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Uma das coisas graves da vida, em que a gente não atenta é o nome. É uma voz, diz a cartilha, com que se dão a conhecer as coisas. O nome foi uma definição. Esses substantivos foram originalmente adjetivos ou qualificativos. Deus é o brilhante, o que luz. Donde a qualidade é que dominava. O nomem aparentava-se a numem, divindade, pois que era a essência do objeto. Somos tontos pondo nomes, inconsideradamente, às pessoas, como às ruas... Pelo menos evitaríamos que tantos pais tontos pusessem nomes ridículos aos filhos; que tantos prefeitos e conselhos municipais tanta tolice às ruas...

As ruas é que punham outrora a si próprias os seus nomes. Via Sacra era onde estavam os santuários, onde desfilavam os cortejos triunfais, Main Street é a rua principal; como a avenida Central ou avenida Beira-Mar já dizem logo o que são... Broadway é rua larga... e nós crismamos nossas ruas largas... rua Direita, não reta, como querem os levianos, dizendo que são tortas, mas ruas diretas... Às vezes explicitamente. Na Bahia havia rua Direita do Palácio, rua Direita do Colégio isto é, rua direta ao Palácio do governo, rua direta ao Colégio dos Padres Jesuítas. No rio a rua Direita é torta, mas é direta à Sé, que era a matriz, no Castelo, e a Misericórdia, de um lado, do outro a São Bento, no outro extremo.

Já de longe são estas ruas diretas ou direitas. (O digrama ec abrandou-se em ei: perfectus deu perfeito, lectus deu leito...).

Em Damasco, na Síria, passei pela rua Direita, que era a Via Direta, dos Atos do Apóstolos, em homenagem a São Paulo: "Vai à rua chamada Direita... e pergunta por um chamado Saulo de Tarso..." (IX, 11). E fui. Com a mania que temos de mudar os nomes tradicionais, a nossa rua direita é hoje Primeiro de Março, celebrando o termo da Guerra do Paraguai. Sucede que esta data se esquece e já ouvi alguém dizer que celebrava a fundação da Cidade, precisamente nesse dia, em 1565...

Por isso, porque às ruas se davam os próprios nomes, como se juntassem oficiais do mesmo ofício, comerciantes do mesmo varejo ou armarinho, havia ra dos Algibebes, dos Ourives, dos Ferreiros, dos Latoeiros, dos Pescadores, dos Retroseiros, dos Capelistas, das Violas... Como havia ruas de Cima, havia inevitáveis ruas de Baixo: a Bahia ainda tem uma, hoje Carlos Gomes, como o povo não prefere chamar. Camilo Julian conta a aventura da de Paris. Era via Infera, em latim, rua de baixo, que dialetalmente se dizia já quase francês: via enferá, corrompido em rue de l’enfer, mudado recentemente em rue Denfert-Rochereau... Trocadilho. Apropiação indevida. Assim, na Bahia, a rua do Saldanha, onde havia o paço do Saldanha (hoje Liceu de Artes e Ofício), nome do rico homem do século XVIII, dom Manuel de Saldanha, foi recentemente crismada rua Saldanha da Gama, nome de um almirante do fim do século XIX, reboco verbal, como aquele outro de argamassa que emplastrou a cantaria lavrada da bela igreja de São Francisco... Só faltava, que no Rio, fizessem do largo do Machado de Assis e , da rua do Pinheiro, rua do Pinheiro Machado... É que Machado e Pinheiro eram personagens conhecidos do povo, que os chamavam sem cerimônia "o Machado", "o Pinheiro". Por isso mesmo duvido que o povo chame sempre a esses logradouros "praça Duque de Caxias", "rua Machado de Assis"...

