Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)A "festa está na porta, tradições do Recife antigo, por Flávio Guerra.

setaquad.gif (95 bytes)A folia de Santa Luzia, por Mozart Rodrigues.

setaquad.gif (95 bytes)Folclore de natal, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


A "FESTA" ESTÁ NA PORTA

Flávio Guerra


I

Atualmente nos dias de dezembro, quando o centro do Recife se engalana e alvoroça com luzes e enfeites, o cronista da cidade antiga fica observando como se modificaram os hábitos, e vê que as chamadas festas natalinas são hoje mui diferentes daquelas do segundo meado do século passado e vale dizer de alguns anos deste.

Ia chegando o furor do verão. Outubro surgira cheio de um sol causticante, e já se comentava: "A Festa está na porta..." A época implicava, então, ao contrário de hoje, no esvaziamento da zona urbana e pensamento voltado para o veraneio nos arrabaldes. banhados pelo rio Capibaribe. A safra dos banhos de mar ainda não se integrara nos hábitos recifenses.

Abafado entre as quatro paredes dos compridos sobradões, ou apertado dentro das casas imprensadas sem oitões livres, quase irrespiráveis das antigas meia-águas recifenses, o morador da cidade começava sofrendo o calor excessivo dos trópicos, sufocante quase, com as brotoejas aparecendo pelo corpo, o apetite enfraquecendo, o sistema nervoso à flor da pele, estado geral carecendo alívio. Não raro o médico da família aconselhava:

— É como lhe digo, compadre Cazuza. A comadre e as meninas precisam ir para Apipucos ou Poço da Panela. Você tem que levar o pessoal para fora o mais breve possível. Estão todos desalentados, abatidos. É o calor, compadre, é o calor... E uns banhozinhos de rio, uns dias ao ar livre são o melhor remédio.

Cazuza balançava a cabeça. Tinha de enfrentar o problema de alugar casa fora da cidade e deixar ocupada a da rua do Aragão. As coisas não andavam boas, com o açúcar caindo de preço. As casas estavam custando os olhos da cara: 500 mil réis pela temporada de festas. Depois as despesas com as mudanças, os extraordinários de parentes chegando aos domingos para passar o dia, quando não até uma semana, as reuniões dançantes, os vestidos novos, os enfeites, etc. Coçava a cabeça vendo as filhas fazendo muxoxo, pondo olho comprido na sua direção. A mulher conselheirava:

— Tenha paciência, meu velho, mas temos que fazer o sacrifício. As meninas são moças, e você precisa, também um descanso. Depois Deus ajuda. Olhe a comadre Dolores, já foi para Apipucos, e o pessoal de seu Fagundes, do Armazém Portela, ja está no Poço derna a semana passada.

O jeito era ir. Até que ficava mesmo feio deixar-se estar no Recife. Além do mais o médico continuava insistindo:

— Pois é, compadre, vá passar as festas fora, e já...

Passar as festas fora, nos arrabaldes, onde até os teatros eram já inaugurados para a época do veraneio. O do Monteiro fazendo sucesso entre 1870-1878; em Caxangá inaugurando-se o Teatro Chalé; no Poço da Panela em 1868 abrindo-se o Teatro Campestre, instalado no sítio do Coronel Lobo, onde até havia camarotes, 300 cadeiras e gerais. Inauguração de arromba, com iluminação veneziana e a presença do conde de Baependi, presidente da província. Em Apipucos atuando o Ginásio Dramático e na Casa Forte funcionando o Teatro Familiar Pernambucano. E mais os pastoris todos os sábados, as cheganças os bumba-meu-boi, os fandangos, as danças, partidas, as reuniões familiares. Dezembro era o apogeu dos subúrbios recifenses. A cidade quase ficando vazia nos fins-de-semana, ofuscada pela procura dos subúrbios de festas. Até a zona do meretrício enfraquecia sofrendo a concorrência dos pastoris de Baixote, de Amaro Canela-de-Aço, Erotildes, João de Donzela e outros.

