Jangada Brasil, nº 28, dezembro 2000: Festança – Folguedos natalinos

FOLGUEDOS NATALINOS

 

Quando esteve em Natal o poeta pernambucano Ascenço Ferreira – proibido de beber e de fazer as extravagâncias de comida que fazia – declarou em nossa presença algo que diz um pouco do ambiente natalense, na quadra de fim de ano:

– Natal! Por toda parte um cheiro de festa! Mas, ai!, que a festa não é para mim…

Este era o lamento do poeta convalescente, diante do clima natalense, com a aproximação das festas de Natal e Ano Bom. Um cheiro de festa por toda parte. Um convite irresistível, pelo ar. Mais do que em qualquer época do ano.

É que a cidade se enfeita para os festejos tradicionais do nascimento do Menino-Deus. Por toda parte há um bulício maior. Casas de ricos e pobres recebem ornamentações multicores. Aqui, as luzes coloridas, dentro das árvores. Os presépios custosos, de mil figuras. Os famigerados Papais-Noel de papelão prometendo presentes impossíveis às crianças. Ali, nos bairros operários, as lanternas de cores vivas assinalam a presença da festa. E nos palanques aramados nos quatro cantos da cidade, pela prefeitura, as cheganças, fandangos, boi calemba, congos, pastoris, bambelôs, araruna…

Há, de fato, um cheiro de festa. Quem disse bem foi o poeta.

Mas – perguntaram-nos – quais são os folguedos populares a que o natalense ou os visitantes poderão assistir neste fim de ano? Sem preocupações de ordem erudita, apenas a título de informação, falaremos brevemente sobre autos e danças correntes em Natal, nos fins de ano.

Fandango
É dos autos populares mais antigos e estimados pelo povo. Reminiscência das aventuras marítimas de Portugal, em grande parte, conta as história de um barco perdido, que esteve a ponto de naufragar: A Nau Catarineta.

As personagens vestem-se com trajes de oficiais de Marinha e marinheiros. São eles: Mar-e-Guerra, Contra-Mestre, Capitão, Médico, Imediato, Piloto, Mestre, Gajeiro, Calafate e dois tipos cômicos Vassoura e Ração.

Compõe-se o fandango tradicional de vinte e quatro jornadas, cantadas e dançadas, com diálogos entremeados. O acompanhamento é feito geralmente por violões, cavaquinhos, pandeiros. Antigamente, era ao som da rebeca ou violino.

Senhor Piloto, nosso leme está quebrando,
e a proa da nau está toda arrebentada!…

Noutros estados, chamam aos fandango de “chegança de marujos”, para distinguir da chegança propriamente dita ou chegança de mouros.

Chegança de mouros


Auto popular brasileiro do ciclo natalino, baseado em velhos elementos ibéricos. Procura fixar a luta secular entre critãos e mouros.

O tema central é a abordagem de uma nau moura por uma outra cristã. Há o encontro das tripulações em terra, a luta simulada e finalmente o batismo dos mouros. Episódios sobre a vida do mar, com brigas e contrabando, também integram o auto.

Personagens principais: Comandante (Mar-e-Guerra ou Tenente-General), Piloto, Contra-Mestre, Patrão ou Capitão-Patrão, Calafate, Gajeiro, Padre, Médico, Rei-Cristão, Rei-Mouro, Embaixador-Mouro.

A música das cheganças, embora apresente documentos muitas vezes belíssimos – dizia Mário de Andrade – nada tem de nacional, como caráter. Entretanto, ele não deixa de reconhecer o valor folclórico das melodias.

A nossa chegança de mouros começa com versos assim, mas de bonita e saudosa melodia:

Na saída de Lisboa,
quando mandei alar os ferros;
lembrei-me das meninas,
dos amores lá de terra…

Boi calemba


É talvez o bailado popular mais importante, pela riqueza melódica e coreografia festiva. O boi calenba é denominação regional do bumba-meu-boi, boi bumbá, boi surubim, noutras áreas brasileiras.

Em síntese, é a história da morte e ressurreição de um boi. São vários quadros, independentes, nos quais aparecem personagens, variadas, como a Burrinha, o Cavalo Marinho, o Jaraguá, etc.