Esses nomes, postos pelos povos, se conservados, são um dos encantos de muitas cidades européias. São, por exemplo, das graças de Lisboa ou Évora... Em Évora percorro a rua das Amas do Cardeal e sorrio lembrando que o cardeal-rei dom Henrique, de muito velho, volveu a mamar, de onde o ter ama de leite. Conheci uma dona Maria da Mota, que tinha tal emprego. Fui investigar a outra, porque mestre povo teria razão: "rua das Ama do Cardeal"... "rua do Alfaiate da Condessa"... já havia, portanto, robes tailleur.... "rua do Mestre André" é de André de Rezende: o humanista, mestre nosso ainda hoje...

O nome das personagens postos às ruas em que moravam eram comum. No Rio há uma ruela dita, por isso, beco do Cairu. Beco é clássico, vicus, diminutivo de via. Quem seria esse Cairu, familiarmente assim chamado? Era José da Silva Lisboa, visconde de Cairu, que ao Príncipe Regente, à passagem pela sua Terra da Bahia, aconselhou que abrisse as portas às nações amigas, começo da Independência. É a homenagem que lhe prestou o Rio a esse grande da pátria, onde tanto joão-ninguém tem ruas e avenidas, embora anônimo... ao prefeito Alaor Prata requeremos, em 1926, o senhor Antônio Carlos e eu que se dispensasse "ao" Cairu tal homenagem, sobrando esquina para algum esfomeado de glória. Nem se dignou responder e lá está, atrás do Teatro Municipal, onde não passa telégrafo nem correio, porque não tem números, porém fundos de casas, e onde passo todos os dias, indo e vindo da Biblioteca Nacional.

Dessa mania de por nomes de graúdos nas ruas, há muito que dizer. A rua Nova no Recife tem tido vários; também a do Imperador, que o povo aí conserva, como não o fez - quem o diria?- em Petrópolis... Aí até o nome do fundador, Paulo Barbosa, teve de novo, sua rua, na cidade que fundara. Também em Petrópolis, Juárez, o caudilho mexicano, teve rua. Décadas depois já não sabiam quem era, e nova placa se pôs: rua Juarez... Homenagem ao grande socialista francês Juárez? Em breve, também não lhe acharam graça no "Juarez" e agora é "Osvaldo Cruz", pois está perto à casa do sábio. Prefeito municipal e sabedor de história é acumulação indevida.

Há hierarquia ou graduação nas ruas... avenida, boulevard, alameda, rua, beco, travessa... Algumas designações deparam. Calçada do Carmo. Calçada da Almada. Em Lisboa todas as calçadas são ladeiras... Também, na Bahia, a calçada do Bonfim. É que só as ladeiras eram, "calçadas", para não resvalarem, à descida? Depois o benefício se estendeu ao resto, mas calçada ficou. Square, largo, praça, campo... Beco sem saída é "betesga". Em Lisboa há uma "rua da Betesga": é que fora beco sem saída, mais tarde desimpedida, mas o povo guardou o nome, como o barão promovido a conde, que ficou conde-barão e por sinal, que tem sua rua, aí mesmo, em Lisboa. O que é cais, em Paris, é avenida Beira-Rio, em Campo. Há logradouros que se não qualificam, porém ilimitados, indefinidos,- mas todo mundo sabe onde são: o Carceler, no Rio de Janeiro, o Chiado, em Lisboa; Atrás de Madalena, em Paris, Atrás da Sé, em Braga; a Cinelândia, no Rio, criada por Francisco Serrador, cujo nome, obstinadamente, não quis dar um prefeito ao beco que passa atrás, batizado rua, mas o de um sábio doutor que nada tinha com o caso... Capricho também é poder.

Nas velhas ruas é imprudência nome novo, sobretudo se mais longo. O menor esforço impede a glorificação. A rua Joaquim Nabuco não pegou, ficou rua do Passeio público, e Nabuco teve de consolar-se em Copacabana. Vicente de Souza tão pouco, em Bambina. Pinheiro Machado não prevalecerá em Guanabara, nem, Machado de Assis no Pinheiro. Para o povo o nome curto é o melhor. Prefere a brevidade à homenagem...

