Uma nova definição parece abrir-se ao folclore com o Congresso Internacional de Buenos Aires, em dezembro.
Desde que o velho Thoms cunhou a palavra, há 114 anos, o mundo científico se acostumou a encarar o folclore como um conhecimento que não chegava a ultrapassar a fronteira das humanidades – e, portanto, ficava fora das preocupações da ciência. Relendo a famosa carta ao Atheneum, ver-se-á que o signatário tinha em mente “quanto existe de curioso e interessante em costumes, cerimônias, romances, crenças e superstições dos tempos antigos, agora inteiramente perdidos”, e “quanto se poderia ainda salvar” – “algumas recordações dos tempos antigos, uma lembrança de qualquer uso atualmente esquecido, de alguma lenda em desaparecimento, de alguma tradição regional, de algum fragmento de balada...” As ciências do homem estavam, então, dominadas pela história. Thoms, no limiar de um mundo desconhecido, não foi capaz de divisar todo o panorama que descortinava. Mas, após a publicação da Antropologia de Tylor (1871), como explicar que Heggerty-Krappe, na Inglaterra, e Herskovits, nos Estados Unidos, por exemplo, se tenham contentado com a repetição do “cuco cerejeira”?
Os folcloristas brasileiros tentaram passar, adiante e, precedido pela grande insinuação de Ruth Benedict, que via no folclore um “fenômeno social”, individualizado no processo da sua incorporação à cultura local, reconheceram, na Carta do Folclore Brasileiro (1951) o estudo do folclore como integrante das ciências antropológicas e culturais. Mas, em 1954, com o Congresso Internacional de São Paulo, a aceitação geral do ponto-de-vista brasileiro foi torpedeado, à última hora, com o adiamento da discussão para ocasião “oportuna”. A despeito desse revés, ampliamos, em mesa-redonda realizada na Bahia (1937), a formulação anterior, dando a moldura sócio-cultural ao folclore.
Mais uma vez, poderemos levar a um congresso internacional, a concepção do folclore como fenômeno cultural. Que significa esta nova posição? Não, certamente, que o folclorista precise tornar-se sociólogo ou antropólogo para que as suas investigações satisfaçam os requisitos da ciência. Na perspectiva sócio-cultural, os fenômenos folclóricos serão estudados como fatos atuais, pois sem atualidades o fenômeno será histórico e não folclórico, – no ambiente físico e cultural próprio, nos estímulos que recebem e que transmitem, nas suas constantes comunicações com os demais fenômenos sociais e culturais que lhes dão, em definitivo, a fisionomia que os singulariza, a despeito de semelhanças formais no tempo e no espaço. Ou seja, na sua dinâmica e na sua viência.
Thoms, antiquário, associou o folclore às antigüidades populares. Esta associação permanece, sob muitas formas, em diversas concepções do folclore. Precisamos romper com a literatura, com a história, em alguns casos com a arqueologia, e encarar o folclore como expressão de um comportamento cultural a que, dada a sua especificidade, somente a ciência do folclore pode dar o tratamento adequado.
Chegou a hora de reconhecer a maioridade do folclore.
Jangada Brasil © 1998-2007 | Termos e condições de uso