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Fio inspirado em desenho de muiraquitã.
O TESTAMENTO DE JUDAS
Coletado pela professora Neide Maria Rodrigues de Sousa, 1976, Bahia.

Meu amigo Leite Ninho
Compadre das horas mortas
Tenha cuidado queridinho
Bata devagar nas portas
Vou te deixar uma besteira
Pra lhe botar na pirraça
Uma vela e uma esteira
E uma garrafa de cachaça.
Esta herança que deixei
É de grande estimação
Tudo isto, Leite Ninho
Foi deixado de coração
Lhe disse tudo que sinto
Pra você que é meu chapa
Deixe de roubar pinto
E colocar debaixo da capa.

Mestre Daniel pedreiro,
Não fale tanto assim
Faça como Félix Carneiro
Que não mente para mim
Nada pude te deixar,
Pois a vida esta dura
Já falei com o Menezes
Para lhe dar a prefeitura
Pois água mole diz o ditado
Bate na pedra até que fura
Porém te digo coitado
O que é bom não atura
Esqueça Luís e Gervásio
Que já estão com a perna dura.

Se não está satisfeito
Venha aqui para dizer-me
Pois em tudo dou jeito
Para te satisfazer.
Se aqui você não vem
Com vergonha de Joaquim
Vou te dar um grande bem
Meu vira-lata chulim.
Meu amigo, Zinho
Olhe bem o que vou lhe dizer
Deixe de tomar tanta fofa
Do contrário vai morrer
Deixei um corte de pano
Mande Selvino coser
Ele é bom alfaiate
Costura bem direitinho.
Vá provar logo sua roupa
Que ele fez com carinho.

Otacílio, aguadeiro,
Deixe de tanta besteira
Não suje a nossa cidade
Que rua não é cocheira
Você mesmo é assim;
É o que diz todo mundo
Vou deixar para você
Uma coisa bem bacana
Um pasto bem cercado
Todo plantado de grama.

Secretário, Zé Ribeiro,
Cara muito atrapalhado
Deixe o pijama em casa
E ande bem trajado
Se é porque não gosta
Ou não tem gavetão
Fique pra você, meu carro
O meu velho jaquetão.

Mas aqui tem tanta gente
É um carnaval sem frevo
Só gosto de café quente,
Quando é junto com Estevão
Pra você eu vou deixar
Toda minha mincharia
Deixe agora de viajar
E goze sua aposentadoria.

Vou aqui vou ali
Com saudade de Romão
Dodô tome aqui
De tudo isso grandão
Sei que ele vai gostar
Não é hipocrisia
Isso tudo é pra chamar
A sua grande freguesia
Quando chegar você ver
Uma cabeça e uma asa
De urubu com dendê.

Para Nenê de Euclides
Amigo desde menino
Por favor não dê ouvidos
A Chico de Liobino
Pra vocês que são amigos
E amigos muito fino
A minha palavra é certa
Como repique de sino
Vou te deixar o meu porrete
Porém não seja assassino.

Fernando Santana, querido
Está alegre e risonho
Esqueça a Sunab, amigo
Para não ficar tristonho
Tudo isto é da vida
O decreto se foi
Continue na sua lida
Vá vendendo o seu boi
Tenho para você:
Uma bode e uma jega
Uma boa cabra leiteira
E uma capenga mula cega.

Dunguinha, meu compadre
Assim a coisa vai mal
Quem lhe meteu na cabeça
Ser presidente do MOBRAL?
Um conselho vou dar-lhe
Sabe que sou amigão
Continue em seu negócio
Dirigindo o caminhão
Chorei muito por você,
Que Nené ficou com dó
Venda este carro teimoso
Leve o meu carro "Ford" .

Para o amigo Daniel Cruz,
Carcereiro do Pedrão
Vou lhe tirar daqui
E mandar para o sertão,
Lá a coisa é muito boa
De boas passa a ser gostosa
Vou deixar lá, na Gamboa
A minha mula "Mimosa".

