| Máximo de Moura Santos Máximo de Moura Santos recebe-me em sua sala de chefe dos serviços de
Instituições Auxiliares da Escola, do Departamento de Educação de São Paulo. Olha-me
com aqueles olhos marotos, que vivem a sorrir de tudo e de todos, por trás dos óculos
enormes. Sorri... aquele sorriso eternamente irônico irônico até quando ele não
quer fazer ironia...
Oferece-me uma cadeira, encomenda ao contínuo umas xícaras de café. Digo-lhe que quero
o seu depoimento sobre Amadeu Amaral, de quem Máximo foi companheiro, na direção de um
ginásio. Tenho a impressão de que ele remexe os escaninhos de seu cérebro para apanhar
uma lembrança aqui, outra acolá...
Começa, agora, a falar:
- Em 1927 ou 1928, não me recordo muito ao certo, eu e o Sud Menucci organizamos o
Ginásio Moura Santos...
- Já sei, Máximo...
- Não pense que é cabotinismo, o prólogo, no caso, é indispensável. Pois, um dia, Sud
me chamou a parte e disse: "temos de arranjar uma cadeira para um grande amigo meu
que, no momento, esta precisando..." Não deixei que ele concluísse a frase, para
objetar-lhe: "Mas, Sud, você sabe que não há vagas e que há meia centena de
pedidos a atender..." "Eu sei, eu sei!...- redargiu Sud. Mas, trata-se de Amadeu
Amaral, e é preciso dar um jeito..." "Amadeu Amaral! Da Academia?! Mas, isso é
diferente e você devia ter dito logo!..." - aquiesci, num alvoroço. - E Amadeu
passou a fazer parte do corpo docente...
- Claríssimo! A perspectiva de ter um membro da Academia Brasileira de Letras como
professor do meu ginásio seduziu-me e falou à vaidade. Mas, não tardou, a consciência
veio segredarme que aquilo não estava direito. Fui, então procurar o Sud, para
dizer-lhe: "Não podemos ter aqui o Amadeu, como simples professor, embora isso lhe
convenha. Em todo caso..." meio desconcentrado, meio surpreso, meio agoniado, Sud
repetiu: "Em todo caso?..." Eu concluí o pensamento: "Se ele fizer parte
da direção, já não lhe ficaria mal reger uma cadeira e não nos deixará
constrangidos...
- Daí, então?
- Amadeu passou a ser o mais ilustre dos diretores de meu ginásio e a reger uma das
cadeiras de português.
Máximo enche, ele mesmo, as xícaras de café. Passa-me uma. E enquanto bebericamos uns
goles da rubiácea, pergunto-lhe:
- Amadeu, como professor?...
Ele atalha-me a frase, para dizer-me entre risonho e brincalhão:
- Foi um desastre...
-Um desastre?!
- Sim, um desastre completo. Sua conversa prendia a rapaziada e, de vez em quando, ele
dizia as verdades sobre as gramáticas e os gramáticos. Suas aulas eram, por isso mesmo,
as mais freqüentadas. Mas, a matéria prosaica de exames, a análise trivial, enfim, o
ramerrão dos programas nada!... e como exames, com as famigeradas bancas, esse
ramerrão é que decide, eu vivia preocupado e a resmungar ao Sud: "Você precisa
falar com Amadeu. A prosa dele segura a meninada; mas, no fim do ano, tudo vai levar ao
diabo... Você precisa conversar com ele, porque eu não me atrevo..."
- Mais uma xícara de café, pois que o contínuo da repartição que o Máximo chefia é
perito em fazer a infusão e o autor de O professor Policarpo continua:
- Conosco, Amadeu era o tipo de filósofo. Filósofo, no sentido mais alto da palavra.
Não o filósofo da esquina, a deitar sabedoria sã e malsã em cima do próximo. Não o
filósofo portador de um "canudo", no qual está escrito que o tipo de é
filósofo, porque assim resolveu a congregação de uma faculdade de autofilósofos.
Amadeu era filósofo, no que esse vocábulo significa de mais elevado e de mais sublime.
Profundamente, superior, calmo, sereno, tolerante, para com os outros, reunia, em si, a
mais completa e a mais bela organização moral que já conheci.
Faz uma pausa, e recorda:
- Sua conversação empolgava. Lembro-me de que, uma vez, três horas depois que terminava
um jantar que oferecemos a uns oficiais do Exército ainda estávamos todos á mesa
inteiramente presos á sua palavra!