Nessa época de fim de ano no Recife antigo as ruas, ao contrário de hoje, ficavam mesmo sem graça, tristonhas. Garridos e enfeitados estavam eram os subúrbios banhados pelo rio Capibarlbe: Caxangá, Apipucos, Monteiro, Casa Forte, Poço da Panela.

Mas, quando menos se esperava, janeiro chegava triste e o dia dos Reis Magos aparecia, melancólico e enternecedor. Começavam os preparativos de regresso à cidade. Famílias tristes, muita moça chorando, um nunca acabar de arrumar malas, fazer trouxas, desarmar móveis, amarrar pacotes. As despedidas com lágrimas nos olhos:

— Adeus, até setembro minha gente. Olhe não se esqueça de mim...

Regressavam todos pesarosos. Até Cazuza ia sentindo falta das noitadas na casa do comendador Vitorino, com as partidas de bisca e sete-e-meio. E, para coroar a emoção do fim das festas, o cântico dolente das pastorinhas:

A nossa lapinha,
Já vai se acabar,
De cravos, de rosas,
Ela vai se queimar.


II

Um dia de vésperas de Natal no velho Recife. Digamos na época das maxambombas. Primeiros anos do nosso século. No antigo bairro da Lingueta os grandes armazéns do Corpo Santo, ruas do Brum e Apoio, os importantes escritórios das ruas do Comércio, Cadeia Velha e Senzala, iam encerrando mais cedo as suas atividades. Ricos armazenários de açúcar e algodão, altos comerciantes de secos e molhados, prósperos corretores, ricos banqueiros todos com seus bem talhados fraques feitos nas alfaiatarias do Melichareli ou do Falbo: calças brancas bem vincadas, polainas e chapéus altos. Reuniam-se em pequenos grupos às portas do ship-chandler para um breve aperitivo e os cumprimentos de Boas Festas, antes de seguir para casa. Já haviam se despedido dos caixeiros, dos empregados dos seus escritórios, os quais, de bolsos recheados com as "festas" de cem mil réis recebidas, que davam-se radiantes, enchendo a cabeça de planos para a noite, saindo todos alegres, num alvoroço quase de colegiais:

— Boas Festas!

— Para você também e sua famila.

— Aonde vai passar a noite?

— Vou às festas da Casa Forte. Dizem que este ano estão formidáveis. Vai dançar o pastoril do Erotildes e também o fandango do Chacon.

O comércio em grosso, depois de u’a manhã sem negócios, abertas as portas quase somente para atender aos serventes e abridores de caixas da Alfândega, os golas da Mesa de Rendas, os carroceiros prestativos, os amigos modestos, indo todos humildemente em busca da costumeira gratificação de Natal, cuidava mesmo de fechar as portas cerca das onze horas.

Os bondes de burros da Madalena, Torre, Fernandes Vieira, Afogados, Benfica, Hospital Pedro II se enchendo. As berlindas e os landau levando os ricaços aos seus palacetes. E do outro lado da ponte do Recife, ao contrário do velho bairro, o movimento ia crescendo e assim permanecia até um pouco depois das sete horas da noite. Era a zona do comércio a varejo: ruas do Crespo, Cabugá, Queimado, Nova, Imperatriz; onde se faziam as compras das guloseimas natalinas, do vinho, do queijo do reino, dos doces cristalizados. Nos armazéns o Grande Ponto, a Facundia, nas vendas do Cristovam ou do seu Lima. Era a escolha dos sapatos na Sapataria Inglesa, no Borzeguim de Ouro, na Botina Maravilhosa, a Sandália Chic.

— Este sapato 35, de fivelinhas, acho que serve, senhorita.

— O que, seu Fagundes? Pensa que eu tenho pé de gigante?

