Jangada Brasil, nº 18, fevereiro de 2000: Festança – Reis de maracatu

REIS DE MARACATU

Ainda o Senhor Morto andava em procissão pelas pedrentas ladeiras de Olinda e já o negro Gaudêncio avisava pelas casas conhecidas:

– Óiem lá que amanhã nós temo fonção.

Havia quem achasse aquilo uma falta de respeito:

– Credo! Que quentura a dessa gente!

Mas o Gaudêncio se explicava. E todos, afinal, acabavam dando-lhe razão. É que o maracatu da Tedó já anunciara a função para o sábado. O do Neco, também. E não havia o “Cabinda” de ficar por baixo dos outros. Ah! lá isso era que não!

No sábado da Aleluia, mal pelos templos da cidade caíam os panos pretos dos altares, sentia-se o bomboimpaciente chamando.

O Gaudêncio, coitado, apesar dos seus sessenta, não parava um instante.

E logo ao escurecer, na estrada do cemitério, começava o batuque monótono e igual. Não era aquilo, propriamente, um “ensaio”.

A data dava apenas pretexto a um samba. Mas tinha-se pelo menos a certeza de que tudo estava a postos, de olhos já fitos no Carnaval do outro ano.

Dançava-se a noite do sábado, entrava-se pelo domingo e até as primeiras horas da segunda a toada do batuque subia, regular como uma prece:

Os reis que vêm da China
Rainha se coroou
Reis ô… reis ô…
Rainha se coroou

Mais além, a velha Tedó, então rainha viúva do “Oriente”, realizava também seu banzéNegralhõessinistros ladainhavam:

Lanceiro seguro
Com sua lança na mão

E as negrinhas, dengosas, respondiam:

Levante sua bandeira
Defenda sua nação

No maracatu do Neco, o mais rico, a assistência era ainda maior.

Só de batedores de bombo havia três, afora não sei quantos ganzás e cinco ou seis gonguês.

Situados na mesma estrada, a trezentos metros se tanto um do outro, nem fora preciso declarar a rivalade que havia entre eles.

Ganhava nisso o pitoresco, cada qual apresentando-se com maior caráter e um maior senso de ridículo.

Se o Neco, um moleque cinzento e da carapinha mais rebarbativa, tratada a óleo de coco, se o Neco, por exemplo, punha uma calça de cetim amarelo e uma casaca de seda azul bordada a ouro, mestre Gaudêncio se apresentava em gorgorão vermelho, bancando o cardeal, e apondo ainda à casaca duas dragonas de antiga farda da Guarda Nacional.

Somente numa coisa pareciam todos acordes: no uso do pince-nez.

Rei ou rainha sem pince-nez no exercício do cargo, não era digno de apreço.

Tinha de gemer pra ali com um pince-nez do legítimo.

Isso, de começo, não agradava ao Gaudêncio, pela repulsa viva que seu nariz chato demonstrava ao instrumento, não se deixando agarrar por ele.

Mas enfim lá viera um de encomenda, de molas decerto mais positivas e sustentara afinal.

Esses primeiros sambas após a quaresma, se poderiam aliás considerar meros pretextos para confirmar a coesão do grupo.

Dançava-se até o domingo da Pascoela.

Mas as funções começavam com regularidade na proximidade de Santo Antônio.

Já aí se discutia o figurino do rei e da rainha. Alvitava-se uma nota nova, formava-se o quanto de quota cabia a cada nobre.

Que isso de quota, afinal, era coisa pra inglês ver. Cada um dava o que podia. As despesas eram poucas. Meia dúzia de garrafas de cachaça a mil e tanto com o casco e mais nada.

O vestuário para o saimento era comprado por conta própria. Nem obedecia a figurino. E nisso decerto é que estava todo o pitoresco dos grupos.

Seis metros de uma belbutina safada, amarelo gema de ovo, uma vez de papel doirado e temos aí pelo Carnaval seu Cristino, um negrão alto, possuidor dos mais finos cambitos da cidade, paramentado que só um rei.

– Oia só pra eu!

E surge logo depois o Teteu, passeando a sua importância numa casaca verde, de cetim.

O rei mostra a cacaria dos dentes num sorriso:

– Deixa de bestera, moleque. Eu sou é osso.

Batem de novo os bombos. É a rainha que saai do mocambo pro terreiro.

Santo Deus! Não há quem diga que está ali a negra Benta que todo santo dia faz tapiocas na quitanda do Nosinho do Amparo. Vem cinzenta de pó; o cabelo, à custa de óleo, aderiu ao quengo.

Com um vestido azul celeste, de velha seda lavrada, o sapatinho doirado e as meias brancas, quase deixa o pessoal de queixo caído.

– Inté nem parece a Benta! – diz o Generoso. Tá mermo que uma rainha! Que orgúio! Que sacudido! E entonce o pincinê!

Que pra botar pince-nez a Benta está sozinha. Fica que só uma dona.

* * *

Logo na tarde de domingo de Carnaval começam a descer para o Recife os maracatus.

Dos mais remotos subúrbios vêm os grupos – uns ricos e ostentando o que há de mais vivo; outros pobres, cada qual com seu rei ou rainha, ou os dois juntos, suados, ridículos, tresandando a suor.

Por mais humilde, dispensam tudo, até o séquito.

Não dispensam a umbela. Rei sem umbela não é rei.

Há as doiradas, dum doirado velho e que se diriam roubadas a um templo; há-as de seda, roxas, agaloadas de ouro, amarelas, vermelhas, azuis…

Um negrão sinistro sustenta-a com a ênfase que convém a um factotum.

E o préstito lá vai…

Que convicção – a desses reis de mentira, labutando a vida inteira, trazendo ainda na pele requeimada as lanhadas dos seus antigos senhores!

Só nesses três dias de Momo são felizes. Felizes porque têm a ilusão do mando, a ilusão de que podem, de que são senhores.

Tristes e ingênuos diabos!

[1927]

(VAREJÃO, Lucílio. In RIEDEL, Diaulas (org.) Os canaviais e os mocambos; Paraíba, Pernambuco e Alagoas)

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