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Tema do Mês

Setembro 2007 - Ano X - nº 104

Sumário

Reflexões sobre o folclore

A ciência do povo

Uma palavra e uma ciência

Escolas de folclore

A propósito de fato folclórico

Maioridade do folclore

 

Apoio Cultural
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História do folclore

A propósito de fato folclórico

Domingos Vieira Filho

Pela definição mesma de folclore, observa-se que fato folclórico é a resultante do “pensamento e da ação do povo”, isto é, da atuação do povo no seu meio físico, no habitat a que foi relegado por condições de inferioridade de status econômico e social. Assim, se uma comunidade de lavradores, na zona rural portanto, incorpora ao seu complexo de cultura um conto ou grupo de superstições agrárias ou mágico-religiosas, lenda, conto e superstições são fatos folclóricos, fatos da sua vida espiritual. A maneira especial, típica do camponês construir e colmar suas habitações, de preparar seus alimentos, ou de utilizar implementos agrícolas considera-se igualmente como traços folclóricos referentes à sua vida material.

Agora, convém fixar que o fato folclórico tradicional pode apresentar-se sob vários aspectos. Há o fato tradicional, que é o que vive a vida secular, passa de geração para geração perpetuado pela tradição oral, isto é, de boca em boca, guardado carinhosamente num canto da memória comum, um pouco deformado ou um pouco acrescido, mas persistente e intacto em sua significação inicial, na idéia primeira como queria Adolph Bastian.

Um conto popular, um romance, uma cantiga de roda, uma adivinha ou um prolóquio são fatos folclóricos tradicionais. Perderam a autoria conhecida, a individuação, coletivizaram-se, passaram a correr mundo, enriquecidos de novos elementos, ao sabor da imaginação mais viva e mais ardente deste ou daquele povo receptador. Os contos populares, folk-tales, cuentos, contes, são exemplos marcantes de fato folclórico tradicional. Ninguém pode dizer com segurança se o conto do jabuti e da onça, tão comum no folclore de nossos índios, é criação do silvícola americano. Há, no folclore universal, diversas convergências e variações desse motivo, desse tema inicial. Hell Chatelain e o nosso Nina Rodrigues surpreenderam variantes entre negros de Angola e da Bahia, respectivamente.

O que caracteriza o fato folclórico é principalmente a sua qualidade de anônimo. Muita gente imagina que o poeta Catulo Cearense foi um folclorista, equívoco que já havia ocorrido em relação a Juvenal Galeno. Engano manifesto. Catulo quando muito foi um poeta sofrível, que deformou, em clichês falsos, o saboroso e espontâneo falar sertanejo. O folclorista não é um criador de folclore, não faz o fato folclórico, porque só é folclórico o que, pela aceitação coletiva, se torna anônimo, propriedade comum, propriedade comum, de todos, conservado e transmitido pela herança social. Isso, entretanto, não significa que os fatos folclóricos não tiveram um criador, um autor. Mas, pelo constante viajar, nesse contínuo vai e vem através de latitudes e de povos diferentes, a sua autoria obliterou-se, tornou-se imemorial.

Pergunta-se agora: o fato atual, moderno, de nossos dias, pode ser folclórico? Perfeitamente, desde que nascido no seio do povo para expressar sentimentos, idéias e atitudes populares.

Um fato de elaboração erudita, oficial, letrada, pode igualmente tornar-se folclórico, descer ao povo e incorporar-se definitivamente ao seu mundo cultural. Não se trata, como pode parecer à primeira vista, de uma degradação do fato erudito. Exemplifiquemos: nos tempos imperiais, cantou-se no Maranhão muitas modinhas e chulas cujas letras eram poesias de Castro Alves, Gonçalves Dias, Casimiro e outros poetas. De mistura com o Se eu morresse amanhã, de Álvares de Azevedo, as donzelas de então cantarolavam ao piano chulas, como Mariquinhas das Pedreiras e Seu Rafael, de nítida proveniência popular. Deu-se aí a folclorização de poesias de poetas letrados que eram cantadas ingenuamente, esquecida a sua autoria ilustre. Hoje, desfolclorizaram-se, continuam poesias cultas, uma vez que a modinha e a chula cederam o lugar ao samba informe, estridente e inexpressivo, quer como melodia quer como letra.

O povo aceitou o fato erudito – no caso as poesias letradas – adaptou-o ao seu meio, tornou-se coisa sua, ao ponto de esquecer por completo que quando suspirava ao violão ou ao piano a Zulmira, estava recitando uma famosa poesia de um poeta da classe culta.

Assim, recapitulando, o fato folclórico pode ser tradicional, traço que lhe é mais constante, e vivo, atual, moderno, desde que traduza sentimentos e idéias dos grupos que formam o meio popular.

(Vieira Filho, Domingos. “A propósito de fato folclórico”. Diário da Bahia. Salvador, 03 de maio de 1953)

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