Mas há sujeitos exigentes, que receiam não os identificar quem, então temos ruas "Ministro Fulano de tal dos Anzóis", avenida "Desembargador Beltrano Sicrano de Souza". Eram anônimos em vida, por isso procuram uma vaidosa perpetuidade de esquina... Mais tarde, lendo ou ouvindo tais nomes se perguntará quem eram... Verificar-se-á, então, como o batismo das suas ruas, que continuam o mesmo anonimato.

* * *

A nossa avenida Central teve este nome desde o começo, do governo Rodrigues Alves, que a fez. O engenheiro, que a rasgou, o ministro, por cuja secretaria, passavam as obras, bem desejaram dar-lhe o nome e os dois, um do outro esperava a iniciativa. Por fim foram ao presidente, que maliciosamente, lhes disse: "É o povo, o dono das ruas, quem as devem batizar; deixem que o faça". Ficou "avenida Central", mas morre Rio Branco, e lá mudaram. Mas há quem continue: "Avenida Central". E, para o maior número, é simplesmente a "Avenida"...

Em São Paulo morre um presidente e o prefeito, amigo, põe logo avenida Carlos de Gomes de Campos, não prevaleceu: ficou, como deve ser, avenida Paulista... Morre Moreira César e foi logo mudado o nome da rua do Ouvidor... Quando, e foi rápido, esqueceram o sacrificado de Canudos, o prefeito Azevedo Sodré tornou, à rua do Ouvidor, o seu nome tradicional... Aliás essa rua é achacada a mudanças. Data de 1568, como Desvio do Mar; depois rua Aleixo Manuel, nome de conhecido e prestimoso barbeiro, até 1590; no século XVII foi rua Padre Homem da Costa; em 1780, quando aí veio morar o ouvidor da Comarca do Rio de Janeiro, doutor Francisco Berquó da Silveira, ficou rua do Ouvidor era a rua característica do Rio, antes da Avenida. Casas de jóias e de modas, principalmente de joalherias e capelistas franceses: - pelo que aí se gastava, chamavam-na "rue Ou vi d’or" de ouro visto, que passava a outras bolsas. Era o ponto de encontro elegante. Viajante estrangeiro referiu-se a esse clube ao ar livre. Hoje a rua do Ouvidor é apenas a parte da cidade nova que, pelo largo de São Francisco, vai à Avenida...

As datas são também imprudentes... Já vimos: 1º de Março, que é mais fundação da cidade de Estácio de Sá, que terminação de conflito sul-americano. A Várzea de Nossa Senhora do Ó, pela sua Igreja, hoje Catedral, tornou-se campo do Carmo, pelo convento dessa religião aí posto; depois terreiro da Polé, ou do Pelourinho; depois largo do Paço; com a República foi crismada praça 15 de Novembro... Mas ninguém diz mais assim, nem mesmo a Light, na tabuletas dos bondes, senão: "Praça Quinze", como "Praça Onze" é 11 de junho.... Menor esforço... impatriótico.

Os nomes de santos são mais duradouros: os mandões, se não temem o outro mundo, temem a fé do povo e, por isso, conservam-se sem mudança as ruas São Pedro, São José, Santa Luzia, São Bento, São Francisco... até mesmo quando promovidas... A "rua" continuou "avenida" São João, em São Paulo. Contudo a política desalojou Santana do campo da Aclamação e, depois, praça da República... o povo felizmente continua campo de Santana... como não se acostuma completamente à praça Tiradentes, se é mais curto o "Rossio"...