Máximo oferece-me um cigarro. Uma névoa azulada está desenhando arabescos no ar.
- Eu e Sud prossegue ele quisemos certa ocasião, prestar uma homenagem ao
presidente Júlio Prestes, cuja candidatura à presidência da República tinha, em nós,
dois adeptos entusiastas. Mas, Amadeu era adversário adversário leal e elegante-
do candidato paulista... Como não desejássemos magoá-lo, fomos consultá-lo. E ele
propôs, imediatamente, a solução: Está bem. Vou passar uns dias em Santos. Vocês
fazem a festa. Eu não concordo e nem discordo. E não é por isso que as cotovias irão
deixar de cantar... Aliás, Júlio, no fundo, é bom homem...
Após a reticência, após outra baforada de cigarro, Máximo acrescenta:
- Amadeu era assim, homem de atitudes inesperadas, porque demasiadamente elegantes para a
época em que vivemos.
Uma pausa, e ele continua:
- Um dia, Amadeu foi convidado a assumir a chefia da redação do Diário da Noite,
daqui de São Paulo. Isso representava para ele, a solução do seu problema financeiro.
Ao contar-nos, a mim e ao Sud, que recebera esse convite, ajuntou, meio constrangido que
iria lutar com dificuldades, para dar as aulas... E concluiu, olhando-nos muito, com
aqueles seu olhos muito sereno: "Mas, vocês me prestaram um bom serviço e se
quiserem continuarei a dar aulas. Quanto ao meu nome, na direção, podem continuar a
usá-lo..."
- E então?
- Tivemos de dispensá-lo do sacrifício das aulas. Amadeu voltou para o jornalismo que
ele tanto e tanto dignificou. Nós em breve, tivemos dificuldades outras, que nos levaram
a fechar o ginásio.
- E com a voz emocionada, é comovidamente, que Máximo de Moura Santos evoca:
- Um dia que dia triste, aquele! fui ao enterro de Amadeu. Ao acompanhá-lo
ao cemitério, tinha a certeza de estar acompanhando o corpo de alguém que o destino fez
meu amigo, e que, no correr dos anos, terá seu nome cada vez mais lembrado, como um dos
vultos maiores da intelectualidade e nossa terra. Tinha certeza que acompanhava o corpo de
alguém que soube ser bom daquele homem que sempre fazia suas as palavras do
pensador, nunca esquecendo de repetir que "a vida é curta e não vale a pena ter
ódios".
Monteiro Lobato
Dou com Monteiro Lobato em seu escritório, a dois passos
do largo da Sé. Recebe-me com aquele sorriso muito seu um sorriso meio moleque, em
que o canto direito dos lábios fica um pouco mais repuxado para cima, do que o esquerdo.
- Você está querendo uma entrevista? Pergunta, quando lhe aperto a mão.
- Como você adivinhou?
- Pelo jeito... Você tem um jeito diferente, quando está querendo pescar uma
entrevista...
- É sobre Amadeu Amaral.
- Sobre o Amadeu...
Lobato faz um rodeio em suas recordações. Numa evocação, murmura, em palavras cheias
de saudades:
- Amadeu!... Conheci-o muito pouco, Peixoto. A primeira vez que vi o seu nome... Foi num
concurso de contos, aberto pela revista Arcádia Acadêmica e do qual era ele um
dos julgadores e o redator do laudo...
Prolonga um tanto a reticência. Depois, ajunta:
- Deram-me o primeiro prêmio, por uma coisa intitulada Gens ennuyeuses, mas com
essa ressalva: "apesar do título"... devo, pois, a Amadeu, a lição de que Gens
é a palavra masculina. Lembro-me de que, então, perguntei a Ricardo Gonçalves:
"Quem é este Amadeu?" E foi deste inesquecível companheiro que ouvi o primeiro
louvor a um homem que, além do talento literário, possuía uma coisa bem pouco vulgar:
absoluta inteireza de caráter.
- Depois disso?
- Muitos anos depois, vim a conhecê-lo, já redator de O Estado de São Paulo.
Com um pouco mais de intimidade, freqüentei-o, no Rio, quando, em conseqüência de seu
ingresso na Academia, para lá se mudou.
- Ele?
