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ALIMENTAÇÃO NO VALE DO ITAJAÍ

Ainda hoje os velhos colonos nos contam como foi difícil o começo de vida no vale do Itajaí. Além do depauperamento causado pela longa viagem marítima, o colono estranhou grandemente a troca de alimentos. A farinha de mandioca ou de milho, o charque e o feijão; em vez de carne fresca, trigo, centeio, leite, queijo, verduras, etc., eram-lhe não só intragáveis, como lhe causavam muitas doenças.

A respeito da alimentação durante os primeiros anos da colônia de Brusque, diz um relatório: "Tiveram que passar muitas, mas mesmo muitas privações com seus filhos, a começar pela alimentação. A farinha de mandioca fervida em água era o alimento por excelência; comiam esse pirão com toucinho em que se notavam os indícios da longa viagem. Pão só havia quando chegava a lancha de Itajaí. Mas a quantidade não dava até a próxima chegada da lancha, acontecia então que se ralava o milho para servir de prato no domingo. Era freqüente a falta de sal; raspava-se, então, a crosta de sal do toucinho amarelo de Minas, para temperar o produto do mato".

O açúcar, a farinha de trigo e o arroz eram artigos de difícil aquisição. Com o progresso da lavoura e da criação, a carne fresca, os ovos, os legumes, o queijo, a lingüiça, a batata, o trigo, o centeio, etc., voltaram ao padrão habitual do colono alemão.

Durante muitos anos, os principais artigos de importação eram o sal, o fósforo, o querosene e o trigo.

A alimentação do colono alemão é a seguinte, conforme dados fornecidos por Cristiana Deeke Barreto:

Pela manhã: café com mistura, isto é, café, leite, maisbrot (pão de milho), muss, manteiga, ovos, frios, mel de abelhas.

Almoço: sopa, batatas, verduras, aipim, carne de porco, queijo, peixe do rio, conservas de palmito, pepino, vagens, etc.

Lanche: café com leite, bolos, manteiga, muss, mel de abelhas.

Jantar: sopa e a sobra do almoço. Ou então um Abenrbrot: ceia; com pão, manteiga, queijo, lingüiça, mate ou chá, ou ainda café com leite. Se há prato quente, é geralmente sobra do almoço, ovos mexidos, banana frita, etc.

Devemos esclarecer que os alemães-russos, menonitas e suíços têm a mesma base de alimentação.

Hoje, principalmente nos centros urbanos, estão sendo aproveitados os livros de receita. É lógico que certos pratos regionais como vatapá, caruru, etc. não têm aceitação. As famílias teuto-brasileiras já se adaptaram ao arroz, batatinha, macarrão, etc., como em qualquer outra parte do Brasil. Mas nas casas dos velhos colonos, o arroz só acompanhava certos pratos, como carne de galinha, língua com molho branco, etc. A batatinha, embora sendo a base da alimentação na Alemanha, como não fosse cultivada nos primeiros anos da colônia, perdeu prestígio como prato indispensável. Eles declaravam que o taiá e aipim eram mais saborosos. Mangaritos – amarelo ou branco – eram o prato que acompanhava a carne. O pirão (farinha de mandioca) só acompanhava determinados pratos. O feijão, como ainda acontece hoje, era só aproveitado na feijoada, que constitui um prato bastante apreciado. Mas, como é uma comida pesada, servem-se dela uma ou duas vezes por semana.

Agora, vamos aos pratos domingueiros e de festa, mais ou menos os que sãoservidos nas festas de Natal. Além das gulodices, bem do estilo germânico, há as nozes, amêndoas, figos, passas, chocolate. Nenhuma família os dispensa.

Ainda usam o Weihnachtsgebäck. São receitas especiais com amêndoas, passas, etc. Justamente na época de Natal, em que o calor castiga, é que são preparados. Mas a tradição tem força. E as receitas não são usadas em outra época do ano.

O nosso peru vai conquistando popularidade nas famílias de posse. É saboreado sempre em datas festivas, como aniversários, casamentos, Natal, Páscoa ou Pentecostes.