Lembrei do Valverde, chorando
Grande amigo deixo agora
Não continue enganando-me
Dizendo que vai embora.
Se vai, vai bem arrumado
Não vai com a mão pura.
Se ficar, fica calado
Te garanto a prefeitura
Pois a turma está com vontade
De ver tua candidatura.
Uma coisa te garanto
Não leves a mal!
Está a coisa tão boa
Que tem chegado é bacalhau.

João Costa meu amigo
Que mora no Caldeirão
Não aumente o preço da carne
Tire a diferença na arrobação
Discuta com o fazendeiro
Diga pra ele não subir.
Mas ganhe pouco dinheiro
Que a SUNAB vem aí
Vou deixar para você
Que no peso me massacra
Uma pistola de dois canos
Meu ferrão e uma taca.

Constantino Dantas, meu guia
Caro amigo e correligionário
Com conversa mole e macia
Você ficou milionário.
Lembrei-lhe o tempo todo
E tenho tudo de cor
Deixo uma sela de campo
Para montar no seu pongó.

Tiaguinho meu empregado
Que nada tive pra deixar
Corra e pegue meu burro
Para você trabalhar.
O burro é cego e aleijado
Uma orelha é cotó
Coloquei um nome nele
Chama-se: xodó
Tem defeito no andar
Pois a venta é uma só
Sei que você vai gostar
Quando for à um forró.

Ó meu compadre Caçapa
Deixe de ser teimoso
Fazenda não é carro
Para você andar cheiroso
Fiz tudo por você
Não quis maltratar-lhe
Cuidado com a vaca na estrada
Que ainda vai lhe enrolar
O negócio tá andando
E muito sério vai ficar
A justiça está chamando
Pra vaca você pagar.
Voltando atrás o que disse
Nunca quis maltratar-lhe
Deixo os meus óculos de grau
Pra melhor você enxergar.

João Soares, meu amigo
Esta vida é muito dura
Um conselho eu te digo
De mais renda a Prefeitura
A coisa agora melhorou
Esta boa, como mel
Você cobrando a farinha
Ajudado por Israel
Não te queixe, tanto assim
Que te deixe em apuros
O aumento vai sair
Com correção e juros.

Ao meu caro prefeito
Sua paciência é demais
O nosso trato tem efeito
Assim não lhe apoio mais
Venha pra perto de mim
Pois a bomba não lhe maltrata
Prefeito, olhe pra frente
Pedrão vai virar mata
Juro por tudo no mundo
Só não juro pela cruz
Prefeito olhe outra coisa
O Pedrão está sem luz
Não fique triste comigo
Vou morrer, não tenha mágoa
De outra vez que vier aqui
Quero encontrar é a água
Vou lhe deixar uma coisa
Este eu sei que não amola
É um conselho, seu prefeito
Não abra mais uma escola.

Ao sobrinho Miguel Teles
Não fique agoniado
Tudo está correndo bem
Ainda estou ao seu lado
Fique com o Brocóto,
Pra ficar aliviado.
E a seu mano Tonho
Para ficar milionário
Lhe deixo com muita pena
A terra do Seminário.

Pra Duda meu açougueiro
Que é uma cabra de valor
Sua carreira é violeiro
E não serve pra cantor
Como você me trata bem,
E tudo isso me consola
Roberto Carlos, vai te deixar
As cordas de minha viola.
 
Pra turma da "Prefeitura"
A coisa já está boa
Será que a cana é dura
Ou está mesmo à toa?
Disse-me Zé de Camilo:
"que não tem o que falar"
pois de quatro em quatro anos
tudo tem que mudar
será que brevemente
vai ser assim ou piorar?
Falei tanto dessa raça!
De saudades vou chorar
Deixarei no meio da praça
Uma casa pra cada um morar.

Claúdio de Maurício, meu capataz,
Eu não quero nem lhe ver
Pra ser delgado, o rapaz
Tem de aprender a ler
Não fique nesta vidinha,
Assim você vai mal
Reservei-lhe uma vaguinha,
Na escola do MOBRAL.
 