É com entusiasmo que Lobato responde:
- Era um tipo de exceção, que destoava, clamorosamente, no irreverentíssimo clã da
inteligência. Levava tudo a sério, nada dizia por amor, ao efeito momentâneo. Falar,
para Amadeu, era o meio de lealmente expôr o que ele pensava e sentia. Grave,
circunspecto, melancólico, resignado, e sempre com a vida aperreada... Porque "não
sabia subir"... Amadeu tinha repulsa orgânica pela prostituição do
"subir". Alma sensitiva demais!
Faz uma pausa. Marcando bem a sílabas, disse:
- Cérebro de "pensador poético". Seus versos perfeitos foram, sempre o
doloroso exutório de sua filosofia. Fisicamente belo mas sem dar impressão de que sabia
disso. Aqui em São Paulo, Amadeu marcou época. Fez-se um ponto de referência da
sociedade, um desses homens com que, em qualquer setor, a sociedade pode contar. Sua
austeridade sem exageros, orgânica, impunha-o. Os inimigos podiam negar-lhe tudo, menos a
mais nobre e perfeita verticalidade.
A voz de Lobato ganha uma tonalidade diferente, uma tonalidade que é toda emoção, para
falar-me:
- Sud Menucci escreveu: Santo Amadeu. E Amadeu era isso: um santo moderno! Quando olho
para o passado e relembro as figuras de meu caminho, Amadeu avulta, como um ser a parte,
que me bole na coroa do respeito venerativo. Os outros formam um grande grupo. Mas Amadeu
está de lado. Está só! E uma palavra arcaica, morta, extinta, ridícula, proscrita,
levanta-se da tumba do esquecimento, como um fantasma: VIRTUDE! |
Rubens do Amaral Rubens
do Amaral, esse meu querido mestre de jornalismo, primo de Amadeu Amaral, está em seu
gabinete de redator chefe das Folhas. A madeixa rebelde de cabelos já meio
grisalhos insiste em cair-lhe sobre a testa ampla e intelectual. Seus dedos estão
tamborilando o teclado da máquina de escrever...
Logo à minha entrada, Rubens interrompe o trabalho e volta-se pra mim.
- Você está querendo alguma coisa? Indaga.
- Espero...
As teclas continuam metralhando o papel e, em mais alguns minutos, o comentário está
pronto.
- Que é que você quer? Indaga Rubens, outra vez.
- Alguns dados para a entrevista...
- Uma entrevista?!
- Isso mesmo. É sobre o Amadeu...
- Ah, bem! Mas, que é que vou dizer?... Há tanta coisa!
- Alguns episódios da intimidade... Coisa que focalize bem alguns aspectos da
personalidade de Amadeu.
Medindo a sala com alguns passos, começa Rubens a narrar-me:
- Uma vez, Amadeu conseguiu reunir uns cobres. Surgiu, então, a idéia de adquirir uma
casa o que foi feito. Mas, o poeta preferiu residir em outra e alugar o que tinha
adquirido. Interveio, aí, o comerciante da família, Tiago Masagão, cunhado de Amadeu.
Obteve a necessária procuração, encontrou o desejado inquilino. Exigiu contrato, exigiu
fiador... Mas...
- Mas?...
- Os tempos passaram-se. A certa altura, o inquilino estava com três meses de atraso.
Tiago Masagão soube que o locatário iria conversar com Amadeu... Viu o perigo pela
frente. Se ele conseguisse falar com o poeta, iria tudo por água abaixo. E era preciso
tomar cautela, pois que o fiador era abonado... Os parentes entraram em confabulações.
Ficou acertado que se faria tudo, no sentido de impedir uma aproximação entre o
inquilino e o escritor. Organizou um verdadeiro cerco... o locatário, no entanto, era
desses homens que não conhecem obstáculos. Um dia, enfim, logrou falar com Amadeu.
- E aí?
- O homenzinho choramingou; descreveu, com tintas negras, a situação em que se
encontrava, disse que estava sem trabalho e que a família se achava quase passando
fome... Tanto falou, tanto chorou que acabou deixando Amadeu todo comovido.
- E o poeta?
- Com aquele jeitão que lhe era tão peculiar, virou-se para o inquilino, fitou-o muito e
não se conteve: "Olhe, quer saber de uma coisa? Traga-me as chaves e não se lembre
mais disso. Não precisar pagar o que me deve, não..."
Rubens faz uma pausa, tira o cigarro da carteira, diz que
eu só fumo "se me dão" porque lhe filo um outro, e passa a relatar-me o que
ele chama de "caso Collor".
