Muitas anedotas há que se recontam como novas e sempre aparentam frescor de novidade.
O folclorista, que rebusca as fontes, verifica não raro que são antigas e às vezes antiqüíssimas como as fábulas de Esopo, ou as histórias indianas.
Outro aspecto que inculca antigüidade é encontrarmos sob trajes diferentes, em literaturas e terras distantes, as mesmas idéias e formas de expressão que só se poderiam generalizar por migração lenta de um povo a outro.
Parece-me ser este o caso de uma rima infantil que, conjeturo, não será desconhecida dos leitores.
A rima pertence ao gênero livre, como se diz agora. Não fui nunca um vicioso, e pois confesso sem hipocrisia que a ouvi muitas vezes, nos tempos da meninice:
Um velho mais uma velha
Foram lavar-se na bica;
A velha deu um escorrego (...)
Não é a idéia obscena a que predomina nestes versos para a curiosidade infantil, mas a idéia cômica da queda de ambos. Esta idéia primária aparece em várias rimas infantis de diferentes povos, sem o condimento de outra crueza maior que a do tombo, que faz sempre rir às crianças.
Tal é a história de Jack and Gill, que anda entre os Nursery rhymes mais populares do povo inglês:
Jack and Gill
Went up the hill
Jo fetch a pail of water;
Jack fell down
And brok his crown,
And Gill came tumbling ofter.[1]
Também conservo a lembrança de uma quadrinha popular, que a julgar pela personagem histórica a que alude, não pode ser antiga.
É a seguinte:
Garibaldi foi à missa
Num cavalo rebolão;
O cavalo deu de popa,
Garibaldi foi ao chão.
Ora, essa cantiga parece que foi introduzida pelos italianozitos que ganhavam dinheiro nas feiras, cantando saudades de além-mar. Eram talvez de Sabóia, porque da Sabóia são os versos populares que se me afiguram a fonte desta cantiga:
Djallave a la messa
Su un asne à r'culons
(...)
Dje le tié a cropenclon.[2]
A transcrição fonética desses versos é muito defeituosa. Mas bem se percebe que é o mesmo:
(Garibaldi) foi à missa
Num cavalo rebolão.
É provável que em São Paulo corram já muitas histórias, facécias e rimas de origem italiana. É cedo talvez para as estudar com inteiro fruto, mas quem quer que as pesquisasse teria mérito de haver cedido a futuros investigadores.
*
Em convizinho dialeto encontramos a variante dos versos que se dizem por matraca às crianças que têm o nome de João:
João galalão
Perna de grilo,
Orelha de cão.
Segundo a versão de Bonneville:
Jan patagan
La cane a la man,
Lou pia d'coté
La miarve au nez.[3]
Familiares a todos os meninos de escola são os versos a propósito da primeira soletração:
B-A – bá,
chega pra cá;
B-E – bé,
Põe-te em pé;
B-I – bi,
Passa pra qui;
B-O – bó
Dá cá o cipó;
B-U – bu,
Para teu...
Em quase todas as versões estrangeiras que conheço trata-se de castigo às crianças, imposto naturalmente por desídia no estudo do abecê.
Eis uma de várias apontadas por E. Rolland, nas Rimes et jeux de l’enfance (p.326-327):
B-A – bá,
Mou père me bat;
B-I – bi,
A coup de béquilles;
B-O – bó,
A coup de sabots;
B-U – bu,
I n’me battra plus. (Var. do Lorient)
O inumerável das produções da imaginação não passa afinal da meia dúzia de idéias fundamentais, que chegam para alimentar e entreter a fantasia dos povos.
*
O nosso folclorista, Lindolfo Gomes, a propósito das réplicas populares, colheu alguns espécimes curiosos e correntes nas terras de Minas Gerais. Damos o interessante excerto de sua lavra:
“Já o inolvidável filólogo J. Moreira, tão conhecedor da linguagem do povo, publicou um rápido estudo a respeito das réplicas populares.
O ilustre lingüista encarou o assunto tão somente debaixo do ponto de vista filológico.
Diz ele que a prática da réplica, que corresponde mais ou menos aos apartes dos oradores, é seguida na conversação e que a linguagem popular tem até certas fórmulas, por assim dizer estratificadas, a que recorre em determinados casos. E apresenta alguns exemplos:
Quando alguém no decurso da conversa emprega a palavra então, que às vezes pronuncia antão, o seu interlocutor, por zombaria, interromperá com estas palavras: “Antão era pastor e guardava gado.”[4]
Se vai dizendo: “eu pensava que...”, responder-se-á: “a pensar morreu um burro, com albarda e tudo”.[5]
Tendo um dos interlocutores proferido a expressão “pode ser que...”, o outro replicará: “pau de cera é uma vela”.[6]
Ao empregar-se a palavra nada, ouvir-se-á como resposta: “quem bem nada não se afoga”.[7]
Conclui por dizer que os fatos mencionados têm ainda, sob outro ponto de vista, importância filológica, correspondendo a falsa analogia glotológica, conquanto seja esta nos fatos referidos, representando um processo de associação de idéias, mais ou menos consciente e propositada.