— Cuidado, menina, — advertia a mãe, — não vá comprar sapato apertado. Depois você não agüenta e seu pai é quem se aperreia. Olhe que a gente vai ficar de pé a noite toda...

Aquela outra escolhia a fita azul larga para a cintura, de modo a combinar com o vestido de salpicos que mandara fazer; essa indo em busca das marrafas novas para os coques; outras procurando as mitaines, os leques de papel com desenhos de namorados de mãos dadas, as bolsinhas de camurça, um mundo de bijuterias e miudezas que se encontrava nas lojas. O Paradis des Dames, a Loja do Povo, a Iracema, a Risonha. Os chapéus eram buscados e meticulosamente escolhidos nas casas Rafael, Colombo e Adolfo. Toda uma azáfama nos últimos retoques para se celebrar a noite de Natal no Recife antigo.

As carroças de cavalo, e algumas puxadas ainda por bois, trafegando quase, em fila, enfeitadas com folhagens de pitangueiras, bandeirolas de papel, vistosos crótons e laçarotes. Alguns animais até de chapeuzinhos de cores vivas. Já vinham vazias do centro do Recife, de Fora-de-Portas, cheirando a açúcar melado, transpondo o Arco de Santo Antônio e rumando umas para o bairro de São José, outras para o Arraial e mais outras para os Coelhos, todas em busca das suas cocheiras.

Os ganhadores de fretes, os serventes de armazéns se cruzando, carregando as caixas cheias de presentes: os perus com vistosos laços no pescoço, os pacotes de papel crepom, as caixas de vinhos, os balaios com frutas, os pratos com presuntos cozidos em casa e enfeitados com cravos da índia, as bandejas com pastéis e cobertas com pastéis e cobertas com pano de crochê. Era um hábito arraigado a troca de presentes na véspera do Natal.

— Olhe, Cazuza, o doutor Bandeira mandou esta caixa de vinho moscatel...

— Não se esqueça, Neném, de mandar logo os pastéis de que ele tanto gosta e o peru que recebemos da tia Maroquinhas.

Era, assim a véspera do Natal! Uma confraternização. A noite se aproximando e dentro das casas desencadeando a lufa-lufa dos preparativos para se sair. Ia-se assistir a missa do galo na Casa Forte, no Morro do Arraial, em Caxangá, no Poço da Panela, Apipucos, etc.

Atarefavam-se os grandes momentos dos preparativos para ir em busca do subúrbio escolhido.


III

Dentro das residências, havia mesmo nas primeiras horas da noite a lufa-lufa, dos preparativos. Desmanchavam-se os cabelos diante dos espelhos, os vestidos eram postos sobre as camas, armavam-se os penteados enfiando-se os grampos de metal, meticulando-se os coques complicados, pondo-se as marrafas de tartaruga com debruns simulando ouro, surgiam os aborrecimentos, as afobações:

— Uma porcaria. Danado de cabelo que não se ajeita. Tomara que já chegue a moda das mulheres usarem cabelos soltos.

— Cale a boca, menina. Que blasfêmia é essa. Só mulher doida, da Tamarineira, é que anda de cabelos soltos.

— Me perdôe, mamãe. Mas é que ele não ajuda mesmo.

— Eu bem lhe disse para botar uns papelotes pela manhã. Mas você é teimosa. Me dá que eu dou um jeito...

Da sala de janta, já pronto para sair, Cazuza reclamava:

— Avia, minha gente. Olhe que vamos tomar o trem das 9:30.

— Tem tempo, papai. Ainda são oito e meia. Daqui para a rua da Aurora é um pulo.

— Rua da Aurora? Vocês estão malucas?!! Quem éque pega o trem ali, ou na rua Formosa? Temos é que ir a pé para a Rua das Florentinas.

— Xi, papai, e o meu sapato que ainda não amansou...

— Eu não lhe disse, — intervinha a mãe. — Pra que foi comprar sapato 33? Agora agüente e não aperreie seu pai.