Os velhos nomes tradicionais tinham seu encanto, à vezes reservado: Retiro Saudoso, praia da Saudade, morro da Viúva, Rodrigo de Freitas, estrada Real de Santa Cruz... Lembrar-se-ão que a viúva não foi nenhuma dama alegre, senão dona Joaquina Figueiredo Pereira Barros, esposa de Joaquim José Gomes de Barros, e poderia ser a viúva do marquês do Paraná, proprietários do morro, que se chamou Leripe, ou Leri, e onde diz a tradição que morou Jean de Léry? Vieira Fazenda diz que o morro de Leri foi, primeiro, o da Glória e, só depois o da Viúva... (O da Glória foi "Leripe" , isto é "ostreira", em tupi, pois a cavaleiro sobre a praia, onde havia recifes com estes mariscos. Por desaguadouro do rio Catete, estavam a fonte da Carioca e o forte deste nome ou da Glória). Quem dirá o bairro do Botafogo recorda João Pereira de Souza Botafogo, aí morador desde 1590, donde também chamar-se "praia de João de Souza", como dantes era "praia de Francisco Velho", companheiro de Estácio de Sá que, da praia Vermelha ou de Martim Afonso, avançou pela praia da Saudade, costeando o Morro, depois chamado de Matias, do Pasmado, da Azinhaga, começo da avenida Pasteur de hoje, atravessando o rio de Berquó, nome do ouvidor Berquó ou da Banana Podre, onde está hoje o desgracioso e inútil Pavilhão Mourisco, desbravando então, daí, a pequena baía encerrada entre os morros do Pasmado e da Viúva?

São Clemente é o onomástico do vigário geral doutor Clemente Martins de Matos e quase Rui Barbosa lhe toma a rua... Não havia perigo: santo, e nome mais curto...

Cosme Velho, segundo Rodolfo Garcia, seria Cosme Velho Pereira, personagem identificada. Rodrigo de Freitas, o nome da lagoa,- não de "Tretas", como queria Rugendas, em cujas terras ficava a lagoa de Ipanema (água suja) ou Sacopenapã (lagoa das raízes chatas), é Rodrigo de Freitas Melo e Castro, o nome do donatário. "Estrada Real de Santa Cruz" lembra a honra que a Santa Cruz deu a dom João VI, de aí veranear, pra o que se construiu a estrada, marginada depois por casas, de onde rua; lembra a tragédia de Euclides da Cunha, aí assassinado, lembra ainda, diz-me Américo Lacombe, um título de capítulo da Imitação de Cristo: "estrada real de Santa Cruz"... Qualquer dia destes vai... mudado.

Diz Varnhagem que o Flamengo fora um dito, cuja morada veio a avultar na praia, depois que, concertada a paz com a Holanda, em 1661, puderam eles habitar livremente o país. Era o uruçu-mirim, dos índios; aí desaguava o rio das Caboclas, vindo do Corcovado, por Laranjeiras e, antes do sítio do Largo do Machado, se dividia em dois braços, um via Conde Baependi, praça José de Alencar, Barão de Flamengo, outro por Carvalho de Sá (hoje Gago Coutinho), Bento Lisboa, Dois de Dezembro... Essa água, na foz, era a da Carioca, "aguada dos marinheiros"outrora, que, diz Rocha Pita, proporcionava "mimoso carão às damas"...

Fora a praia, lá para baixo, rumo do morro da Viúva, "praia do Sapateiro" (Sebastião Gonçalves), praia do Namorado, bonito nome, não genérico, senão do 1º juiz ordinário do Rio, Pedro Martins Namorado que, por 1566, aí foi morar. Tudo, porém, ficou Flamengo, até a Glória, que separa outra praia, a do Russel, nome do contratador dos esgotos, 1855, Coronel João Frederico Russel: a City Improvements que lhe sucedeu instalou, perto, a primeira de sua estações, hoje dissimulada entre os jardins da Glória.

O Catete é a rua característica do Rio, entre a Cidade e o Botafogo: é o "mato virgem" ou "verdadeiro" dos índios.

Não se achou ainda um sujeito ou uma data para crismá-lo.

Distração do luto oficial ou do entusiasmo patriótico. Parece garantido pela brevidade: nem rua mais precisa dizer: é "Catete", como "Flamengo", "Carceler", "Lapa" , "Glória", "Mangue", "Catumbi", "Caju", "Leme", "Leblon",... Garantidos.

alruapi.gif (3573 bytes)Dos velhos nomes nem todos eram bonitos: foi bem que alguns desapareceram. Por exemplo: rua do Piolho(hoje Carioca). Tentaram dar - insensatez! - à rua que tem o nome mais típico da cidade, o do Presidente Wilson, o pastor protestante que perdeu a paz na Europa em 1919, mas, felizmente, não pegou, e Wilson foi ter a avenida das Nações; rua do Cano" (hoje Sete de Setembro); da Vala(hoje Uruguaiana); do Sabão (hoje Marechal Câmara); dos Pescadores (Visconde de Inhaúma) não deixaram saudade...