Quando o tempo está bom
Lembro até de Cazuzinha
Procure afinar o tom
Com João de Caboquinha
Desta vez não pode não
Desse jeito eu fico frito
Arrume com o Manuel Violão
E vá consertar o seu litro
João de Gregório acertou,
Marciano foi o de gosto
Dunguinha foi quem pagou
Da sua carga, do seu imposto
Amigo, não seja assim
Não leve tudo na troça
Se quer feijão venha a mim
Que eu tenho, na minha roça.

Euclides da Lagoa
Que é um cabra farofeiro
Não vou te deixar à toa
Com a profissão de açogueiro
Venha agora comigo
Que o negócio é certeiro
Lá no inferno, meu amigo,
Você vai ser pistolleiro
Como herança fica contigo
O meu velho tabuleiro.

Zequinha, chofer da empresa,
Cabra sério de respeito,
Isso vem de natureza
De ser um homem perfeito
Venha aqui, perto de mim
Olhe bem, meu paletó
O talho de Selvino é assim
Só feito pra mim...
Você que gosta de rir
E até as calças sacode
Vou deixar para ti
Minha cabrita e um bode.

Josué, meu amigo
Daqui vou lhe dizer
O buraco que você abriu
Fica pra outro que morrer
Pois vou morrer queimado
O seu buraco eu não quero
Já recomendei a Quinha
O seu lugar no cemitério.

Dêda, meu filho caçula,
Até de mim você herda
Vou lhe deixar uma mula
Pra você sair do DERBA
Já dei aquilo que tinha
De dinheiro se foi tudo
O meu facão sem bainha
Dou a Antônio Cabeludo.

O meu genro Vavá Migi,
Você agora vai me dá
No meu cavalo eu corri
Para Dedé não pegar
Vou deixar para ti
Uma coisa que vai rimar
Uma garrafa de xixi
E uma balança pra roubar.
 
Esta vida é de matar
Neste mundo esquisito
Vou deixar o meu cumbar
Para o meu caçula Mosquito.

Ao meu amigo Zé Velho
Uma coisa vou te pedir
Fique em casa quietinho
Se não tu vais subir
Está velho e fraco
Já não pode ir ali
Se banana é pra macaco
Catuaba é para ti.

Desta vez eu vou embora
O meu adeus estou dando
Quem esqueci agora
Dê no pé e vá andando
Não tem outro jeito,
Não tem mais outra saída
Se Profírio tem despeito
Venha cá, pra despedida
Mais uma vez vou dar
O meu último adeus
A quem de mim lembrar.
 
 
 (MOTA, Atico Vilas-Boas da. Queimação de Judas)
Ilustração de Percy Lau.

Esta brincadeira, chamamos aqui de enforcamento ou queimação de judas. No Sábado de Aleluia, pela manhã, a cidade amanhece com os postes enfeitados com judas, em diversos pontos dos bairros, e no centro da cidade.

Os moradores tomam um paletó velho, uma camisa, calça, meias, sapatos, nas mãos colocam meias velhas, gravatas, e enchem o corpo com trapos, maravalha (raspas de madeira), panos velhos e jornais. Depois de feito o boneco, penduram no alto do poste e com uma tabuleta escrevem o nome dos judas. Eles escolhem sempre o nome de um morador da rua que goste de criar problemas, ou que se meta na vida dos vizinhos, ou que tenha uma vida um pouco fora dos moldes da sociedade, ou também escolhem o nome de alguma pessoa que tenha papel de novelas, como alguns este ano aparecerem com o nome de Xistos, da novela Pecado Capital.

À tardinha do Sábado, os meninos que fizeram o judas reúnem-se para o enforcamento e a queimação, antecedendo a leitura do famoso testamento, que causa muitos aborrecimentos quando fere qualquer um dos moradores da rua. Quando o testamento não é bem recebido, há brigas, e, por vezes, a polícia tem que ser chamada para evitar atritos maiores.

(Vanda Maria Santos Maia)

Veja também:

-
Domingo de palmas.

- Devocionário da paixão.

- Semana Santa de outrora.

- O tempo chegado.

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