E é por isso mesmo que o estudo dessa matéria bem se encarta no campo das lucubrações folclóricas e serve ainda de demonstrar a importância destas lucubrações debaixo do aspecto filológico.
Através dessas réplicas teremos de admirar a espontaneidade das criações populares, as comparações analógicas do espírito do povo, os equívocos e trocados e as suas tendências e veia humorísticas visando a confusão ou o ridículo do interlocutor.
Com a réplica Antão vemos a crítica atirada ao que pronunciou mal a palavra então.
Com a palavra pensar faz-se um trocadilho, tendo em vista que pensar pode significar cogitar, meditar, ter idéia, etc., como também, conforme o caso, tratar de animais, de crianças, de feridas (observação que J. Moreira não registrou).
Na réplica “pau de cera é uma vela” surpreende-se o intuito da comparação analógica da figura da vela de cera com o pau (de cera).
Com a palavra nada aparece na resposta outro trocadilho, com uma intenção visivelmente humorística.
O capítulo das réplicas pode ser ampliado com o estudo das advertências populares, obedecendo aos mesmos fenômenos de espontaneidade humorística, de analogia, efeitos de rima, associação de idéias.
Às vezes, a réplica não aparece senão em conseqüência da própria advertência, e como resposta adequada.
Quando se vê um cavaleiro (quase sempre mal montado) atira-se-lhe com esta: “Lembranças ao faraó.”
Há aí uma referência analógica à fugida para o Egito (fato bíblico), terra que esteve sob o primitivo e histórico domínio dos faraós.
De outras vezes diz-se ao cavaleiro, em tom interrogativo e zombeteiro: “onde vão vocês dois?”; ao que ele prontamente responde, em réplica: “cortar capim para nós três”.
Vê-se deste exemplo que a réplica foi uma conseqüência da advertência que o primeiro interlocutor fizera ao segundo.
Feitas estas ligeiras explanações, vamos dar alguns exemplos de réplicas e advertências populares colhidas por nós da tradição oral, em nosso país:
– E depois...
– Vacas não são bois, chifres são só dois, muita casca tem o arroz.
– Espera...
– Quem espera desespera; outra: – espera é um pau que não se move do lugar.
– Jura...
– Pelo (...) tanajura.
– Que é isso?
– Chouriço... carne de porco não tem bicho.
– Deixa ver... (pronuncia-se na linguagem popular vê por ver).
– Não é de chaveta nem de parafuso.
– Nada...
– É peixe. (Como que dizendo: peixe é que nada).
– Estou com fome
– Vai à rua de João Gome, mata um home(m) e come.
– Esqueci...
– Quem esquece come queijo.[8]
– Amanhã...
– Carneiro perdeu a lã.
– Pode ser...
– Uma vela sem pavio (com referência a pau de cera).
– Eu pensava...
– Pensando morreu um burro com tocador e tudo.
– Não sei... (dito dubitativamente ou querendo ocultar o que sabe)
– Não sei é farinha seca.
– Que é? (interrogação de curiosidade)
– Quem muito quer saber, mexerico quer fazer. (provérbio).
– Ah! Ah! Ah!” (gargalhada)
– Capim está caro.
– Veremos...
– Assim dizia o cego e nunca viu nada.
– Que há de novo?
– Muita galinha e pouco ovo.
– Que horas são?
– Falta dez réis pra meio tostão.
– Deixa ver
– Não tem vista nem crista nem nariz de paulista (alusão à curiosidade, cf.:
meter o nariz onde não é chamado).
– Logo... (promessa)
– Logo é logro.
– Não gosto
– Coma menos.
– Não vejo
– Ponha óculos.
– Não ouço
– Quem é surdo, traz pajem.
– Que horas são?
– Oração... é de São Bento.
– Que frio!
– Deita-te num rio e cobre-te com o manto de teu tio.
– Rapaz
(Responde o que é assim tratado): – Rapaz é negro de padre.
A estas réplicas poderíamos juntar muitas outras, algumas das quais só podem ser registradas em páginas de um livro não acessível a toda a gente...
Notas
1. Da pequena coleção infantil (Book for tbe Bairns) – Nursery
rhymes, 24.
2. Van Genepp, que cita estes versos, traduziu-os assim: Je suis allé à la
messe / Sur un âne à reculons / Je suis tombé à quatro pattes...
3. Van Genepp, Mercure de France, LXX, 248, e outras variantes em
Rolland.
4. Antão é nome poético e tradicional de pastor, cf. Ecloga Alejo, de Sá
de Miranda, etc.
5. Diz-se no Brasil: com tocador (ou cangalhas) e tudo.
6. Diz-se no Brasil: pau de sebo é uma vela; ou então; é uma vela sem pavio.
7. Dizemos no Brasil: nada é peixe.
8. É crença popular que os laticínios, e nomeadamente o queijo, são alimentos
que causam esquecimento, que prejudicam a memória. Podemos ver isto do seguinte
passo do Padre Manuel Bernardes (Nova floresta, t.II. tít.V, p.233, ed.
Chardron): “Há também memória artificial, da qual uma parte consiste na
abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como LATICÍNIOS, carnes
salgadas, etc." A alusão à falta de memória está implícita na réplica.
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