No quarto, clareado à velas e à luz de candeeiros, as moças vestiam as camisas, punham os corpinhos, ajustavam os espartilhos, sofrendo os ajustes dos colchetes e os apertos dos cordéis. Enfiavam-se pela cabeça as duas saias de madapolão endurecidas à goma, e o vestido de cambraia salpicada, de gola alta e mangas fofas. Punham-se as bichas nas orelhas, um ramo de florzinhas feitas de goma no peito, o relógio pendente de um broche, os anéis de brilhantes, o chapéu de plumas, enfiavam-se as mitaines. Era feita a maquilagem, pondo-se o pó de arroz de Piver e o perfume de Houbigant. A tia Clotilde dava uns beliscões na face da sobrinha para aparecer o sangue, ficar rosada. A mocinha interrogava:

— Porque a gente não se pinta?

A mãe reclamava escandalizada:

— Cruz credo, Amelinha. Você está hoje com cada idéia. Onde já se viu moça de cara pintada prestar? Só as cômicas nos teatros e as "raparigas" é que fazem isso. Toma juízo, menina...

Os bondes iam passando cheios, em busca das estações das maxambombas. As ruas povoadas, os sinos das matrizes tocando, anunciando já a missa do galo à meia-noite. Rodavam os landaus, as vitórias, as berlindas, com as famíliaa dos ricaços, ou alguns remediados, rumo também aos arrabaldes. Monteiro, Poço da Panela, Olinda, Casa Forte, Caxangá, Apipucos se enchendo de gente, vibrando. Mostra de roupas novas, mistura de perfumes. Se a pessoa não usasse uma coisa nova na noite de Natal o galo beliscava, dizia a crendice.

As maxambombas repletas, confusão de vozes, empurrões, risadarias, arengas, ensaios de barulho, recomendações:

— Vocês entrem logo que eu vou comprar as passagens.

A moça estremecia. Quem seria aquele rapaz com quem trocara um olhar demorado? Princípio de namoro. Muita gente alterando o itinerário. O rapaz ia para Apipucos, mas aquela pequena que lhe dera a linhada para onde iria? Afinal ouvia-se um apito, e o ruído das ferragens sacudidas, um silvo de vapor desprendido, desengates chocando, um solavanco e o trem começando lentamente a marcha:

— Cadê o Cazuza que não vem, minha gente! Ele vai perder o trem...

E o marido surgia afinal na porta do vagão: esbaforido, reclamando, a roupa amarfanhada, decidindo:

— É como lhe digo, Neném. Para o ano ninguém me tira de casa para meter nesta confusão... Assisto mesmo a missa na matriz da Boa Vista.

A mulher sorria o fazia um ar de consolo. Sabia que era apenas um rompante do marido. Pelo caminho afora iam surgindo as casas iluminadas, ouvindo-se foguetes. Passava-se pelo Caminho Novo, Parque do Amorim. Entroncamento, Ponte d’Uchoa, Jaqueira e o trem acabando nas retas, apitando, rilhando, soprando, chocalhando:

Café com pão,
Bolacha não.
Café com pão,
Bolacha não...

Ia-se afinal chegar na Casa Forte. A noite de festas estava mesmo uma beleza...

IV

Casa Forte era toda luzes, bandeirolas, postes com galhos de pitangueiras e palmas de coqueiros. Bandas de música tocando nos coretos. Postes com painéis e fogos de vistas já prontos. Tabuados com os pastoris, os fandangos, bumba-meu-boi. Residências de janelas escancaradas, alegres, festivas, com piano tocando na sala e pares dançando. Ao fundo do pátio, junto à capelinha, estava armado um bonito altar ao ar livre onde se ia rezar a missa.

Alinhavam-se os tabuleiros de bolos, os fogareiros fritando peixe, os barris com geladas, os baús com empadas. A fumaça dos candeeiros a carbureto invadindo as narinas.

