História do folclore
Reflexões sobre o folclore
A palavra “folclore” apareceu pela primeira vez em 1846, em
uma carta assinada por Amoroso Morton – pseudônimo do arqueólogo Williams
Thomas, no Atheneum – propondo-se substituir a expressão um tanto
imprópria de “antigüidades populares” (Popular Antiquities – título de
um livro de Brandt).
A ciência do povo
E João Ribeiro acentua: "Muito
antes de achada a denominação comum, já era o folclore uma ciência histórica,
com seus métodos próprios de pesquisa, dados de confronto, paralelismo e de
resultados comparativos, colhidos na tradição de todos os países.
Uma palavra e uma ciência
A ciência, esta tem sido das mais encaiporadas com seu nome
e das mais encrencadas nos seus objetivos. Nome, teve e tem até demais. Mas é
que, ou se perdeu para outras ciências que se formaram depois, ou foi seu
destino ver aquele que mais “pegou” constantemente abastardado, mal
compreendido e pior empregado.
Escolas de folclore
Com a recente publicação do Superstições e costumes
(Rio de Janeiro, Antunes, 1958), divulguei algumas pesquisas sobre crendices. O
velho sonho de fazer um dicionário de superstições não foi abandonado, mas as
possibilidades vão abandonando a teimosa esperança. A publicação do volume
provocou, entre outras amabilidades, o interesse em saber-se a que escola
pertenço em matéria de folclore.
A propósito de fato folclórico
Pela definição mesma de folclore, observa-se que fato
folclórico é a resultante do “pensamento e da ação do povo”, isto é, da atuação
do povo no seu meio físico, no habitat a que foi relegado por condições de
inferioridade de status econômico e social. Assim, se uma comunidade de
lavradores, na zona rural portanto, incorpora ao seu complexo de cultura um
conto ou grupo de superstições agrárias ou mágico-religiosas, lenda, conto e
superstições são fatos folclóricos, fatos da sua vida espiritual. A maneira especial,
típica do camponês construir e colmar suas habitações, de preparar seus
alimentos, ou de utilizar implementos agrícolas considera-se igualmente como
traços folclóricos referentes à sua vida material.
Maioridade do folclore
Desde que o velho Thoms cunhou a
palavra, há 114 anos, o mundo científico se acostumou a encarar o folclore como
um conhecimento que não chegava a ultrapassar a fronteira das humanidades – e,
portanto, ficava fora das preocupações da ciência. Relendo a famosa carta ao Atheneum,
ver-se-á que o signatário tinha em mente “quanto existe de curioso e
interessante em costumes, cerimônias, romances, crenças e superstições dos
tempos antigos, agora inteiramente perdidos”, e “quanto se poderia ainda salvar”
– “algumas recordações dos tempos antigos, uma lembrança de qualquer uso
atualmente esquecido, de alguma lenda em desaparecimento, de alguma tradição
regional, de algum fragmento de balada...” As ciências do homem estavam, então,
dominadas pela história. Thoms, no limiar de um mundo desconhecido, não foi
capaz de divisar todo o panorama que descortinava. Mas, após a publicação da Antropologia
de Tylor (1871), como explicar que Heggerty-Krappe, na Inglaterra, e
Herskovits, nos Estados Unidos, por exemplo, se tenham contentado com a
repetição do “cuco cerejeira”?