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PECULIARIDADE DAS
CASAS DO RECIFE

Muitas das casas de Pernambuco são construídas em estilo desconhecido em outras localidades do Brasil. A descrição de uma dessas casas, onde o meu antecessor foi hospedado por um amigo pode servir de amostra do referido estilo.

Tinha seis andares. O primeiro, ou andar térreo, denominava-se armazém, e, à noite, era ocupado pelos empregados do sexo masculino; o segundo serve de instalação para o escritório, etc.; o terceiro e o quarto contém as salas de visita e os quartos de dormir; o quinto, as salas de refeição, e o sexto a cozinha. Os leitores habituados com os assuntos domésticos perceberão a vantagem especial de se ter a cozinha localizada no sótão pela tendência que têm para subir a fumaça e as diversas emanações produzidas pelas operações culinárias. Há no entanto uma desvantagem inseparável desse dispositivo, que é a necessidade de se tranportar várias coisas pesadas subindo tantas escadas. A água, por exemplo, que na falta de qualquer mecanismo que a possa elevar, tem que ser carregada na cabeça dos pretos. Qualquer um compreenderá que um pequeno descuido, no equilíbrio das vasilhas d’água assim transportadas, expõe as partes inferiores da casa ao perigo de serem inundadas. Dominando o sexto andar e constituindo, de certa forma o sétimo, existe um esplêndido observatório, de onde se pode contemplar o alto do céu em todas as direções.

A vista desse observatório é ampla e interessante ao extremo. É o melhor lugar donde um estrangeiro pode observar para ter uma correta impressão da situação e das redondezas da cidade. Seus olhos, de um posto de observação tão alto, não deixarão de dirigir-se com o maior interesse para a ampla baía de Pernambuco, estendendo-se, com moderada e regular curvatura da costa, entre o promontório de Olinda e o cabo de Santo Agostinho, trinta milhas abaixo. Essa baía é geralmente adornada de numerosas jangadas, que, com suas largas velas latinas, não fazem um medíocre efeito. Além do comércio do próprio porto, surgem no alto mar navios vindos de distantes pontos, quer do norte quer do sul. Não há porto de mais fácil acesso. Um navio, proveniente do Oceano Índico ou do Pacífico, ou de regresso à pátria, dirigindo-se para os Estados Unidos ou para a Europa, pode, com um simples desvio de sua rota principal, entrar no porto de Pernambuco. Pode alcançar o ancoradouro do Lameirão, ou porto externo, e entrar em comunicação com a terra, quer para obter notícias e avisos quer reabastecimento, e continuar a sua viagem à vontade, sem precisar sujeitar-se às exigências portuárias. Isso é de grande conveniência para os baleeiros e mercadores dos mares do sul. Para descarregar ou receber água, os navios devem entrar no interior do recife e conformar-se com os costumeiros regulamentos dos portos.

Os navios de guerra raramente se demoram aqui. Nenhum de grande tonelagem pode transpôr a barra, e os que o podem vêem-se obrigados – provavelmente por causa do perigo de acidentes quando estão muito próximos da cidade – a depositar na fortaleza a sua pólvora. Poucos comandantes se mostram desejosos de sofrer uma tal obrigação, e também o seu ancoradouro no Lameirão não pode oferecer garantias de tranquilidade e segurança. Os fortes ventos e as pesadas ondas do oceano são frequentemente suficientes para romper os mais resistentes cabos. São razões bastantes para que Pernambuco não seja uma preferida estação naval quer para o Brasil quer para as demais nações. O ancoradouro comercial está inteiramente sob as vistas do nosso observatório, porém muito próximo e densamente acumulado de embarcações para constituir um imponente conjunto.

(KIDDER, D. P.; FLETCHER, J. C. O Brasil e os brasileiros. v. 2)

 

 

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