- Uma vez, eram candidatos a uma vaga na Academia Brasileira de Letras, o senhor Lindolfo
Collor e... Não sei bem o nome do outro candidato. Sei que era um sacerdote. Pois bem, à
porta do Garnier, uma tarde, em meio à uma rodinha em que se falava de
eleição, Amadeu, que nenhuma solicitação havia recebido, negou ao sacerdote o direito
de entrar para o cenáculo e declarou que votaria o senhor Collor. Ao ter notícia de
sufrágio assim tão espontâneo, em pleito tão disputado, o senhor Lindolfo Collor,
cheio de contentamento, apressou-se em escrever a Amadeu uma carta amistosíssima de
agradecimentos. Nela, prometendo um obséquio em retribuição ao obséquio já recebido,
ofereceu-se o escritor gaúcho para obter para o amigo e votante um contrato de
colaboração em La Prensa, de Buenos Aires.
- O Resultado?... indago eu.
- Espere um pouco. Vamos por parte. Os tempos passaram-se. Amadeu votou no senhor Collor
que foi derrotado, o senhor Collor nunca mais falou na tal colaboração, coisa que Amadeu
jamais ousaria tocar.
- Depois?
- Abriu-se outra vaga na academia. O senhor Collor apresentou-se novamente, contra outro
candidato de cujo nome não me recordo muito bem. Tratou, logo, de escrever a Amadeu,
pedindo-lhe o voto... Acrescentou que o contrato de colaboração em La Prensa
não demoraria...
- E Amadeu?
- A situação, como se vê, era outra. O oferecimento, então, vinha antes do voto dado,
ao contrário do que acontecera de vez interior. Melindrado com isso, Amadeu não hesitou
e respondeu ao senhor Collor que nele votara contra um certo candidato; desta
vez, no entanto, votaria em prol do seu adversário. E acrescentou que, quanto à
prometida colaboração, não tinha desejo algum de escrever para um jornal de Buenos
Aires, recusando, assim, previamente, o convite a ser feito...
Rubens fica na reticência, limitando-se a sublinhá-la com um sorriso malicioso.
- A Academia Paulista de Letras diz Rubens era ainda nova, era ainda
criança, e Amadeu dela fazia parte. Uma noite, estávamos à mesa de café Amadeu,
eu e mais dois ou três amigos.
- Quem eram?
- Não me lembro, ao certo. Mas , estariam nesta lista: Simões Pinto, Adalgiso Pereira,
Francisco Escobar, Quinzinho Correia, Mariano de Oliveira. A dado momento, um deles exibiu
um periódico literário, em que não sei que sujeita atacava a Academia e, para comprovar
sua desvalia, citava Amadeu, perguntando, fulminantemente: "a que título figura o
senhor Amadeu Amaral entre os "quarenta" paulistas?"
- E o poeta?
- Leu o ataque franziu as sobrancelhas cerradas e os seus olhos azuis chisparam revoltos.
Ficamos todos constrangidos, em silêncio, ante a "gaffe" do amigo que trouxera
o jornalzinho. Quem quebrou o silêncio foi Amadeu, depois de percorrer a todos nós com
olhar agoniado e repassando de agonia a suas palavras: "Ora essa!" Passou-se um
minuto, todos quietos, sem dizer palavras. E da boca saiu-lhe, outra vez , o protesto:
"Ora essa!" Cada qual procurou encaminhar a conversa para outros assuntos. Mas,
quando a palestra já havia tomado outros rumos, ouvimos, pela terceira vez, ainda mais
fortes, as duas palavras: "Ora essa!!!"
Logo a seguir Rubens toma de novo a palavra:
- Depois de Urzes, Amadeu passou onze anos sem publicar outro volume. Mas, não
deixará de trabalhar. Tinha, acumulado, material para um novo livro. Tudo guardado, ou
disperso...
- Esse segundo livro?...
- Foi Simões Pinto quem o estimulou a publicá-lo. E não se limitou a isso, pois foi ele
também que animou Amadeu a selecionar, em toda a sua obra, porções mais ou menos
homogêneas, deixando de partes seus numerosos poemas, que haviam de sugerir, mais tarde,
em espumas. Não exagero dizendo que Simões Pinto foi quem teve o maior encargo, nesse
trabalho de classificação. Foi um livro dividido em sete partes, razão porque, de
início, lhe foi dado o título de Hepitacórdio. Foi ainda ele, amigo dedicado
de Amadeu, datilografou todas as poesias em laudas que, a seguir, encadernou e de que
desenhou a capa.
- O título Névoa?
