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TRÊS CONTOS
RELIGIOSOS
A MÃE DE SÃO
PEDRO
mãe de São Pedro era uma velhinha muito má, rezinguenta, sumítica, com
cara de poucos amigos. Não tinha amizades, todos lhe fugiam.
Aconteceu que um dia estava a lavar num corgo um molhe de folhinhas
de cebola, quando uma delas se desprendeu, ganhou a correnteza e lá se foi pela água
abaixo.
A velha tentou reavê-la, e, não o conseguindo, exclamou:
- Ora, seja tudo pelo amor de Deus!
Não levou muito tempo morreu e foi apresentar-se no céu. Foi pesada na balança de São
Miguel e não houve outro remédio senão mandá-la para o inferno, tão grande era o peso
de seus pecados.
O filho ainda andava pelo mundo. Não lhe podia valer.
Quando São Pedro morreu foi nomeado chaveiro do céu.
Das profundas do abismo, avistou a velha ao filho no gozo e posse das glórias celestes e
pediu-lhe por gestos que a salvasse.
O santo chaveiro, que não podia resolver nada por si, foi ter com o Senhor.
Salva minha mãe, Divino Mestre.
O Senhor respondeu-lhe assim por estas palavras:
- Se houver, no livro das almas, na vida de tua mãe ao menos uma boa ação, estará
salva, caso ela saiba aproveitá-la.
Examinou-se o livro e as folhas tantas, nas contas da mãe de São Pedro, se encontrou a
folhinha de cebola, nada mais! Era a mesma que motivara aquele dizer com que a velha, ao
menos uma vez, se mostrara conformada:
- Seja tudo pelo amor de Deus!
O Senhor disse a Pedro:
- Lança uma das pontas da folhinha em direção ao inferno. Tua mãe que se agarre a ela.
Tu puxarás. Se conseguir subir até cá, estará salva.
Pedro fez tudo o que o Senhor lhe ordenara.
A velhinha agarrou-se à folha, mas uma porção de almas, querendo aproveitar o ensejo de
salvação, segura-se às pernas da velha. Apesar disso esta subia.
Quando já estava o grupo a certa altura, outras almas se iam apegando às pernas das
primeiras.
A velha indignada, de avara que era, esperneou e atirou novamente ao inferno as
companheiras, não querendo levá-las para o céu.
Mas no mesmo instante, a folha de cebola partiu-se, e a mãe de São Pedro ficou no
espaço.
Não tinha por onde subir ao céu e o pedacinho da folha que conservava nas mãos não a
deixava voltar ao inferno.
E assim vive até hoje: nem na terra. Nem no céu.
A ARANHA E O
MENINO DEUS
aranha é abençoada e dá
felicidade porque Nosso Senhor Jesus Cristo foi defendido por ela quando era menino.
Os judeus mandados pelo rei Herodes perseguiam Nossa Senhora, que levava o seu Bento Filho
para o Egito. Como iam em cavalos gordos e fortes ganhavam léguas e léguas porque São
José apenas arranjara um jumentozinho para carregar a Virgem.
Numa tarde, atravessando um lugar muito deserto, Nossa Senhora pediu para descansar numa
gruta muito grande que havia. São José entrou com todos e forrou o chão com o manto
para que Nossa Senhora se deitasse e dormisse. E assim foi. Adormeceram todos.
Lá fora, uma aranha que vivia na boca da gruta, para esconder a Sagrada Família, teceu
mais do que depressa a sua teia tomando toda a entrada da gruta.
Logo chegaram os judeus procurando os fugitivos e avistaram a gruta que ficava ao lado da
estrada. Já se iam desviando para a visitarem quando o chefe viu a teia da aranha tapando
a boca da gruta. E então disse para os seus companheiros:
- Não percam tempo em procurar aquela gente na gruta. Não tem ninguém lá dentro.
Reparem que há até teia de aranha na entrada, sinal que há muito tempo a gruta está
deserta.
Continuaram galopando e desapareceram.
Nossa Senhora então abençoou a aranha; por isso ela dá felicidade.
HOSPITALIDADE RECOMPENSADA
avia numa
cidade dois homens, um pobre e outro rico, muito religiosos e amantes de Deus. Jesus,
querendo experimentar qual deles o amava verdadeiramente, anunciou-lhes que em certo dia
iria jantar em sua companhia. O homem rico mandou preparar mesas lautas e acepipes delicados e abundantes, e
as festas anunciadas eram de espantar.
O pobre, que apenas possuía uma galinha, mandou matá-la e assá-la. Preparou
modestamente a sua mesa e esperou o Cristo. À tarde, apresentou-se um mendigo a pedir
esmola à porta do homem rico. Este despediu-o brutalmente dizendo:
- Espero hoje Nosso Senhor Jesus Cristo para jantar comigo, e não quero desmanchar a
minha mesa.
O mendigo voltou ainda segunda e terceira vez, com outros trajes e outras feições, e foi
despedido do mesmo modo. À porta do homem pobre aparece o mesmo mendigo. Ficou o pobre
sem saber o que fizesse, e então a mulher lembrou-lhe que poderiam tirar uma asa da
galinha e dá-la ao mendigo, sem que o Cristo reparasse naquela falta, pois a galinha
seria recolocada no prato, de modo que o lado da asa cortada ficasse para baixo. Assim
fizeram. Pouco depois, eis que aparece outro mendigo. Novas dúvidas, novos cálculos e
nova asa da galinha cortada. Terceiro mendigo ainda. A dúvida era maior. Já não havia
mais asas a cortar. Marido e mulher resolveram cortar uma coxa da galinha e dá-la ao
pobre, que então deu-se a conhecer como o próprio Cristo. O homem pobre e sua mulher
foram para o paraíso; o rico para o inferno.
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Religious stories, religious tales,
contos religiosos narram os castigos e prêmios pela mão de Deus ou dos santos. Os negros
de Angola, como informa Heli Chatelain, dizem para esse gênero, ji-sabu.
Confundem com as lendas. Essas têm sempre localização geográfica. O
conto religioso não fixa tempo nem indica zona de influência memorial. Pertence a uma
espécie de apologética de espírito popular, com processo especial para a
dosagem dos pecados e tabelamento dos méritos.
Através desses contos age a mentalidade coletiva, impondo ao personagem
mentalidade, ações, palavras e sentenças de acordo com o sentimento local. Fundem-se,
naturalmente, tradições seculares, anteriores ao Cristianismo, nessas histórias que
haloam o santoral católico.
A independência do julgamento popular, anônimo e poderoso, é absoluto. A mãe de São
Pedro, chaveiro do Paraíso, ficará suspensa até o Dia do Juízo, entre o Céu e o
Inferno. Uma simples aranha salva a vida da Sagrada Família.
Até certo ponto são contos de encantamento mas com o sobrenatural cristão. Não
aparecem fadas e feiticeiras nem há varinha de condão. A "presença" divina
deixa sempre o milagre, punição imprevista e completa ou compensação maravilhosa em
dons materiais.
Serão os contos religiosos uma parte dos apólogos, exilada da literatura oficial há
séculos? Constituirão uma classe de exemplos apócrifos, não aprovados, sem o imprimatur
regular? A feição moral desses contos, a gravidade inevitável assumida pela narradora
ao referi-los, denunciam vestígios de ritual, de respeitoso uso sagrado,
talvez restos de pregações esquecidas mas tornadas populares pela sua comunicativa
simplicidade.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Literatura oral no Brasil) |