Jangada Brasil, nº 32, abril de 2001: Almanaque – 1/3

 

 

O nome inconfundível, com o qual ingressou nos anais científicos, revela, pelo hibridismo da sua formação, a singularidade impressionante do mais profundo conhecedor dos aborígenes do Brasil em seu tempo.

A frase européia da existência esbate-se-lhe nas penumbras da floresta da Turíngia, que lhe povoaram a mente de lendas e fábulas, desde a infância.

Natural de Jena, onde surgiu por volta de 1883, não lhe freqüentou a famosa universidade, que desde o século XVI permitia a formação de sábios em mais de um ramo. Preferia atirar-se à vida aventureira, embora desprovido de conhecimentos universitários, que possuíam os predecessores, cujos relatos de peregrinações por desconhecidas paragens o seduziram.

Freqüentara apenas o curso secundário, consoante declararia despretensiosamente a Herbert Baldus: “não gozei de nenhuma espécie de instrução acadêmica.”

Seria, pois, um autodidata.

Porventura nenhum programa de trabalho formulara, opostamente a Martius e Spix, à testa da expedição científica, oficialmente organizada, e à maioria dos continuadores de explorações do território brasileiro, à custa de governos ou de instituições culturais.

Modestamente, acorde com a sua origem, Curt Unkel, nome de sua personalidade alemã, antes de alcançar a maioridade civil, deixou a terra natal, em busca de aventuras. Cruzaria o Atlântico possivelmente incluído em alguma leva de imigrantes. Ao conhecer São Paulo, porém, decidiu ali estanciar, apartando-se da maioria dos companheiros de travessia, atraídos, por elos raciais, aos núcleos alemães do Rio Grande do Sul. Porque assim obrou, não saberia ao certo. Muito menos para que. Nem há notícia de como lhe decorrera a vida no biênio de adaptação ao novo ambiente.

Todavia, não tardou em registrar o primeiro feito surpreendente.

“Conheci o guarani, – confidenciou em Lenda da criação e juízo final do mundo, – em 1905, no oeste de São Paulo e vivi em suas tabas, com poucas interrupções, até 1907, na cidade de Batalha, como um deles.”

Não exagerava na declaração verídica. Definiu-se-lhe o destino glorioso, naquela experiência inicial, que lhe permitiu a convivência com os nativos. De tal maneira se lhes afeiçoou, tão sinceras se repetiam as provas de sua amizade leal, que resolveram aplicar-lhe apelido indicativo da transformação pessoal. Como simples criança, ao receber o nome que a individualize, submeterem-no à cerimônia do batismo, presidida pelo pajé.

Ao fim, o hóspede perdera o nome primitivo, Curt Unkel, substituído pelo de Curt Nimuendaju, que significa: “o ser que cria ou faz o seu próprio lar”.

E ganhara credenciais prestigiosas, para empreender pesquisas, a que de ordinário se mostram refratários os desconfiados aborígenes.

Ao invés de individualidade estranha aos seus grupos, acolhiam-no como um apreciado amigo de confiança, que francamente comungava em seus sentimentos e tinha o direito de entrar-lhes no segredo das práticas religiosas.

Não seria somente o interesse de investigação que inspiraria ao filho adotivo das selvas a aceitação de novo título, indicativo da transfiguração de sua personalidade.

Na realidade, quanto mais estudava a psicologia indígena, mais se afeiçoava àquela gente necessitada de assistência e proteção, que não se regia pelos postulados do Código Penal. E assim conseguiu, pois que se integrara na comunidade cabocla, conhecer-lhe a vida na intimidade atual e pretérita, pela recordação das lendas, mitos e culto dos seus heróis consagrados.

Mais do que pelos índices antropométricos dos indivíduos, empenhava-se em avaliar-lhes as características psíquicas, pela compreensão das aspirações coletivas, as superstições, o comportamento diário e nas ocasiões extraordinárias.

Quando regressou à capital paulista, depois de um mergulho naquelas rudes paragens, tinha em mãos os primeiros apontamentos, reveladores de vocação merecedora de estímulo.