- Só mais tarde foi que se assentou esse título. Tudo pronto, um dia desapareceu o
caderno, na redação do Comércio de São Paulo, que Amadeu dirigia e de que
éramos redator Simões Pinto e eu. Buscas, indagações tudo inútil.
Simões Pinto desesperava-se. Um dia, afinal...
- Encontrou seu caderno...
- Não, ainda. Um dia, Simões Pinto propôs a Amadeu refazerem os originais. "Sei
quase todas as poesias de cor disse ele. Você saberá as restantes. Em poucos dias
tudo estará reconstituído" mas o poeta não acedeu ao pedido. Amuado com a perda
dos originais, recusou-se a recompô-los. Se se perderam perdidos ficassem!... passados
alguns meses, ao se proceder a uma limpeza na secretaria de Amadeu, encontrou-se o
caderno, que havia caído atrás de uma gaveta e lá permanecera oculto. Foi assim que as
letras brasileiras deixaram de perder a Névoa que tanta gente prefere as
espumas.
Depois de atender a um telefonema, Rubens conta-me:
- Uma noite após o jantar, saía eu junto com o Amadeu, de sua residência, que era
então de uma casa da rua Antônia de Queiróz. Já à porta, ouvimos ruídos insólitos.
Lá dentro... era Amadeu Júnior, pequenote que fazia artes quaisquer bastante excessivas.
Amadeu voltou, segurou o filho pelo braço e deu-lhe uma palmada, uma palmadinha de nada.
Saímos. Ele, muito pálido, muito quieto... sentia a tortura íntima que o empolgava e
não quis pertubá-la.
- Tudo por causa de uma palmadinha à toa...
- É verdade. Percorremos a rua Antônia de Queiróz a passos vagarosos. E foi cá em
baixo, depois de transposta a rua Piauí, que Amadeu suspirou, desabafando: "Pois
é... essas crianças fazem das suas, obrigam a gente a essas violências... depois...
Depois, a gente que sofre. E sofre muito mais do que elas...!"
- Otacílio Gomes é autor de um livro de versos Os filhos da Candinha. Por isso,
dizem que ele é o "pai dos filhos da Candinha". Está à minha frente, junto à
mesa de um café.
- Dos traços fisionômicos de Amadeu Amaral diz ele o que mas me
impressionava era a doçura de seu olhos azuis. Vi-o poucas vezes. Mas, desde que o
conheci, em Santos, por ocasião de uma festa em sua homenagem, senti de mim para mim que
era pelo olhar que se manifestava, mais fortemente, a humanidade do artista. Se fosse
descrever-lhe a pessoa, não seria capaz de dizer, com acerto, senão que era alto e
suave. Nenhum pormenor conservei, na memória, de sua fisionomia. Fugiu-me completamente a
sua feição. Sempre que me lembro dele, entretanto, os dois pontos luminosos dos seus
olhos, anilados e serenos, se acendem para o milagre de sua presença, tal como o vi a
primeira vez: alto e suave.
Uma tonalidade de reminiscência na voz, Octácilo continua:
- Aprendi a amá-lo, mas com a discrição do seu temperamento: de longe, através de sua
obra, sem coragem para maiores expansões afetivas, nos poucos encontros ocasionais.
Amadeu havia de se surpreender, se percebesse, algum dia, a minha timidez, sem relação a
sua pessoa! Tanta bondade e tanta lhaneza não saberia admitir restrições que, aliás,
eram em mim apenas um defeito de formação. Foi, pois, sem sombra de mágoa, sem dar
maior importância ao caso, achando mesmo natural, que, certa vez, no Rio, notei a reserva
e a frieza com que ele respondeu aos cordialíssimos cumprimentos que lhe dirigi, um
encontro de rua. Conclui, logo, que não me reconhecera. Estava ele com Cornélio Pires.
Despedi-me, logo em seguida, não pensei mais no incidente. Acontecimento banal... Coisa
desculpável, num homem ilustre, cheio de amizades. Assim considerei o episódio.
- E Amadeu?
- Não pensou assim. No dia seguinte, fui instantemente procurado pelo Cornélio, que lhe
havia dito quem eu era. Encontrou-me. Disse logo, que vinha da parte do poeta de espumas,
que mandava apresentar-me desculpas, por não me haver reconhecido. Não se perdoava a
falta. Estava incomodadíssimo... E Cornélio acentuou que, na véspera, Amadeu jantara
mal e não conseguira dormir direito...
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