Evidente que as raízes do boi calenba são portuguesas, ligadas ao ciclo do gado, para vários autores. Outros, vêem o sincretismo europeu e banto. Mestre Mário de Andrade considera o boi calemba fundamentalmente nacional, na sua música, tipos, costumes.

Personagens centrais: O Boi, Vaqueiros (Mateus e Birico), Rosa, Caipora, Burrinha, Galantes, Catirina.

Pequeno conjunto de pau-e-corda acompanha o folguedo.

Congos


Os congos (noutros estados, congadas), reúnem elementos temáticos africanos e ibéricos. É um cortejo real, com os diálogos relativos à embaixada.

Supõe-se que o auto se originou das cerimônias de coroação de reis negros eleitos pelos escravos.

Oneyda Alvarenga, que os estudou, declara que há pelo menos três tipos de congos e congadas, com variantes por todo o Brasil. Mário de Andrade colheu versão em Natal, anos passados, salientado que o nosso é de todos o mais rico em dados históricos e costumes.

Os congos se constituem de dois grupos: O do Rei de Congo e o Embaixador da Rainha Ginga. Personagens: D. Henrique (rei Cariongo), Príncipe, Secretário, Ministro, Embaixador e General da Rainha.

A indumentária é rica de colorido. Geralmente usam espelhinhos nos capacetes e fitas em profusão, de cores variadas.

Pastoris


Pastoris ou lapinhas são sinônimos, para mestre Câmara Cascudo. São bailados, cantos, recitativos e diálogos em homenagem ao nascimento de Jesus. Antigamente, só se realizavam à frente dos presépios. Hoje, estão nos tablados, em qualquer parte.

Dizem os entendidos que esses bailados foram introduzidos no Brasil no século XVI, pelos padres. Depois, profanizaram-se.

As pastoras, vestidas de azul e encarnado, formam os dois cordões tradicionais. Aliás, por causa delas já houve muita briga nesta cidade de Natal…

Personagens: A Mestra, Contra-Mestra e as Pastoras. Às vezes, aparecem figuras cômicas, como o Anjo ou o Diabo.

Os instrumentos variam, mas é sempre acompanhado o bailado por um conjunto de pau-e-corda. O valor folclórico das melodias é fraco – dizem os técnicos. Em geral, são músicas semicultas, vulgarizadas.

Bambelô


Bambelô é a denominação regional do coco-de-roda, autêntica sobrevivência negra no nosso folclore. De coco de zambê (zambê é nome de um pequeno tambor, em Angola), zambelô, vem a corrutela de bambelô.

Diante da roda participante, o solista improvisa uma série de passos. O tirador de coco inicia o refrão, que todos cantam:

Tirador:
Levaram minha patativa,
deixaram o meu curió.

Coro:
Ai, ai, quem de mim tem pena,

ai, ai, quem de mim tem dó!

Em Natal há dois conjuntos de bambelôs, muito conhecidos: O “Asa Branca” (de Guedes) e o “Bambelô de Calisto”. O instrumento consta de um atabaque maior, chamado “Pau furado”, feito pelo processo indígena de queimar o miolo, dias e dias; atabaques menores ou barris e ganzá.

Importante na coreografia do bambelô é a umbigada. Em Angola, umbigada chama-se “semba”. Alguns autores acham que de “semba” é que vem a palavra “samba”.

Araruna


O conjunto de danças antigas “Araruna”, de formação recente, já constitui uma constante nos folguedos natalinos. Deve-se a sua formação ao Velho Campina. Conhecedor de velhas danças tradicionais, umas de origem européia, outras modificadas aqui, quase sempre baseadas em movimentos de animais (Araruna, pássaro, camaleão, etc.), Campina ensinou-as a um grupo de vizinhos e amigos. Nasceu a Sociedade Araruna, hoje com sede própria, nas Rocas, e visitada por gente ilustre desta e de muitas cidades.

A indumentária imita as antigas casacas e trajes femininos das sinhás de nossos engenhos. Muito bem ensaiado, o Conjunto Araruna tem brilhado nas festas populares em Natal. Os números são quase todos dançados. Apenas “Araruna” é cantado, como homenagem à música originária da sociedade de danças antigas e tradicionais.

(MELO, Veríssimo de. Xarias e Canguleiros)

 

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