Rodolfo Garcia diz que a da Quitanda (dos Mariscos) foi do Capitão Mateus de Freitas e fora "Sucu-sarará", belo nome de aparência tupi. Mas não é senão português, corrompido por inglês, citando Melo Morais, Garcia esclarece:

"Certo cirurgião britânico que aí morava, especialista no tratamento das hemorróidas, prometia sarar os clientes, na parte mais afetada, alterando apenas o possessivo seu em su". Presunção sem resguardo.

A do Valongo foi da Imperatriz e hoje é rua Camerino: como os brasileiros não são obrigados a saber a história do Brasil, não saberão amanhã quem foi Camerino... A rua Detrás do Teatro é a de Luís de Camões. A das Marrecas foi das Belas Noites, continuando a predestinação. Na Lapa havia um seminário, de onde ter sido largo dos Formigões. A bela rua de Paissandu, celebrando batalha - vindo o nome do pai (ou padre) Sandu - foi de Santa Tereza do Catete. Riachuelo foi Mata-Cavalos, como Estácio de Sá, Mata-Porcos. Frei Caneca foi Caminho Novo, do Conde rua nova do Conde (da Cunha). Os Caminhos Velhos e Novo de Botafogo são as ruas do Senador Vergueiro e do Marquês de Abrantes... hoje apenas Vergueiro e Abrantes... A rua da Passagem é de "passagem" de Botafogo para a Lagoa; "General Polidoro" era o caminho da Lagoa.

Uma toponímia do Rio de Janeiro, ou de qualquer cidade, é uma história miúda divertidíssima. Tal história ensinaria que até nomes impostos não pegam e não mudam os outros. Aviso às viúvas abusivas – vide o livro de De Monzie... - que promovem manifestação póstumas aos maridos, que não souberam talvez amar como esposas, para os glorificarem pelo remorso, na vaidade pública: são elas as mais tenazes solicitantes dos poderes públicos. Aviso aos magistrados, doutores, militares, que, em vida, conseguem desses favores móveis, e, pesar deles, continuam incógnitos.

Anonímia de esquina ou de placa; de praça, ou de mármore ou bronze... sobre esse grave assunto o sábio Camile Julian escreveu às municipalidades: "sob o pretexto de comemorar a vida de alguns homens, efêmeros de um dia, cessais de comemorar a terra eterna dos trabalhadores anônimos... o povo, se adota o nome imposto, repete-o sem tento, sem lhe dar sentido algum. Ou dando divertida interpretação: "é o sujeito que deu o terreno"...

Foi a resposta que ouviu Souza Bandeira perguntando a um sujeito, em Montpellier, quem era Auguste Comte, cujo nome lia numa esquina... Max Nordau conta, de um busto, numa rua de Marselha, de um convencional, da Revolução Francesa: ouviu esta explicação de um popular: "é de um assassino célebre, posto aqui por expiação". Quase acertou. Na Academia Francesa, Instituto de França, acharam-se quantidades de bustos não identificados... tal é a glória. Esses homens eram considerados célebres e imortais... volvido o tempo eram apenas mortais desconhecidos. Na Alemanha hitleriana, quando veio a fome de metais, uma draga passeou pelas praças públicas e lá levou os monumentos eternos- aere perennius, cuidava Horácio, com razão, dos seus versos, mais duráveis que o bronze... - para a fundição. Muito notado foi a estátua do Imperador Guilherme II, que a si permitira tal perpetuidade...

