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História do folclore

Uma palavra e uma ciência

Téo Brandão

Comemora-se hoje o dia do aparecimento da palavra folklore proposta pelo etnólogo inglês William John Thoms, em carta endereçada ao The Atheneum, de Londres, para designar aquilo que então, na Inglaterra era chamado de “antigüidades populares” ou “literatura popular”.

E hoje, quando um vigoroso movimento de caráter para-oficial, centralizado no Rio de Janeiro na Comissão Nacional de Folclore, do Instituto de Educação, Ciência e Cultura (órgão brasileiro da Unesco) e irradiado por todos os estados do Brasil com as suas subcomissões estaduais, se desenvolve – pesquisando, coordenando, divulgando, registrando e debatendo todos os aspectos do saber, da literatura, das artes, dos usos e costumes populares; – nada mais oportuno que assinalar as vicissitudes e abastardamentos por que tem passado a célebre palavra e com ela a ciência que batizou.

A ciência, esta tem sido das mais encaiporadas com seu nome e das mais encrencadas nos seus objetivos. Nome, teve e tem até demais. Mas é que, ou se perdeu para outras ciências que se formaram depois, ou foi seu destino ver aquele que mais “pegou” constantemente abastardado, mal compreendido e pior empregado.

Como grande número de ciências individualizadas ou batizadas modernamente, aquilo que constitui o seu estudo, já aqui e ali apontava em poetas, historiadores e pensadores antigos. Homero na Odisséia, Heródoto em sua História, Pausânias na Descrição da Grécia, Plutarco nas Questões romanas e mais modernamente Rabelais em Gargantua fizeram folclore, assim como Mr Jordan fazia prosa, sem os saber.

Esboçada sua atividade com os Contes de la mère Oye, de Perrault, mas só propriamente iniciada com as Lendas domésticas e infantis, dos irmãos Grimm e com as Cartas sobre os contos de fadas de Walkeaner, começaram a aparecer os nomes de batismo para os novos estudos.

Campe, em 1807, adota a palavra “etnografia” como sinônimo de “descrição dos povos”, mas esta palavra, conquanto ainda hoje usada em alguns países como Portugal com a mesma significação de folclore, foi depois deturpada por Wiseman para “classificar as raças pelo estudo das línguas” ou, nos tempos atuais, para significar “a descrição da cultura material dos povos”. Em 1839, surge o vocábulo etnologia para exprimir, entre outras coisas, “o estudo das tradições históricas”. Mas, já em 1848, o termo é utilizado para o estudo dos diversos caracteres que servem para distinguir as raças humanas.

É, então, que em 22 de agosto de 1846, Thoms, sob o pseudônimo de Ambrose Merlon, publica em The Atheneum sua célebre carta em que apresenta o vocábulo anglo-saxônico folklore, para substituir o que na Inglaterra se denominava Popular Antiquities. Adotado nas ilhas britânicas, não logrou contudo, de imediato, a sua aceitação atual. Por muito tempo, em diversos países, denominações várias foram propostas e ainda hoje são usadas como sinônimos ou substitutos para folclore. Na França, foi Traditions populaires ou Traditionalisme; na Itália, Tradizzone popolari; na Espanha, Saber popular; em Portugal, Tradicionalismo popular; na Alemanha, Volkekunde, Volkslehre etc.; afora uma multidão de nomes eruditos: antropopsicologia, demótica, etnografia tradicional, demosofia, antropologia étnica, demologia etc. Como se vê, nomes não faltam à ciência que Thoms, há cem anos, batizou como folclore e que há perto de quarenta anos vem cada vez mais sendo empregada da preferência a qualquer palavra.

Não obstante, embora de emprego hoje quase universal, não tem bem marcada e compreendida a extensão de seus domínios e, de outra parte, tem ela sofrido em certos meios leigos uma trágica deturpação.

Quando foi criada a palavra folclore, o seu sentido era bastante restrito e dizia respeito somente aos costumes, à literatura e usos populares. Posteriormente, os estudiosos estenderam as suas vistas para além destas fronteiras, segundo suas orientações individuais.

Os franceses, mantendo seus primitivos pontos de vista a respeito do folclore como ciência das tradições populares, isto é, da tradição oral e de massas populares, estenderam a sua curiosidade a tudo que corresponde no povo à sua vida material e social, a todas atividades utilitárias ou estéticas, a todos os conhecimentos ou artes populares. Definindo-o como ciência da cultura tradicional manifestam-se os franceses aí, como em tantos outros casos, completamente opostos ao pensamento germânico da Escola de Colônia em que o folclore abrange tão somente o estudo da cultura intelectual das camadas populares, embora estenda o domínio desse estudo não só às camadas populares vivendo a forma civilizada, mas igualmente a todos os povos primitivos – ou selvagens. Etc.

Conciliando os dois pontos de vista, Joaquim Ribeiro parece-nos ter encontrado a verdadeira solução de vez que, de um lado não era lógico separar em duas disciplinas o estudo das culturas material e espiritual e, de outro, não se podia separar a tradição oral dos povos primitivos da mesma tradição entre as camadas populares dos povos civilizados. Reunindo-se assim o conceito das duas escolas, o âmbito do folclore atinge uma enorme área e um campo vastíssimo – tudo aquilo que não é aprendido na escola ou pela palavra escrita, tudo o que é perpetuado somente pela palavra e pelo exemplo.

Se assim, no terreno científico, parece fixada sua significação e seu campo de estudo, o mesmo não acontece nos meios leigos.

É com certa razão que Artur Ramos afirma que, do mesmo modo que acontece à palavra psicanálise, ou aos vocábulos antropologia, psicologia experimental etc., “folclore é uma expressão mais ou menos desmoralizada entre nós”. Compositor popular é “folclorista”, estrela radiofônica é “distinta intérprete de nosso folclore”. E não é só isso. “Inventa-se” folclore. Faz-se música, dança, poesia que é batizada por seus autores de folclórica e que nada tem com a tradição e a usança populares. E nem se diga que são apenas motivos “inspirados” no folclore. Longe dos folcloristas defender o folclore à sua aplicação às artes e às letras. Muito ao contrário. A cada passo estamos a combater pelo seu aproveitamento sincero, honesto, fundamentado com base na pesquisa, própria ou alheia, e outra é o abastardamento, a contrafação. A “invenção” de um dialeto, de um vocabulário, de uma música ou de uma dança, de uma literatura ou de uma poesia que não existem senão na cachola de indivíduos que nunca deixaram o asfalto do Rio de Janeiro, ou os paralelepípedos das capitais e que os apresentam como “populares”, “regionais” ou “típicos”, só pode ser engolida como pilhéria de fita americana.

Demais, como afirma mestre Artur Ramos, “Folclore é disciplina científica. Nada tem que ver com essas contrafações ou com deformações criadoras”. Ninguém contesta que a música de Villa-Lobos seja genial, que certas composições de Hekel Tavares (excetuados os cocos que são legítimos) sejam bonitas, que as canções de Dorival Caymmi sejam encantadoras e ele possa ser considerado a justo título como o nosso “clássico popularesco”, ou que os versos de Eurípedes Formiga ou de José da Luz, passados para o português correto, sejam belos e apreciáveis.

Mas nada disso é folclore. E, a se continuar considerando tais produções como folclóricas, mais vale que, apesar de completar hoje precisamente 100 anos, se mude para outra a denominação que William Thoms apresentou para a ciência das Tradições Populares.

 

(Brandão, Téo. “Uma palavra e uma ciência”. Gazeta de Notícias. Maceió, 22 de agosto de 1948)

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