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Tema do Mês

Outubro 2008 - Ano XI - nº 117

Sumário

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Variantes brasileiras

O Vilão do Cabo

Ex-libris nas escolas

Ainda as crianças

Amanhã é domingo

Rimas e facécias

 

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Temas do folclore infantil

Rimas e facécias

João Ribeiro

Muitas anedotas há que se recontam como novas e sempre aparentam frescor de novidade.

O folclorista, que rebusca as fontes, verifica não raro que são antigas e às vezes antiqüíssimas como as fábulas de Esopo, ou as histórias indianas.

Outro aspecto que inculca antigüidade é encontrarmos sob trajes diferentes, em literaturas e terras distantes, as mesmas idéias e formas de expressão que só se poderiam generalizar por migração lenta de um povo a outro.

Parece-me ser este o caso de uma rima infantil que, conjeturo, não será desconhecida dos leitores.

A rima pertence ao gênero livre, como se diz agora. Não fui nunca um vicioso, e pois confesso sem hipocrisia que a ouvi muitas vezes, nos tempos da meninice:

Um velho mais uma velha
Foram lavar-se na bica;
A velha deu um escorrego (...)

Não é a idéia obscena a que predomina nestes versos para a curiosidade infantil, mas a idéia cômica da queda de ambos. Esta idéia primária aparece em várias rimas infantis de diferentes povos, sem o condimento de outra crueza maior que a do tombo, que faz sempre rir às crianças.

Tal é a história de Jack and Gill, que anda entre os Nursery rhymes mais populares do povo inglês:

Jack and Gill
Went up the hill
Jo fetch a pail of water;
Jack fell down
And brok his crown,
And Gill came tumbling ofter.
[1]

Também conservo a lembrança de uma quadrinha popular, que a julgar pela personagem histórica a que alude, não pode ser antiga.

É a seguinte:

Garibaldi foi à missa
Num cavalo rebolão;
O cavalo deu de popa,
Garibaldi foi ao chão.

Ora, essa cantiga parece que foi introduzida pelos italianozitos que ganhavam dinheiro nas feiras, cantando saudades de além-mar. Eram talvez de Sabóia, porque da Sabóia são os versos populares que se me afiguram a fonte desta cantiga:

Djallave a la messa
Su un asne à r'culons
(...)
Dje le tié a cropenclon.
[2]

A transcrição fonética desses versos é muito defeituosa. Mas bem se percebe que é o mesmo:

(Garibaldi) foi à missa
Num cavalo rebolão.

É provável que em São Paulo corram já muitas histórias, facécias e rimas de origem italiana. É cedo talvez para as estudar com inteiro fruto, mas quem quer que as pesquisasse teria mérito de haver cedido a futuros investigadores.

*

Em convizinho dialeto encontramos a variante dos versos que se dizem por matraca às crianças que têm o nome de João:

João galalão
Perna de grilo,
Orelha de cão.

Segundo a versão de Bonneville:

Jan patagan
La cane a la man,
Lou pia d'coté
La miarve au nez.
[3]

Familiares a todos os meninos de escola são os versos a propósito da primeira soletração:

B-A – bá,
chega pra cá;
B-E – bé,
Põe-te em pé;
B-I – bi,
Passa pra qui;
B-O – bó
Dá cá o cipó;
B-U – bu,
Para teu...

Em quase todas as versões estrangeiras que conheço trata-se de castigo às crianças, imposto naturalmente por desídia no estudo do abecê.

Eis uma de várias apontadas por E. Rolland, nas Rimes et jeux de l’enfance (p.326-327):

B-A – bá,
Mou père me bat;
B-I – bi,
A coup de béquilles;
B-O – bó,
A coup de sabots;
B-U – bu,
I n’me battra plus.
(Var. do Lorient)

O inumerável das produções da imaginação não passa afinal da meia dúzia de idéias fundamentais, que chegam para alimentar e entreter a fantasia dos povos.

*

O nosso folclorista, Lindolfo Gomes, a propósito das réplicas populares, colheu alguns espécimes curiosos e correntes nas terras de Minas Gerais. Damos o interessante excerto de sua lavra:

“Já o inolvidável filólogo J. Moreira, tão conhecedor da linguagem do povo, publicou um rápido estudo a respeito das réplicas populares.

O ilustre lingüista encarou o assunto tão somente debaixo do ponto de vista filológico.

Diz ele que a prática da réplica, que corresponde mais ou menos aos apartes dos oradores, é seguida na conversação e que a linguagem popular tem até certas fórmulas, por assim dizer estratificadas, a que recorre em determinados casos. E apresenta alguns exemplos:

Quando alguém no decurso da conversa emprega a palavra então, que às vezes pronuncia antão, o seu interlocutor, por zombaria, interromperá com estas palavras: “Antão era pastor e guardava gado.”[4]

Se vai dizendo: “eu pensava que...”, responder-se-á: “a pensar morreu um burro, com albarda e tudo”.[5]

Tendo um dos interlocutores proferido a expressão “pode ser que...”, o outro replicará: “pau de cera é uma vela”.[6]

Ao empregar-se a palavra nada, ouvir-se-á como resposta: “quem bem nada não se afoga”.[7]

Conclui por dizer que os fatos mencionados têm ainda, sob outro ponto de vista, importância filológica, correspondendo a falsa analogia glotológica, conquanto seja esta nos fatos referidos, representando um processo de associação de idéias, mais ou menos consciente e propositada.

