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FRONTEIRA AGRESTE
Páginas de romance – 1943
Ivan Pedro de Martins

O texto a seguir corresponde a alguns dos capítulos iniciais do romance
Fronteira Agreste, de Ivan Pedro de Martins,
fixando paisagens, cenas e tipos de uma estância gaúcha da fronteira.

O minuano assobia raivoso nos galhos dos cinamomos da mangueirinha. Tio Remígio chama todos os cinamomos de paraíso, por hábito. Santa Eulália dorme. O gado espalhado pelo campo não faz ruído. À meia-noite, dizem os gaúchos, as reses se levantam, mugem, deitam do outro lado e dormem esperando a manhã. Já os cavalos são diferentes; os garanhões pastoreiam suas manadas e, no retouço noturno, trocam coices, mordidas e relinchos surdos, ou gemidos, devidos aos golpes. As éguas não se entregam de primeira mão. As ovelhas são silenciosas e o rebanho se move no campo como uma espêssa nuvem branca, arrastando-se no chão; só se ouvem balidos, se um estranho aparece. A noite nas coxilhas e banhados é dum silêncio profundo, e o alerta estridente dos quero-queros ou o sinal de alarme, grave, dos ta-hans, se perde no vazio da noite como o barulho de pedra caindo num poço: sem ressonâncias. Só o minuano assobia raivoso, levantando a geada que cai e levando-a pelos ares como uma bofetada de gelo que racha os beiços, dói nos olhos e amarela os brotos novos das plantas. Se não fosse o vento, os campos iriam amanhecer cobertos de uma geada de "renguear cusco" e o frio agora penetra por todos os lados como um castigo.

A lua pinta de branco o verde dos campos e os eucaliptos parecem grandes vultos misteriosos lançando sombras estranhas no branco sujo das coxilhas. Os banhados são cinzentos e as lagoas e poças d’água parecem pedaços de vidro atirados no chão. As sina-sinas dão assobios finos, porque o vento lhes passa pelos ramos pelados, fazendo cócegas na casca áspera, mas o assobio se perde na noite como os coices da eguada e os outros barulhos que o escuro engole. Tudo é silêncio nos campos e coxilhas de Santa Eulália; nem o negrinho do pastoreio anda nos caminhos, porque o minuano lhe encarangaria os dedos e o faria disparar.

O galpão do fogo não é tão silencioso. Ali dormem os peões, aproveitando o calor da roda. É um rancho de torrão com paredes de uns dois metros de altura, coberto de santa-fé em quincha de escada. Tem duas portas grandes e não tem janelas. A porta da frente da mangueira do macaco; a outra, do lado da cumeeira, dá para a mangueirinha dos terneiros, por onde se vai ao potreiro do piquête. O vento entra por todos os lados, faz rodopios lá dentro e sai cantando pelas portas, fazendo tinir os arames e latas encontrados no caminho. Aquilo é a casa dos peões, se se pode chamar de casa um rancho sem portas onde moram o fogo, a fumaça, o vento e a poeira. No canto escuro, onde não há brechas, está no chão o aro de ferro de uma velha roda de carrêta – é a roda do fogo; dentro dela uma fogueirinha de tocos pequenos é o fogo, e, pendurada em um arame retorcido que pende de um caibro, fica a chaleira de mate.

Não há mais fogo nem se vê a chaleira. No meio do galpão fica um poste que serve de escora à cumeeira e ao caibro onde se penduram a lata d’água e os arreios. Encostadas à parede fechada, atrás da roda do fogo, ficam as camas da peonada. São de dois tipos; ou quatros estacas de forquilha, sustentando tábuas de esquilar, ou os arreios no chão mesmo. A arrumação, em cima das tábuas ou no chão, é a mesma.

