Uma das primeiras lições para as crianças é a dos nomes dos dedos ou a dos dias da semana.
Desta solicitação nasceu um pequeno gênero literário, da espécie dedo mindinho seu vizinho.
Além dessa, há uma parlenda infantil muito graciosa, que, numa das versões que melhor conheço, diz assim:
a)
Amanhã é domingo
Pé de cachimbo;
A areia fina
Deu no sino;
O sino é de ouro
Deu na torre;
A torre é de prata
Deu na mata;
A mata é valente
Deu no tenente;
O tenente é mofino
Deu no menino;
O menino é tolo
Deu um tapa-olho.
Representa esta variante a corrupção do tema fundamental muito mais perfeito, segundo se depreende de suas próprias incongruências (a dita versão não é única no Brasil).
O tema fundamental presumo ser o da alegria infantil que decorre da perspectiva de um dia santo, ou feriado próximo, e mais, dia de festa, ou de missa: dai as idéias sucessivas: amanhã é domingo – o sino – a torre...
Se assim é, no meio das numerosas variantes de tal parlenda, devemos aceitar como mais fiéis e menos alongadas da original as em que melhor se traduzam aquelas idéias elementares.
Assim, uma conheço que diz na altura do terceiro verso:
b)
Galo monteiro
Pisou na areia,
A areia é fina
Que dá no sino...
O sino é de ouro
Dá no besouro...
O besouro é de prata
Que dá na mata;
A mata é valente... etc.[1]
Nesta variante o encadeamento das idéias é muito mais perfeito; basta notar que na primeira (a) a torre dá na mata, o que é um absurdo e tira todo o ambiente; na segunda (b) a torre dá no besouro, e o besouro dá na mata, o que é mais racional e melhor adequado à associação das idéias.
E não é só este pormenor o mais interessante; a versão b introduz um elemento novo, o galo monteiro, que se denuncia em outras variantes conhecidas sob vários apelidos: o galo francês, ou o galo montês.[2]
Seria prolixo estampar aqui todas as versões indicadas.
Basta-nos refletir, pelo que já foi dito, que facilmente se restitui o texto primitivo, nas idéias essenciais, juntando esse pormenor do galo (versão b e congêneres), que é um atributo comum das torres de igreja.
Vemos assim associados o domingo tão grato aos rapazes e as festas de igreja, a torre, o galo, o sino...
Não parece ser outra a idéia fundamental deste tema infantil.
Não é menos certo que em muitas versões se alude, de mistura, a outros divertimentos domingueiros – corridas de touros (Ad. Coelho e Vieira de Andrade, nos lugares e obras citadas), ou em certas versões espanholas, a casamentos de burla. Nesta última corrente de idéias que produziu inúmeras variantes encontramos as seguintes:
2)
Mañana es domingo
De pipiripingo
Se casa Respingo
Con un gorrion...
b)
Mañana es domingo
Y es dia de respingo,
Se casa Benito
Con un pajarito...
c)
Tingo, tillingo
Mañana es domingo
Se casa la gata...
d)
Tilingo, tilingo,
Mañana es domingo
Se casa la pita
Con un burriquito...
e)
Mañana es domingo
De San-Garabito...
De pico de gallo
De gallo mortero...
As duas primeiras são européias e peninsulares; as três últimas são americanas (c é de Cuba; d de Venezuela, colhida por H. Schuchardt; e foi colhida em Porto Rico). Todas falam do dia de respingo (dia de saltar e brincar), ou em diversões e brinquedos próprios das crianças.[3]
Conheço as variantes de um tema francês – a semana do preguiçoso – em que não há dia de trabalho. Eis uma delas:
Lundi, mardi, fête;
Mercredi, je n’y puis être;
Jeudi, Saint Thomas;
Vendredi, je n’y serai pus;
Samedi, à la ville,
Dimanche à la messe
Et ma semaine será faite.[4]
Enumeram-se aqui todos os dias corno se foram feriados, ou inúteis. No Brasil, na região do Norte, acrescentam por vezes à parlenda, de que nos ocupamos, a designação do sábado:
Hoje, é sábado
Pé de quiabo,
Depois é domingo
Pé de cachimbo...
Este acréscimo inicial resultou de incompreensão do texto primitivo.
Quiabo é uma planta herbácea; mas pé de cachimbo não é espécie botânica, e alude seguramente à liberdade do indivíduo, à fuga ou repouso do trabalho. Abalar os cachimbos é fugir, dar à perna.
Nas variantes portuguesas continentais e ilhescas encontramos pé de cachimbo, pau de cachimbo, e raramente pé de pingo (Elvas), pé do cachimbo (Madeira). Numa comunicação que graciosamente me fez, diz o folclorista Oscar de Pratt: "“Pode ser que pé de cachimbo de todas as variantes, que conheço em Portugal, na parlenda, se deva entender, pede cachimbo":
Amanhã é domingo
Pede cachimbo.
E pode não ter sentido algum, basta que seja uma rima para domingo.
Como em outras parlendas, o essencial para o espírito infantil pode ser a enumeração dos dias, como em outros casos a dos dedos da mão.[5]
Notas
1. Colhida por Sílvio Romero, Estudos sobre a poesia popular no Brasil,
p.243. A versão é de Sergipe. Cf. Pereira da Costa, Folclore pernambucano,
p.503.
2. Galo francês numa variante colhida por Ad. Coelho (Jogos e rimas,
p.31); galo montês, nas Tradições populares do Douro, de Vieira de
Andrade, p.44. E também gato montês, como na versão açoriana: O gato
montês / Pica na rede / A rede é miúda / Toca na tumba... (Teófilo Braga,
Cancioneiro popular, 2ª ed., p.281). Verifiquem-se as alterações verbais: o
gato montês / pica na rês / A rês é de barro / Repica no adro. (Ibidem,
p.281).
3. Pub. as variantes citadas nos Contos pop. Espafloles, de R. Marin,
t.I, 56, 129.
4. Rimes et Jeux de l’Enfance, por E, Rolland, p.277-278 e os ensaios de
Hermann Urtel, Zur Volksliteratur der Vogesen (Rev. de Dial. Romane,
1909).
5. Há uma hipótese: a de que essas parlendas se originaram dos nomes primitivos
dos dias da semana. De que arte, porém, solis, lunae, martis,
mericuriijovis, veneris dies se transformaram nos versos da
parlenda atual é coisa difícil de crer. Os elementos atuais já degenerados são
os seguintes, absurdamente:
Há tantas rimas quantas sem razões neste quadro. Sem falar em outras variantes.
Dois termos são contudo essenciais, o domingo e a igreja (sino, torre, galo) e
por isso acredito que se trata apenas de uma véspera alegre dia santo.
| domingo | cachimbo | pingo | caminho | respingo |
| gato montês | gato montês | gaita | galo francês | |
| rês | rede | rês de barro adro |
||
| areia fina | sino | |||
| sino de ouro | torre touro |
|||
| mata | padre | |||
| valente | tenente | touro bravo fidalgo |
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