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A CASA DOS ÍNDIOS BORORÓS
Construção de casas
A cabana é construída grosseiramente no tempo da seca. É de forma cônica com base
quase circular. O apoio principal é uma árvore central, onde se colocam paus inclinados:
sobre estes, os índios desenrolam em espiral. Durante o período das chuvas, o
acampamento é transportado das margens dos rio para uma elevação do terreno, e as cabanas são construídas ordinariamente com maior cuidado e firmeza.
Duas grossas forquilhas fixadas verticalmente no terreno, sustentam uma trave horizontal
à qual se apoiam vigotes inclinados; nestes, em
alturas várias, são amarradas fortes varas horizontais, cobertas de grandes folhas de
palmeira. Resulta, então, uma cabana com um telhado de duas águas, o qual chega até ao
chão, tendo sobre o terreno uma base elíptica ou hexagonal alongada. Na
extremidade, deixam, entre os paus, umas aberturas.
Cobrem essas aberturas com folhas de palmeira amovíveis, algumas vezes
lindamente entrelaçadas. São as portas da cabana (baiporo, literalmente: abertura
da cabana).
Raramente a casa é pouco menos primitiva. Constroem paliçadas firmes, retangulares, que
formam as paredes laterais da cabana. O teto é de duas águas, como o tipo precedente,
mas se limita à altura da paliçada. Este tipo de choça foi introduzido entre eles,
desde que tiveram contacto como os baráe "brancos, civilizados".
Quando a tribo transmigra, é o baaddageba que estabelece o lugar para construir
o novo aldeamento. Os jovens constróem o baimannagueggeu.
Interior da habitação
A cabana é um verdadeiro bazar. Sobre a linha central encontram-se os fogos de várias
famílias do clã, que ali reside. No fogo é colocada ordinariamente, uma panela de barro
com água, onde fervem pedaços de carne; ao redor, espetos com o
churrasco que se está assando; aos lados, montões de frutas, panelas de vários
tamanhos, ossos desencarnados, conchas bivalves que lhes servem como
tesoura e como colher, fuses, fragmentos de kogu, de koddobie (elementos
para enfeite das mulheres), pedras, esteiras e peles estendidas no chão, ao lado do fogo,
etc.
Assentada em uma esteira está uma mulher, rodeada pelos filhos; o menor ainda mama,
enquanto que os outros brincam. Pouco se preocupa com os mesmos, pois está bastante
ocupada em mastigar o milho que depois cospe numa panela cheia de água, com o fim de
preparar uma bebida fermentada, o kuiadda kuru.
Havendo um fogo vizinho, há uma outra mulher que é ou sua mãe, irmã, ou filha, a qual
se ocupa igualmente em operações culinárias; mas voltam-se as costas continuamente.
Frequentes vezes, encontra-se, de um lado, o kamoreu "cama", feito com
quatro paus fincados no chão, aparecendo 30 ou 40 cm, dispostos de modo a formarem os
vértices de um retângulo; na extremidade dos dois vértices está fixada, com fortes
cordas, uma vara resistente, formando um dos lados menores do retângulo; outro forte
bastão, igualmente disposto, forma o segundo lado menor.
Sobre esses, apoia-se um estrado feito dos fortes talos do burití; tal colchão duro e
pouco liso, é coberto de esteiras ou de peles e serve de leito. Nas cabanas onde não se
encontra o kamoreu, os índios deitam-se em esteiras, junto do fogo. Neste caso
chama-se pa o lugar onde dormem.
Os bororós nunca se assentam sobre a terra nua; sempre usam uma folha de palmeira ou de
qualquer outra planta. Em algumas cabanas há ainda o kamo, que é uma espécie de
grelha de forma quadrada; é feito com varas e suspenso sobre quatros paus com forquilhas,
fixos no chão. Ergue-se à altura de 80 a 100 cm, de modo que a chama não possa
alcançar a madeira das travessas.
Com isto os índios chamuscam os peixes, seja para cozinhar, seja para pô-los em estado
de serem conservados, pois, algumas vezes, em pescarias felizes, acumulam quantidade de
peixes superior à necessidade diária.
Dois paus na cabana, colocados em uma altura superior à de um homem, servem para colocar
arcos, flechas, tacapes, etc... Dependurado do telhado que desce até o chão, há, para
secar, pele de onça, de puma e de outras feras, troféus de caça do chefe da casa,
caixinhas escavadas no pecíolo das folhas de buriti, cestas, embrulhos contendo
braçaletes, brincos, colares, etc.
No alto, entre as duas partes opostas da cabana, com quatro cordas, está suspensa uma
esteira chamada paradda bettu, "esteira que balança ou berço"; a
pequena esteira é retangular e côncava e nela a mulher coloca o filhinho. Uma quinta
corda passa presa lateralmente à esteira, permite à mãe balançar aquele berço
suspenso ao mesmo tempo que se ocupa em seus afazeres.
Não conhecem ordem e limpeza.
É dever das mulheres, quando devem mudar de habitação, colocar numa cesta (koddu)
tudo o que falamos, exceto as armas. É ainda ofício da mulher transportar o referido
fardo para o lugar da nova residência; o homem precede-a, levando as armas.
(COLBACCHINI, A.; ALBISETTI, C. Os bororós orientais) |
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