Com a recente publicação do Superstições e costumes (Rio de Janeiro, Antunes, 1958), divulguei algumas pesquisas sobre crendices. O velho sonho de fazer um dicionário de superstições não foi abandonado, mas as possibilidades vão abandonando a teimosa esperança. A publicação do volume provocou, entre outras amabilidades, o interesse em saber-se a que escola pertenço em matéria de folclore.
Respondo, lealmente, não pertencer a nem uma escola e menos pretender matrícula nas porventura existentes. Creio que as escolas folclóricas foram desaparecendo, uma a uma, substituídas pelo encanto da pesquisa e pelas alegrias da identificação temática. Já há quase um século, Felix Liebrecht perguntava da necessidade real de alguém alistar-se numa técnica de antemão sabida incompleta para os mistérios alucinantes da interpretação racional. Uma escola, nesta acepção, é apenas bandeira que se esfarrapará na primeira refrega.
Um dos generais mais derrotados por Napoleão defendia-se, acusando o vencedor feliz de “não respeitar as regras da guerra”. Napoleão vencia mas vencia contra todas as doutrinas clássicas da ciência bélica. Era muito melhor perder e continuar fiel aos dogmas de outrora.
A confusão entre folclore e etnografia não deve prejudicar pesquisas e menos ainda merecer demora nas explicações ainda dispensáveis. Não há o menor interesse em conhecer-se, nitidamente, fronteiras para o esforço humano da pesquisa em busca da compreensão. E menos ainda rótulos e dísticos especificadores e delimitadores dos campos de ação. O indispensável é o trabalho, ação, exame, dedução, divulgamento. Depois discutir-se-á, com longa bibliografia, as classificações. Nenhum animal deixa de viver e multiplicar-se porque não foi binominalmente batizado.
Americanos do norte nos cursos universitários e europeus divergem inteiramente da concepção brasileira do folclore e nem por isso o folclore deixa de ampliar-se, interessando cada vez mais.
A interpretação variará de horizonte a horizonte e para termos idéia da marcha que nos distancia dos primeiros anos, basta reler os folhetos e conferências estrangeiras em matéria de interpretação e escola de Escolas, com as exigências tradutoras de elementos materiais e espirituais, com o ajustamento numa escala de valores convencionais. Nos contos populares as Escolas, nos finais do século XIX e primeiros anos do século XX, serviram unicamente de retardadores funcionais. Quanto tempo se perdeu em vez da colheita e quanto material desapareceu enquanto discutiam se a raposa era a lua ou o sol, o amor ou o ódio.
Não ponho a classificação interpretativa como elemento inútil ou dispensável mas unicamente a desejo ver estudada por uma minoria realmente enamorada dos encantos minuciosos da erudição embriagadora.
A Sociedade Brasileira de Folclore (1941) aprovou o esquema da utilização demopsicológica em três aspectos:
a) Colheita
b) Confronto
c) Pesquisa de origem
Podem atuar conjuntos ou separadamente. Todos são indispensáveis e a condição verdadeiramente basilar é a honestidade da fixação, a perfeita ausência da colaboração enfeitadora, da inclusão clandestina do “acabamento” no plano pessoal da predileção, a renúncia do gosto, da estética, do sentimento individual selecionador ante o real-imediato, o material que deve ser recolhido na sua legitimidade.
Nunca pensar que o informador “está enganado”, fazendo ironia ou mentindo. Pode ser que sim e pode ser que aquilo represente forma rara, mas autêntica de um modismo ou sobrevivência. Um devoto, fiel à “sua” escola, deforma inconscientemente, ajustando o que ouve ao que pensa. Sem querer substitui o povo, “ajudando” o informante, “completando” seu depoimento, “esclarecendo” a definição entendida. Almeida Garrett e José de Alencar fizeram assim no registro de romances tradicionais. “Construíram” obra popular com elementos populares. O material empregado não salvou o “plano” de sua ilegitimidade notória.
D. Ramón Menéndez Pidal acusa o imenso Mommsea “por no pensar en la vitalidad oral de la tradición”. Esta “contemporaneidade no milênio” é muito mais impressionante na arqueologia, na antropologia cultural, na etnografia, do que no próprio folclore. Mommsen não podia compreendê-la como o claro, ágil e vivo Menéndez Pidal (D. Ramón).
Justamente uma escola limita a observação porque a submete às formas invariáveis da convenção, convenção proclamada pelo Congresso dos Pares e aclamação dos adeptos.
Fabre afirmava:
“Em bien dês cas, Il est excelent d’ignorer; l’espirit garde as liberte d’investigation et ne s’egare pás em dês voires sans issue, suggerées par la lecture”. Não até a ignorância, mas certo é prender-se a uma conclusão anterior, mesmo de mestre ou simpaticamente individual.
No Canto de muro (Ed. José Olímpio) meses e meses observei, em plena liberdade, um inseto, um aracnídeo, uma ave, vendo um comportamento diverso do que lera em gente eminente e acima de qualquer suspeição inventiva. E os meus bichos estavam, repito, em liberdade absoluta e não restrita de um herbarium. Esta “liberdade” tão alucinadamente requerida para a conduta humana no plano social deve existir no terreno da investigação sociológica ou etnográfica. Reunir e comparar e jamais levar para a pesquisa uma tabela de avaliadora de atitude, uma balança para o peso de reações e as cores de antemão escolhidas para as convenções “em campo”. Ter o conhecimento fiel e a coragem da indicação autenticadora.
Dois episódios são para mim inesquecíveis. Um em Portugal, 1946, filmando-se danças tradicionais no Minho. Ia registrar-se a chula. Bailarinos prontos, aparelhos, povo, técnicos. Iniciando-se o movimentadíssimo bailado masculino, o musicista Armando Leça pula para frente, braços abertos, protestando, protestando. Não era aquilo a chula. Explicou, teimou, impassível. Veio a concordância, o adiamento e a chula, a real, foi filmada.
Em dezembro de 1928, Mário de Andrade foi meu hóspede em Natal. Fomos ver um boi calemba no Alecrim. Havia, como interlúdio, um rojão famoso (hoje desaparecido para mim) três pontos. Os violeiros começaram. Do lado de fora, do “sereno”, uma voz protestou, perdida na assistência. Era um negro, descalço, rasgado, soberbo, erguendo a mão como um tribuno do povo, na força da convicção. Veio, bateu o compasso com os pés imensos e sujos. Os violeiros concordaram, submissos. E o três pontos, legítimo, sacudiu sua melodia breve e linda.
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