E é por isso mesmo que o estudo dessa matéria bem se encarta no campo das lucubrações folclóricas e serve ainda de demonstrar a importância destas lucubrações debaixo do aspecto filológico.

Através dessas réplicas teremos de admirar a espontaneidade das criações populares, as comparações analógicas do espírito do povo, os equívocos e trocados e as suas tendências e veia humorísticas visando a confusão ou o ridículo do interlocutor.

Com a réplica Antão vemos a crítica atirada ao que pronunciou mal a palavra então.

Com a palavra pensar faz-se um trocadilho, tendo em vista que pensar pode significar cogitar, meditar, ter idéia, etc., como também, conforme o caso, tratar de animais, de crianças, de feridas (observação que J. Moreira não registrou).

Na réplica “pau de cera é uma vela” surpreende-se o intuito da comparação analógica da figura da vela de cera com o pau (de cera).

Com a palavra nada aparece na resposta outro trocadilho, com uma intenção visivelmente humorística.

O capítulo das réplicas pode ser ampliado com o estudo das advertências populares, obedecendo aos mesmos fenômenos de espontaneidade humorística, de analogia, efeitos de rima, associação de idéias.

Às vezes, a réplica não aparece senão em conseqüência da própria advertência, e como resposta adequada.

Quando se vê um cavaleiro (quase sempre mal montado) atira-se-lhe com esta: “Lembranças ao faraó.”

Há aí uma referência analógica à fugida para o Egito (fato bíblico), terra que esteve sob o primitivo e histórico domínio dos faraós.

De outras vezes diz-se ao cavaleiro, em tom interrogativo e zombeteiro: “onde vão vocês dois?”; ao que ele prontamente responde, em réplica: “cortar capim para nós três”.

Vê-se deste exemplo que a réplica foi uma conseqüência da advertência que o primeiro interlocutor fizera ao segundo.

Feitas estas ligeiras explanações, vamos dar alguns exemplos de réplicas e advertências populares colhidas por nós da tradição oral, em nosso país:

– E depois...
– Vacas não são bois, chifres são só dois, muita casca tem o arroz.

– Espera...
– Quem espera desespera; outra: – espera é um pau que não se move do lugar.

– Jura...
– Pelo (...) tanajura.

– Que é isso?
– Chouriço... carne de porco não tem bicho.

– Deixa ver... (pronuncia-se na linguagem popular vê por ver).
– Não é de chaveta nem de parafuso.

– Nada...
– É peixe. (Como que dizendo: peixe é que nada).

– Estou com fome
– Vai à rua de João Gome, mata um home(m) e come.

– Esqueci...
– Quem esquece come queijo.[8]

– Amanhã...
– Carneiro perdeu a lã.

– Pode ser...
– Uma vela sem pavio (com referência a pau de cera).

– Eu pensava...
– Pensando morreu um burro com tocador e tudo.

– Não sei... (dito dubitativamente ou querendo ocultar o que sabe)
– Não sei é farinha seca.

– Que é? (interrogação de curiosidade)
– Quem muito quer saber, mexerico quer fazer. (provérbio).

– Ah! Ah! Ah!” (gargalhada)
– Capim está caro.

– Veremos...
– Assim dizia o cego e nunca viu nada.

– Que há de novo?
– Muita galinha e pouco ovo.

– Que horas são?
– Falta dez réis pra meio tostão.

– Deixa ver
– Não tem vista nem crista nem nariz de paulista (alusão à curiosidade, cf.: meter o nariz onde não é chamado).

– Logo... (promessa)
– Logo é logro.

– Não gosto
– Coma menos.

– Não vejo
– Ponha óculos.

– Não ouço
– Quem é surdo, traz pajem.

– Que horas são?
– Oração... é de São Bento.

– Que frio!
– Deita-te num rio e cobre-te com o manto de teu tio.

– Rapaz
(Responde o que é assim tratado): – Rapaz é negro de padre.

A estas réplicas poderíamos juntar muitas outras, algumas das quais só podem ser registradas em páginas de um livro não acessível a toda a gente...

 

Notas

1. Da pequena coleção infantil (Book for tbe Bairns) – Nursery rhymes, 24.
2. Van Genepp, que cita estes versos, traduziu-os assim: Je suis allé à la messe / Sur un âne à reculons / Je suis tombé à quatro pattes...
3. Van Genepp, Mercure de France, LXX, 248, e outras variantes em Rolland.
4. Antão é nome poético e tradicional de pastor, cf. Ecloga Alejo, de Sá de Miranda, etc.
5. Diz-se no Brasil: com tocador (ou cangalhas) e tudo.
6. Diz-se no Brasil: pau de sebo é uma vela; ou então; é uma vela sem pavio.
7. Dizemos no Brasil: nada é peixe.
8. É crença popular que os laticínios, e nomeadamente o queijo, são alimentos que causam esquecimento, que prejudicam a memória. Podemos ver isto do seguinte passo do Padre Manuel Bernardes (Nova floresta, t.II. tít.V, p.233, ed. Chardron): “Há também memória artificial, da qual uma parte consiste na abstinência de comeres nocivos a esta faculdade, como LATICÍNIOS, carnes salgadas, etc." A alusão à falta de memória está implícita na réplica.

(Ribeiro, João. O folclore. Rio de Janeiro, Organizações Simões Editora, 1969, p.189-193 (Coleção Folclore Brasileiro, 1))

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