Primeiro se estende a carona, e em cima o xergão; na ponta o serigote, posto de lado para travesseiro e, forrando tudo, os pelegos ralos para fazer colchão. Aí se deita o homem e se cobre com o poncho; e quando o frio aperta muito, se juntam duas camas, e os homens dormem abraçados, pondo os dois ponchos em cima e se esquentando um ao outro. Peão dorme em roda do fogo. Perto do canto, onde se pendura o caixãozinho de erva, está o Tomás, moreno meio vesgo, que chegou acompanhando uns carneiros e ficou de peão "mensual" efetivo. Aos pés dele está o Mexaca, ruivo e magro, chapelão de abas enormes, que gineteia como se estivesse sentado num banco; o outro, perto da roda, é o João Pitim, baixo e troncudo, sempre rindo, bom peão e ginete regular. Assim de noite não se vêem os homens, vêem-se uns vultos negros, pois cobrem a cabeça com o poncho e resfolegam, roncam, resmungam, fungam, se coçam, lutando contras as pulgas que a cachorrado amiga lhes presenteia, dormindo por perto. As tábuas rangem, o minuano canta e os homens misturam ao silêncio da noite e ao ruído do vento os sons confusos de humanidade adormecida. Dois terneiros mais atrevidos, tocados pelo frio, entraram no princípio da noite no galpão e se puseram perto do fogo, misturados aos homens e olhando as chamas com o doce olhar de espanto permanente dos bois. Atrás deles vieram os outros, e o galpão se encheu com os quatorze terneiros da mangueirinha. Esse amontoado de homens e bichos permitiu conservar mais tempo o calor do fogo quando se apagou, e a noite passou a correr entre os resmungos dos homens e os golpes surdos dos cascos no chão. Santa Eulália dorme.

Em linha com o galpão do fogo, fica o galpão de material. Santa Eulália é grande, tem galpão de material com a garagem para o auto, a aranha e a carroça, varanda de esquila, quarto de guardar milho e aveia, quarto de hóspedes e os quartos onde dormem o chofer, o negro velho tio Remígio e Manequinho, o cozinheiro. Seu Duca, sota da estância, dorme com Geraldo, o peão caseiro, no quarto que dá para a varanda da esquila e onde se guarda a carroça. Entre os dois galpões, fica o aramado que cerca as casas e a borboleta de passagem. Entre a casa grande e os galpões, deixando um pátio grande no meio, é a casa do capataz, que consta de um quarto assoalhado e uma sala de terra batida; do outro lado estão a despensa e a cozinha da peonada. Atrás, o forno do pão e o galinheiro, mais adiante, os chiqueiros vazios.

Nesse U, do qual uma perna são os galpões, a base é a casa do capataz, e a casa grande forma a outra perna. Ela também é um U, em que as pernas são compostas de três partes: de um lado o quarto de banho, a cozinha e o quarto do motor de luz; do outro, a despensa interna, o quarto de siá Bela, a arrumadeira, e o quarto de tia Silvana, a negra velha que criou o coronel. A base do U da casa grande são as peças da família, quartos, sala de visita e sala de jantar. Entre as duas alas fica um pátio ladrilhado fechado por um algibe redondo, dos velhos tempos, com roldana e balde, enquanto ao lado lhe fica a bomba que leva água à caixa d’água do banheiro. Das duas colunas do algibe saem grades de madeira, que de cada lado terminam numa cancela do mesmo tipo e que se fecham sozinhas, por meio de uma mola de arame enroscado. Assim, o pátio fica separado do resto da estância. Nada como essas casas para pintar as vidas que abrigam. Defronte ao maciço estável da casa grande, o provisório erradio do galpão. Entre os dois, a casinhola do capataz, que não é galpão nem cada, tal como o morador, que pensa que é patrão porque manda nos peões para ganhar ordenado do estancieiro. Aí, também, tudo é silêncio. Na estância toda só se ouve o assobio do minuano, que chia entre as folhas dos eucaliptos, torcendo-lhes os galhos, quebrando ramos secos e seguindo sua rota triste, contando, por onde passa, as histórias tenebrosas das geleiras dos Andes e as correrias pelos pampas do sul. A lua rola no alto engolindo as estrelas, parece que vai tapando os buracos na cuia velha do céu. Algum ta-han desperto por barulho desconhecidos largou seu chamado sério de atenção e os quero-queros bochincheiros desandaram no berreiro nervoso de seus gritos. Depois tudo volta à calma, até a cavalhada parece adormecida, e fica cantando no silêncio da noite o assobio raivoso do minuano que leva a bofetada de gelo da geada por cima das árvores e dos homens. É o modo de respirar dessas noites nas coxilhas.


(In RIEDEL, Diaulas (org.). O pampa e os cavaleiros)

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