Nem o bronze, quanto mais os donos das ruas... e suas placas. E que loteria! Meissonnier, o pintor, quando lhe deram uma rua em Paris, exclamava: "privaram-se do meu boulevard!" Não tinha filosofia. No Rio de Janeiro, capital do Brasil, não há "rua Cabral" o que descobre o Brasil, mas há "Soares Cabral", que ninguém sabe quem é... Não há "Alexandre de Gusmão" que preparou o Tratado de 1750... Não há "Grover Cleveland" que nos deu a posse das missões. Não há Walter Hanser, que nos deu o Amapá, mas há Pinedo, Sachet, igualmente célebres e estrangeiros. João Ninguém tem uma avenida e João Tudo tem um beco. Ou César ou João Fernandes. Ou Cairu ou Comendador Tal ou Campeão Qual. Essa honra, do nome numa esquina, é no Rio, pelo menos, barata. O cidadão Pingô, João Batista do Espírito Santo Pingô

Veio pelos apelidos do Jornal do Commercio contar como agenciara operários de uma fábrica de calçados, perto da prefeitura, para fingir de povo, 200 cabeças a 5$000, e, à frente deles, fora ao prefeito pedir duas ruas para certo figurão e senhora, o que foi feito, não sendo cumprido o pacto do pagamento... O artigo era exatamente, para explicar-se ao "povo". Mas duas ruas em Botafogo mudaram os nomes para os compridos e feios...

Como os moradores da rua das Palmeiras protestassem, foi retirada a crisma, e posta em outro logradouro... O escândalo não puniu.

Mas nem precisa tal custo de não pagar, ou ter "mofina"... A Academia Brasileira, mais de uma vez, recebeu da prefeitura pedido para lhe fornecer lista de homens de letras falecidos para batismo de novas ruas, e que a cidade crescente deseja prestigiar... Por um soneto, um conto, uns artigos de jornal... ou mesmo nada, a condescência com a secretaria da Academia, e... nome numa rua! É por isso, sem dúvida, justa compensação das coisas, que o motd’ordre atual é a guerra ao nosso excesso de intelectualismo... Esta expressão, num país onde a maioria é de analfabetos, é generosa... Como são invejados os tais padrinhos das ruas! Mas, atrás dos homens de letras, vem o grosso da multidão , os sem letras nem nada... Às vezes nomes imaginários: por exemplo: rua Eufrásia Correia, ali perto da Igreja da Glória, na rua Carvalho de Sá, que ora é Gago Coutinho... É Eufrásio Correia, nome de um estudante, morto no combate da Armação: mudou-lhe a glória do sexo...

Felizmente o juízo das ruas não é o final. Tudo passa na terra, até a perenidade dos fátuos... Esses nomes e essas datas postas nas esquinas das ruas me dão idéia divertida: a de um peito de ciclista ou de nadador, repleto de medalhas e condecorações... Não quisera, assim como o vejo, Rio de Janeiro... e outras belas cidades, afeadas.

Mas, então, que seria? Queria que o nome das ruas fosse o que deve ser: indicador, apenas. Simples e curto para o correio e o telégrafo. Utilidade inteligente e não estupidez vaidosa... Só o que queria... Nova York dá exemplo: números... A mais fácil das cidades a percorrer, seguramente orientado... A 5ª Avenida é a mais bela e rica e nobre rua do mundo. Há nomes de mulheres, ou de flores, ou, de pedras preciosas... Belo Horizonte não se arrepende. Tenho imensa simpatia pela rua Alice, no Rio, pela avenida Angélica em São Paulo. Flórida é um encanto para mim, em Buenos Aires. Os Campos Elíseos devem parecer com os do outro mundo, os do eleitos, e são em Paris...

Com um pouco de imaginação e menos tolice as ruas teriam lindos e fáceis nomes e não seriam com estas malas de viagem grudadas, de vez em vez, de feias etiquetas efêmeras... As malas, ao menos, se lavam e se limpam facilmente. As ruas demoram com suas etiquetas, mais tempo...

 

(PEIXOTO, Afrânio. Miçangas Fama (Folclore) e História)

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