O livro de João Ribeiro — O folclore — editado por Jacinto José Ribeiro, em 1918, ainda é o que de melhor possuímos como estudo da literatura popular. O velho mestre condensou em poucas páginas tudo que é possível saber sobre o que é, em verdade, o folclore, suas origens, sua significação. Foi William John Thoms, há mais de cem anos, em uma revista de Londres — Atheneum — quem propôs a expressão que julgou mais apropriada ao estudo das lendas, tradições e da literatura popular desde então a palavra se espalhou pelo mundo e se integrou no vocabulário universal. E João Ribeiro acentua: "Muito antes de achada a denominação comum, já era o folclore uma ciência histórica, com seus métodos próprios de pesquisa, dados de confronto, paralelismo e de resultados comparativos, colhidos na tradição de todos os países. E é justamente a colheita através de um estudo consciencioso de dados que possibilitam tais confrontos esse paralelismo existente, esse confronto das noções superadas, criações do povo com as cogitações do presente, que determinam, hoje, a classificação do folclore entre uma das disciplinas básicas para o conhecimento dos povos. É ainda o velho mestre quem nos ensina: A ciência" o enciclopedismo grosseiro e rústico; a poesia estilizou os versos populares; a medicina originou-se da magia e das superstições; a astronomia da astrologia. Em resumo, o progresso do espírito precisou e quantificou as noções ingênuas do povo. Esta afirmativa encerra um princípio folclórico indubitável. E aqueles que negam, julgando a questão uma infantilidade, são os que conhecem o assunto superficialmente, não se dando ao trabalho de reduzi-lo às suas condições verdadeiras para dele extrair o seu verdadeiro conceito. Indivíduos inflexíveis nos seus julgamentos, fulminam com a sua sabedoria livresca as criações ingênuas do povo, no pressuposto errôneo de que a ingenuidade nada pode criar.
“Comer raspa da panela queimada ou carne pegada no fundo de tacho gruda as secundinas ou opalacentas”.
E, generalizando, acham alguns letrados que em tais cérebros não podem florescer idéias que, mais tarde, transfiguradas, se erijam num acontecimento artístico literário ou científico.
Aliás, o hábito de negar o incompreensível é uma afetação da nossa burrice. Acredita-se na Bahia que, quando alguém é enterrado, devem se lhe retirar da mão o crucifixo e o rosário, senão, cessam as chuvas. No tempo das chuvas, faleceu na cidade de Ibitiara o octogenário Joviniano Ferreira de Oliveira. Chovia tanto que parecia que o céu estava derretendo. Mas, na confusão do momento, enterraram seu Joviniano com a cruz e o rosário nas mãos. Com a última pá de terra na sepultura, as chuvas pararam. Em derredor, por todas as vizinhanças chovia torrencialmente. Só em Ibitiara não chovia. Desenterraram o defunto e quando lhe tiraram das mãos o rosário e o crucifixo, a localidade foi abalada por violento aguaceiro, que durou por muitos dias.
− E agora José?
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