pessoas nesses lugares que também chamavam de cateretê. Em Cunha, tivemos oportunidade de, por diversas vezes, tomar parte nessa dança, que a chamam de Xiba. Em Tiête, Tatuí, Porongaba, Itapetininga e Taubaté, chama-na de cateretê. Esta é a denominação mais encontrada.

Nos Cateretê, Xiba, Catira, das regiões acima citadas, somente tomam parte elementos do sexo masculino. (No de Parati, estado do Rio de Janeiro, tomam parte mulheres que não sapateiam).

Pelas observações in-loco das danças do Cateretê, quer sob nome de Xiba ou Catira, comparando-as com as descrições colhidas nas tribos indígenas, e pela cinegrafia que temos vistos, levaram-nos à conclusão de que Cateretê é de origem ameríndia. É coreografia índia sabiamente aproveitada pelo catequista tal qual se fizera com a dança do Cururu, Santa Cruz. O Cateretê é semi-profano e semi-religioso ao passo que aquelas são danças religiosas.

No Cateretê em geral tomam parte dois violeiros e cinco ou mais pares de dançantes. O traje é comum. Em geral todas as danças são realizadas à noite, característico que no sul do país as distingue dos bailados ou danças-dramáticas realizados durante o dia. Não é dança de terreiro mas de salão.

No centro do salão os dançadores formam duas colunas, tendo à testa delas um violeiro cantador. Um dos violeiros é o mestre e o outro é contra-mestre. Mestre é a designação popular dada ao violeiro que faz a primeira voz e também é o autor da moda que vai ser cantada. Contra-mestre é o que faz a segunda voz. Entre dançantes e violeiros na coluna em que está o mestre fica o tirador de palmas e na outra o tirador de sapateado. Não raro um exerce as duas funções de determinar o momento das batidas de palmas e do bater dos pés, execução do pateio, porque batem com o pé em cheio no solo. Não é o sapateado batidas da ponta, meia planta e planta do pé; em nossas danças caipiras o que realmente há é o pateio. Jamais vimos o taconeio, batidas do calcanhar que denunciam origem espanhola.

Os violeiros cantam e batem os pés, não batem palmas. Os dançantes não cantam, mas batem palmas e pés.

Quando todos estão formados, os violeiros dão uns harpejos. Iniciam o canto em dueto, pedindo licença para cantar. Cessado o canto da primeira estrofe os violeiros saem dos seus lugares por fora das colunas, em passo normal, andando naturalmente vão até a extremidade da fila, sendo acompanhados pelos seus respectivos companheiros de coluna. Param. Depois de uma pausa muito pequena, todos os dançantes e os violeiros também, trocam de lugares com os pares fronteiros ritmicamente, cruzando pelo centro da colunas. Chamam a esta figura , vorteá e cruzá (dar volta e cruzar). A volta é feita para cumprimentar os assistentes. Esse cumprimento não se manifesta por movimentos da cabeça ou outro gesto, mas apenas através do significado da figura da volta que é por todos conhecida.

Esta volta é dada com os violeiros harpejando molemente as violas e é executada somente na fase inicial não há repetição. Finalizando o vorteamento e o cruzamento, os violeiros dão início a moda que é cantada a duas vozes. Os dançadores ficam em seus lugares, parados e geralmente com as duas mãos metidas nas algibeiras das calças.

Quando os violeiros finalizam a estrofe, dão uns acordes, e o Tirador de palmas dá início a batidas de palmas. Todos os demais dançantes olham atentos para ele, assim batem ritmadamente sem errar.

As violas fazem uma pequena pausa, e em outro ritmo dão início ao bater dos pés, que é dirigido pelo tirador de sapateado. Quando os violeiros percebem que todos os dançantes estão firmes no bater do pés , também repicam os pés pateando com vontade. Param todos. Os violeiros cantadores, iniciam o harpejar das violas e como que tomando um fôlego isto é, respirando até normalizar a respiração, reiniciam a moda, cantando outra estância. Vão alternando canto, bater de palmas e de pés.

Para finalizar a moda, os violeiros fazem a suspendida. A suspendidaconsiste na inclusão de dois ou três versos (número incerto) a mais que as estrofes anteriores. Cantam estes versos uma oitava acima, geralmente em falsete. Ao finalizar a estrofe, param de planger as violas, está terminado o cateretê, os dançadores deixam seus lugares, enxugando o suor do rosto.

(ARAÚJO, Alceu Maynard. Documentário Folclórico Paulista e Instrumentos Musicais e Implementos)

 

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