A banda da Charanga explodia o dobrado Dia de heróis. Logo após a banda de Goiana, especialmente contratada, a Saboeira, despejava garbosa o dobrado Horácio Rios. Dividiam-se os partidários.

As pastoras com seus trajes característicos: corpetes azuis ou vermelhos, conforme o cordão, saias de cetim ou cetineta, bem rodadas, pernas meio-de-fora, na altura dos joelhos, os braços nus, os laços de fita na cintura, nos cabelos. Gozo para a rapaziada. Escândalo para as matronas.

— Isso é uma pouca vergonha, dona Neném. A polícia devia proibir...

Enquanto o marido arriscava um comentário:

— Mas até que são bonitinhas e bem feitas.

— Dê-se a respeito, Cazuza. Olhe que as meninas podem ouvir...

O tabuado cheio de balõezinhos multicores dependurados, galhardetes de papel de seda. Duas filas de pastoras se defrontavam. No meio a Diana, de traje metade azul e metade encarnado. A orquestra rompia. Começavam as jornadas. A assistência vibrava. E as pastoras dançavam, meneavam o corpo com graça, faziam manobras, mesuras, cantando:

Boa Noite, meus senhores
E senhoras também
Viemos cumprimentar
Que já é chegada a hora
Nós queremos é vadiar...

Espoucavam os aplausos: Viva o azul! Bravos à primeira de encarnado! De repente entrava o velho Baixote. Todo caracterizado, maneiras exageradas, contando anedotas, recitando monólogos nos intervalos. E os aplausos prosseguindo:

— Azul no palacete, encarnado comendo cacete...

Mas adiante, noutro tabuado, este agora simulando um barco, exibia-se o fandango, com duas filas de cantadores grotescamente vestidos de marujos, outros de oficiais com o espadim em punho, dando voltas, vira-voltas, enquanto aquele outro, travestido, apresentava-se como uma mocinha: a filha do capitão do barco. Um outro mais, vestido de palhaço, mais outro de ermitão. Todos com cantorias dolentes, numa entonação ondulante, lembrando o ritmo das ondas.

Agora estouravam os fogos de vista. Morteiros pipocando e clareando no céu estrelado. Rodas multicores despejando fagulhas. Encontravam-se os conhecidos:

— Olhe, mamãe, o seu Zuza e as meninas...

Abraços, beijinhos, apertos de mão dos chefes das famílias, que começavam falando dos problemas políticos, da alta do custo de vida, da queda no preço do açúcar, do fechamento ruidoso do Banco Popular. As esposas se referindo às doenças de parentes, aos estudos dos filhos, ao casamento próximo de algum conhecido. As mocinhas aos cochichos, nas risadarias, nos comentários sobre este ou aquele rapaz, intervindo vez por outra as mães cautelosas.

— Se comportem meninas. Olhe que seu pai pode ouvir...

E a noite ia passando sem ninguém dar por isso. Ouvia-se a missa à meia-noite. Depois acendia-se o painel, com rodas de fogo circulando multicores, pipocando, estralando, e afinal aparecendo a palavra riscada a fogo em fundo preto:

BOAS FESTAS!

lam surgindo os primeiros bocejos, chegando a madrugada, as pálpebras ficando pesadas, os pés doendo, as correrias para tomar a maxambomba, e novamente os apertos, os aperreios.

— Boas Festas...

— Pra vocês também, minha gente!

E a Amelinha ainda ouvindo a voz suave do rapaz que lhe acompanhara desde o Recife, dizendo-lhe ao pé do ouvido, num cochicho, aproveitando os apertos, as agonias na confusão da tomada do trem:

— Você é linda! Eu sei onde você mora...

Ela se arrepiava toda. As despedidas continuando:

— Boas Festas, minha gente! Até para o ano...



(Guerra, Flávio. Crônicas do velho Recife. Recife, Gráfica Editorial Norte-Brasileiro Ltda., 1972, p.127-134)

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