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Temas do folclore infantil

Ainda as crianças

João Ribeiro

As crianças, com uma só palavra, dizem frases inteiras. Esse dom sintético gera por vezes algumas expressões de exegese difícil.

Eis um caso de extrema singularidade, que pude observar a respeito da interpretação do brasileirismo – javevó – mais conhecido e usado na metade meridional do país.

É palavra de uso freqüente no Rio de Janeiro, Minas e São Paulo. O significado que se lhe dá é o de – homem alto, mal amanhado, mal vestido, mas sempre de grande estatura.

A essa espécie de gigantes o povo dá os vários epítetos de galerão, galalau, manguari, João Grande, mangagá e jerivá.

É uma série de termos na maior parte facilmente explicáveis e que se diferenciam por leves matizes de significação.

O mangagá é o nome de um vespão ou marimbondo grande, no guarani mangangá (que definem “abeja cimarrona” no Rio da Prata) e é designativo do norte do Brasil de pessoa ou coisa grande e monstruosa.

João Grande e manguari (magoari) são nomes de aves pernaltas do Sul. Jerivá procede de jarivá, jerebá, juravá, nome comum a algumas espécies de palmeiras indígenas. Vê-se que resultam aqueles epítetos de simples metáforas do uso popular. É certamente mais obscura a origem de galalau ou galerão, que me parece vocábulo português, ainda que não registrado nos. léxicos ordinários.

Não será difícil, acredito, lobrigar-lhe a verdadeira origem que é do folclore e da literatura popular dos livros de cordel.

Este galalau não é mais que o galalão ou conde Galalão que anda nas lendas portuguesas como tipo de sujeito forte e aladroado, bandido temível, terror dos pequenos e fracos. Camilo referindo-se a um dos companheiros de dom João de Castro, dos que mais se distinguiram na pirataria e roubo das naus arábicas, diz: Este Rui Gonçalves de Caminha foi um ladrão muito celebrado, a quem chamavam por isso mesmo o conde Galalão. (Raças finas, Tragéd. da Índia, 234)

E já a confirmação do testemunho de autores contemporâneos.[1] Essa alcunha de Galalão tenho para mim que foi tomada do famoso romance de Carlos Magno e dos pares de França, de leitura outrora e hoje universal e de personagens como Ferrabraz e outros, ainda vivos na memória do povo. Galalão era um dos cavaleiros gigantescos do imperador franco-romano, de admirável bravura, mas que se desonrou pela traição e pela cupidez do dinheiro.

Galalão tornou-se o tipo de bandido valente, ladrão venal, avaro e cupido, temido pela força ou pela gigantesca estatura.

É, seguramente, o galalau, galalão ou galerão do vocabulário brasileiro.[2]

Nesta série de epítetos, resta averiguar a etimologia de javevó, que tomamos por epígrafe e que se nos afigura de elucidação mais difícil.

Não é palavra portuguesa nem africana; não o parece pelo menos quanto se pode inferir dos aspectos externos.

Também no tupi ou no guarani não conhecemos radical que corresponda aproximadamente àquela forma.

É, pois, um problema que espera solução positiva. Enquanto se não depara a origem direta, é lícito aventar uma conjetura. Imagino, quanto a mim, que é uma palavra do dialeto infantil – javevó, e é equivalente à gente grande, alta, e sempre demasiado alta para crianças.

Ora, há uma treta ginástica popular que é portuguesa e brasileira, brincadeira meio bárbara, que consiste em levantar uma criança pela cabeça, comprimindo as têmporas, até a altura de uma pessoa grande, para ver vovó, segundo dizem.

As fórmulas usadas são as seguintes:

– Vamos ver vovó!

Ou, mais freqüentemente: — Já viu vovó?

Entendo que por esse motivo um indivíduo muito alto é um — já viu vovó — ou abreviadamente um — já-vevó.

O termo infantil passou à linguagem corrente, como alguns outros que argúem a mesma origem.

Neste caso, javevó é a condensação de uma frase mediante um processo que não é raro aliás na linguagem comum (idólatra por idolatra; bondoso por bondadoso) e é freqüentíssimo no linguajar das crianças.

Si non é vero...[3]

 

Notas

1. Felner, Subsídios para a história da Índia portuguesa (Introdução). O opúsculo de Camilo anda apenso à edição moderna da Corja (Lello Irmão, Porto).
2. Seria normal o étimo galera para galerão. A forma galalão, porém, indica a verdadeira fonte.
3. Há um tipo de gigante, o Gayão, ladrão gaião, de que se fala na Arte de furtar, de que tratei na edição que dirigi desse livro clássico na parte do glossário (ed. Garnier). Acrescento que talvez esse gajo seja o mesmo da lenda e superstição, o Gayant de várias cidades de França, Douai e outras.

 

(Ribeiro, João. O folclore. Rio de Janeiro, Organizações Simões Editora, 1969, p.123-124 (Coleção Folclore Brasileiro, 1))

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