O prato mais comum, domingueiro, é o marreco, acompanhado de purê de batata, macarrão feito em casa, cenouras com petit-pois, uma salada ou maionese de camarão ou arenque, palmito em conserva, etc.

Ainda outro prato mais apreciado que o peru nas datas festivas, é o ganso. Usam-se os pratos de frios, saladas, maionese, sanduíches, etc. Também o pastelão de forno – carne de galinha, camarão ou língua – é muito apreciado e tema vantagem de ser preparado com antecedência, indo ao forno na hora desejada.

(…) A alimentação dos italo-brasileiros, conforme dados fornecidos pela senhora Leandro Longo, de Arrozeira, Timbó:

Pela manhã: café, leite, pão de milho com trigo e cará, muss, mel de abelhhas e manteiga.

Almoço: sopa minestra (feijão com verduras refogadas), polenta, arroz, verduras, aipim, carne, lingüiça, queijo, peixe de água doce; depois uma sobremesa de frutas ou doces.

Lanche: café com pão ou com bolinho de fubá.

Jantar: sopa, e geralmente a sobra do almoço. Havendo falta, recorre-se ao pão e café.

Noite: café ou chá (geralmente, chá de mate).

Em Rodeio, no início da colonização, a caá muito abundante, somada à polenta e às verduras silvestres, era a base da alimentação. A polenta, originária da Itália, ainda hoje é o prato predileto dos colonos italianos e seus descendentes. Como não houvesse atafona em Rodeio, nem em seus arredores, os colonos transportavam o milho para a moagem em Warnow, e mais tarde a Timbó. Os velhos colonos contam que a viagem a pé pelos picadões constituía a verdadeira aventura, não só devido ao perigo dos animais ferozes, como também pelos assaltos dos índios botocudos. Levam armas de fogo ou grampos (forca de capinar). Também os italianos estabelecidos na Barra do Trombudo, Rio de Sul, em 1907, vinham a Lontras moer o seu milho. Gastavam geralmente dois dias, varando os picadões e usando a canoa. Só oito anos mais tarde, o senhor Frederico Fettmann estabeleceu-se em Rio de Sul com serraria e moinho de fubá.

A polenta era preparada dentro de um tacho de cobre. Depois, usaram tachos de ferro, fundidos em Timbó, Indaial e Blumenau, bem conhecido em toda a zona como tacho polenteiro. A polenta feita pelos italianos tem sabor especial e dificilmente é igualada. No momento em que a água começa a ferver dentro do tacho, mistura-se aos poucos o fubá, que é mexido até formar mingau (ou massa) um tanto endurecido, mais ou menos durante uma hora, pela pazinha arredondada na parte superior e mais achatada na parte inferior, com ½ ou ¾ de metro de comprimento, chamada canarola ou mêscola. É então despejada sobre uma tabuinha redonda ou retangular, denominada tabiel.

Os poloneses e seus descendentes alimentam-se do seguinte: - broa (pão de trigo com centeio), feijão, arroz, batatinha, sopa de verduras, mel, manteiga, toucinho frito ou cru, carne (principalmente de porco), ovos, macarrão, etc.

São grandes apreciadores da erva-mate, que é tomada como chimarrão em lugar de água. Também preparam a erva-mate com água fria.

Com o correr dos anos, os botocudos transformaram-se em autênticos orizófagos.

Temos ainda os pescadores e os caboclos do litoral, que usam como alimentação básica o pirão d’água e o peixe. Vez ou outra comem feijão, arroz e carne.

Alguns colonos (uma minoria, por enquanto) contaram-nos que o pouco leite que conseguem de suas vacas crioulas são entregues às cooperativas, em pagamento de sua conta aimentada com as más colheitas, privando dessa forma a família do substancioso alimento. Outro fato que nos surpreendeu foi constatar que são vendidas em Brusque verduras de Blumenau e seus arredores, e, em Itajaí, verduras da capital paranaense. Também no hotel Balneário de Cabeçudas, o leite que no sera servido vinha da Holanda, em pó.


[1954]


(SILVA, Zedar Perfeito da. O vale do Itajaí.)

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