Acolhido pelo Museu do Ipiranga, então dirigido pelo saber de H. von Ihering, cujas idéias a respeito da incorporação dos aborígenes aos meios civilizados não lhe agradaram, preferiu alistar-se entre os colaboradores do Serviço de Proteção aos Índios, a partir de 1911. Aplaudiu-lhe os propósitos humanitários, que se harmonizavam com os seus próprios, e decidiu prestar-lhe o mais abnegado concurso. Freqüentou-lhe os postos indígenas, “a principiar pelo de Araribá (dos Caingang) em São Paulo, viajando, estudando, escrevendo, construindo uma obra que abrangia toda a ologênese cultural das tribos que visitou”, consoante assinalou Nunes Pereira, ao recordar-lhe a vida e os trabalhos perante o Instituto de Etnologia e Sociologia do Amazonas.

Peregrinou pela região costeira de São Paulo, por oeste, ao sul de Mato Grosso, pelo sul até o Paraná.

Escrevia sempre. Entretanto, não se tornaram conhecidos, de princípio, os resultados de suas observações, que só em 1914 começaram a divulgar-se em revistas especializadas, especialmente as que se consagravam à Etnologia, em Berlim, Viena, Paris, Stuttgart. Eram, em maioria, vocabulários do linguajar desconhecido, que necessitavam de correções, dos Appocuva, dos Manajé, dos Timbira, dos Parintintin, e dezenas de tribos da Amazônia, para onde transferira o seu nomadismo científico, por volta de 1913.

Elaborava igualmente ensaios de maior extensão, como a Lenda da criação e juízo final do mundoThe social structure of the Remkomekra (Canela) e vários outros, que lhe espelhavam o conhecimento cabal dos costumes indígenas.

Redigia-os habitualmente, em alemão, como se ainda fora Unkel, mas os sentimentos, a simpatia transbordante com que se referia aos irmãos adotivos, expressavam à justa mentalidade adquirida, de Nimuendaju. Deixou, a propósito, a confidência: “freqüentei, com predileção, a companhia dos velhos e, de modo especial, a dos pajés (médicos) e me fiz instruir durante horas seguidas sobre os mistérios da velha religião. Até hoje eles se mostram orgulhosos do seu aluno”.

Viajante inacessível ao cansaço, andou por dilatada extensão do território brasileiro, ora a serviço do Museu Nacional, do Paulista, do Paranaense, ora para os museus estrangeiros, de Gotemburgo, Dresden, Hamburgo, Leipzig, para o Carnegie Institute ou para a Universidade da Califórnia. “São quarenta e três anos de viagens, afirmou Nunes Pereira, fazendo escavações, pacificando, coligindo material lingüístico, estudando a cultura material e espiritual de inúmeras tribos, procedendo como topógrafo e cartógrafo que era, a levantamentos das regiões percorridas, ilustrando os próprios trabalhos a bico de pena e registrando melodias indígenas”.

Cuidava especialmente de etnologia, versada em dezenas de contribuições, inclusive a última, referente aos Tucunas, “trabalho minucioso, de uma extraordinária densidade de observações de fatos e de conclusões, representando, de modo total, a cultura desse povo”, conforme apreciou Nunes Pereira, que teve em mãos os originais.

Para aperfeiçoá-lo, sulcou pela terceira vez o Solimões, como antes fizera em rios inúmeros da Amazônia, de São Paulo e vizinhanças, confiante na resistência do seu organismo, que não mais lhe permitiu os triunfos anteriores.

Ao sucumbir, como talvez desejasse, em viagem de estudos, interrompeu a trajetória exemplar, percorrida abnegadamente pelo fervoroso amigo dos silvícolas, que lhes observou com esmero as peculiaridades da cultura material e organização social.

