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MULA-SEM-CABEÇA

Ilustração de Marcos Jardim

iá Rosa era uma prendada senhora: às sextas-feiras entregava os filhos a uma comadre parteira e desaparecia sem quem ninguém suspeitasse.

É que Siá Rosa virava mula-sem-cabeça, não podendo fugir do agouro de sua triste condição. Uma quaresma, porém, veio surpreender a nossa heroína assentada à meia-quarta, isto é, com dores de parto. Era segunda-feira. Siá Rosa chamou a comadre e, não podendo explicar sua fuga durante o resguardo, contou-lhe a desgraçada sina que a perseguia.

-Virge Nossa, Siá Rosa vira bicho feio, disse a comadre persignando-se.

Siá Rosa chorava, mas... que fazer?... Era a sua sina... Para não ir longe, a parturiente pediu à amiga que arranjasse por empréstimo, uma fêmea de macho e a pusesse no curral. A caminhada até um pasto pô-la-ia doente. A comadre arranjou a encomenda e desejou ver Siá Rosa passar desta para a pele da mula, já amarrada a um poste, no pátio da casa.

-É perigoso, comadre, o que você deseja, quando viro mula-sem-cabeça sou perigosa, não conheço ninguém. O meio único de evitar minha cólera é esconder as unhas e não mostrar os dentes, mas... por mim. Julgo melhor você deixar esta idéia.

Entretanto, como a comadre insistisse, combinaram que a parteira ficaria atrás da casa, tendo cuidado de esconder os dentes e as unhas, para não ser percebida. Dito e feito. À meia-noite, numa sexta-feira, Siá Rosa pulou a janela do quarto, depois de ter dado uma última vista d’olhos ao bebê, para verificar se estava bem, dirigiu-se para o local em que tinha estado deitada, horas antes, a mula branca.

A comadre foi para o lugar convencionado e ficou à espera.

Siá Rosa tirou a roupa, ostentando, completamente despida, a linda carnadura, que o vento beijava de leve... sussurrando suavemente, num cicio de deleite... Estirou-se, rebolando-se na cama da mula: ouviu-se um ruído medonho e depois a mulher levantou-se metaformoseada. A comadre, com o grande estrondo, amedrontou-se e correu para a casa.

A mula-sem-cabeça ergueu-se, deu um formidável urro, um igual par de coices e, avistando a parteira, que na fuga esquecera-se das recomendações de Siá Rosa e mostrara as unhas, correu-lhe no encalço, dando formidáveis urros de cólera. A fugitiva, vendo-se perseguida, quis saltar a cerca do curral, porém atrapalhada pelo medo e pela saia, não o pôde fazer. Aterrorizada, vendo que a mula se aproximava, mudou de direção, correndo para um terreno de copadas de árvores, que se estendia ao lado do curral. A mula foi-lhe no encalço e uma terrível perseguição começou. A apurada mulher dava pernas ao medo, porém a ira dava maior velocidade à besta e a distância que mediava entre as duas diminuía a olhos vistos.

A desgraçada filha de Eva, que mais uma vez atestava sua curiosidade, da qual estava sendo vítima, viu-se irremediavelmente perdida, sendo acometida de um tremor nervoso que lhe tolheu os passos, enrijando-lhe os nervos, prendendo-a ao lado do solo. Com o rosto congestionado pelo medo, a malsinada vítima esperou e viu a aproximação do colérico animal. Este ferrou-lhe formidável patada no peito, prostrando-a sem sentidos, na relva úmida pelo sereno.

A mula-sem-cabeça continuou em sua desabalada carreira e, tomando por uma estrada, desapareceu na primeira curva. Ao alvor do dia o encanto cessou e Siá Rosa voltou para a cama, mas completamente ferida no rosto, no peito e nas pernas. Feridas esta que, ajudadas pela fraqueza da infeliz convalescente de parto, fez com que sua alma passasse desta para melhor vida. É que a pobre metamorfoseada se encontrara com uma colega valente, resultando apanhar uma grande carga de patadas, pois a antagonista tendo mais ouro, possuía ferraduras mais pesadas. O que Siá Rosa, ao fazer sua última viagem, fez, sem conhecer, foi a louca que apareceu na vila perambulando pelas ruas, às horas mortas.

Era inofensiva, tinha os olhos desmesuradamente abertos, como possuída de grande terror e dizia constantemente, em tom implorante: "Sou eu, Siá... num fis mar pr’eu não, Siá... Sou eu, Siá...".

(LACERDA, Regina (org.). Estórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso)

 

A mula-sem-cabeça, burrinha-de-padre ou simplesmente burrinha, é o castigo tremendo da concubina do padre católico.

Na noite de quinta para sexta-feira muda-se numa mula,
alentada e veloz, correndo com espantosa rapidez, até o terceiro cantar do galo.

Seus cascos afiados dão coices que ferem como navalhadas. Homens ou animais que encontram na dianteira de sua carreira furiosa, despedaça às patadas. Ouvem, de longe, o estrido do galope fantástico e as dentadas terríveis com que remorde o freio de ferro que leva na boca espumante e orlada de sangue.

Pela madrugada, exausta, recolhe-se, cheia de nódoas das pancadas. Volta à forma humana e recomeça o fadário na outra noite fatídica.

Para que a manceba do padre não vire burrinha é preciso que este não esqueça nunca de amaldiçoá-la, antes de celebrar a santa missa.

Para desencantá-la é necessário ter-se a suprema coragem de enfrentá-la e tirar-lhe destramente o freio de ferro.

Os detalhes variam. É uma mula que não tem cabeça mas relincha. É um animal quase negro, com uma cruz de cabelos brancos. Tem olhos de fogo. Tem um facho luminoso na ponta da cauda. Geme como uma criatura humana. Não geme, relincha e ao terminar, geme como se morresse de dor.


(ARAÚJO, Alceu Maynard; TABORDA, Vasco José. Estórias e Lendas de São Paulo, Santa Catarina e Paraná)

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