Para melhormente defini-las, houve mister localizá-las com a maior aproximação possível. Daí se originou a longa série de esboços científicos e mapas, que acompanhavam cada reconhecimento por ínvios rincões. Essas explorações – “um périplo espetacular de cientista ao longo da costa e do interior do Brasil” – afirmou quem lhe conhecia a obra admirável, permitiram que ele, como topógrafo e cartógrafo, enriquecesse as mapotecas da nossa terra com trabalhos de alta valia.

Para mais ampliar a sua colaboração exclusivamente geográfica, organizou “um mapa de proporções, para o Museu Paraense, a pedido de Carlos Estevão, mostrando as localizações remotas, os deslocamentos, as migrações das tribos indígenas em nosso país”, afirmou, ainda, Nunes Pereira.

Achava-se, mais do que ninguém, credenciado pelos ensaios anteriormente divulgados, para empreender tamanha obra, que exigia conhecimentos de etnologia, de história, de localização de tribos inclinadas ao nomadismo.

Não obstante, conseguiu ultimá-la e, ainda mais, reduzi-la em cópias, entregues à Inspetoria de Índios do Pará, à Universidade de Colômbia, a pedido de Robert Low, que lhe propiciara a publicação, em inglês, de The Gamela indians e outros ensaios.

Cooperou, destarte, Nimuendaju, para mais exato conhecimento da terra brasileira e das populações marginais, que ainda se encontram agrupadas nas regiões que explorou. Ainda mais lhe avultará a contribuição geográfica, depois que lhe for examinado o espólio científico, em boa hora confiado ao Museu Nacional, onde os estudiosos poderão, mais tarde, examinar-lhes os escritos e mapas referentes ao Brasil

Transcrito da RBG, jan/mar de 1951

(CORREA FILHO, Virgílio. Em Mapa etno-histórico de Curt Nimuendaju)
 

 

 

 

Quadro das pesquisas de campo realizadas por
Curt Nimuendaju

 

Anos

Regiões

Tribos

1905-1908 Oeste de São Paulo Guarani, Kaingáng
1909 Oeste de São Paulo, sul de Mato Grosso Guarani, Kaingáng, Ofayé, Orti, Terena
1910 Oeste de São Paulo Guarani, Kaingáng
1911 Oeste e litoral de São Paulo Guarani, Kaingáng
1912 Oeste e litoral de São Paulo Guarani, Kaingáng, Kaiguá
1913 Sul de Mato Grosso Ofayé, Guarani, Kaingáng
1914-1915 Gurupi Tembé, Timbira, Urubu
1915-1916 Missão Santo Antônio do Prata Tembé
1916-1919 Xingu, Iriri, Curuá Juruna, Xipaya, Arara, Kayapó
1920 Litoral do Pará
1921 Oiapoque
1921-1923 Rio Madeira Parintintin, Mura, Pirahã, Tora, Matanawi
1922 Ilha de Marajó Escavações
1923 Tapajós, Mariacuã, Maué Guiana, Marajó, Caviana Escavações
1924-1925 Tapajós, Trombetas, Jamundá, Caviana Escavações
1925 Oiapoque Escavações – Palikur, índios do Uaçá
1926 Afluentes do Amazonas, Madeira, Autaz Tocantins Escavações – Mura, Munduruku Escavações
1927 Rio Negro, Içana, Uaupés Baníwa, Wanâna, Tariâna, Tukano, Maku
1928 Tapajós Escavações
1928-1929 Maranhão, Goiás Apinayé, Canela, Krikati, Krepúnkateye, Pokópüe, Guajajara
1929 Solimões Tukuna
1930 Tocantins, Maranhão Apinayé, Xerente, Kraho, Canela
1931 Tocantins, Maranhão Apinayé, Canela
1932 Tocantins Apinayé
Tapajós, Manaus
1933 Maranhão Canela
1934 Pernambuco Fulniô, Xucuru
1935 Maranhão Canela
1936 Maranhão Gamela, Canela
1937 Tocantins Apinayé, Xerente
1938-1939 Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo Patachó, Kamakã, Machacari, Botocudos
1940 Xingu, Araguaia Gorotire, Kayapó do Arraias
1941-1942 Solimões Tukuna
1945 Solimões Tukuna

 

 

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