Usa-se ainda hoje, entre rapazes, de uma fórmula de ex-libris de grande difusão nos países de civilização européia e provavelmente muito antiga. segundo se pode depreender da extensa vulgarização por várias terras.
A fórmula quase sempre se depara em versos e tem grande número de variantes. Eis algumas delas:
a) Usadas no Rio de Janeiro e comunicadas por alunos do Colégio Pedro II:
Se este livro for perdido,
Por acaso for achado,
Para ser bem conhecido
Leva o meu nome assinado.
O meu nome é... (F),
Que me foi na pia dado;
Meu sobrenome é... (X),
Que de meu pai foi tirado.
Outra:
Quem este livro pegar
Não causa admiração,
Mas quem com ele ficar
Pega, pega, que é ladrão!
b) Em Sergipe conheci a seguinte variante, muito usada nas escolas:
Livro meu muito amado,
Tesouro do meu saber,
Folgarei de te encontrar
No dia em que te perder.
Se não me souber o nome
Quem te tiver encontrado
Lendo ...
Verá abaixo assinado.
e) O que me chamou atenção para as fórmulas anteriores, de que eu já havia tomado nota, foi deparar-me com outra muito mais antiga, por letra do século XVIII, na folha-de-guarda de um exemplar das Obras espirituais, de frei Antônio das Chagas (Coimbra, 1728). Diz assim, textualmente:
Se este livro for achado
Quando venha a ser perdido
P.a q.e seja conhecido
Leva seu dono assinado.
E se por acaso for emprestado
P.a algum conhecimento
Dece-lhe bom tratamento
Não se deixando esquecer,
P.a q.e não venha a ser
Livro de esquecimento.
Copiei literalmente com a métrica e a ortografia do original.
d) Estes singelos ex-libris creio que são de uso em toda a Europa e ainda nos países de origem européia na América.
Eis uma variante que copio da folha-de-guarda de um livro inglês:
My boock is a thing
My fist ist an other
If you steal the one
You will feal the other.
As duas palavras destacadas indicam que a fórmula provém de um teuto-americano, ainda incerto no conhecimento da língua. Conheço a este propósito algumas fórmulas alemães, que se não distinguem essencialmente das nossas, senão que em geral se endereçam aos ladrões de livros e praguejam as penas que merecem:
Dieses Buck ist mir lieb...
é quase a nossa fórmula, pelo intróito:
Livro meu muito amado
A versão mais generalizada e mais concisa é a seguinte:
Dieses Buch ist mir lieb
Wer es stiehlt, der ist em Dieb;
Kommt er an einen Stein,
Brícht er sich ein Bein,
Fällt er an einem Graben,
Fressen ihn die Raben.[1]
Dieses Buch ist mir lieb,
Wer es stiehlt, der ist em Dieb;
Es sei Herr oder Knecht.
Der Galgen ist sein Recht.
Kommt er an ein Haus,
So jagt man ihn hinaus,
Kommt er an einen Graben,
So fressen ihn die Raben.
Kommt er an einen Stein,
So bricht er Hals und Bem.
Esse tom insólito e cruel, quase não aparece em cantigas nossas, nas quais se não desejam tamanhos males a bibliocleptas e a malfeitores. Mas é preciso notar que os dois últimos versos se reportam a um brinquedo infantil, o que modera a pena. Uma praga semelhante à alemã é a que se roga aos pobres pretos, se morriam:
Negro gege quando morre
...
Urubu tem que comer[3]
Mas era menos um desejo que um fato, não raro na lúgubre história da escravidão.
Os nossos ladrões de livros são muito mais felizes; e até o susto que prevenia um ex-libris antigo com a letra de Horácio – ossa ab ore canis – não passou nunca de singela flor de retórica. A antigüidade dessa espécie de ex-libris está bem comprovada por inúmeros exemplos desde que a imprensa deu grande circulação às obras dos grandes autores. Sem terem o preço dos antigos manuscritos, das cópias e iluminuras antigas, eram ainda assaz estimados e guardados contra a fúria dos ladrões. Todas as fórmulas provêm naturalmente de uma única, e uma das versões mais antigas diz assim, (século XVI):
Hic liber est meus
Qui furatur erit reus
Certe poema capitis
Vi petatur lapitis (!)
Dein discat sinere
Possessori reddere.[3]
Embora deturpada, é ainda a fórmula mais ou menos dos nossos dias.
Notas
1. Simrock, Das Deutsche Kinderbuch, n.° 351. A seguinte variante alemã do século
XVIII, encontrada na folha-de-rosto de uma bíblia, foi publicada por W.
Schwartz.
1 Cantiga popular da Bahia, que se cantava com a música de Orfeu, de
Offenbach:
Negro gege quando morre
Vai na tumba de bangüê;
Os parceiros vão dizendo:
Urubu tem que comê!
3. Publicada por K. Weinhold, de um exemplar da Ars Bonae Mortis (1602).
Há
outros mais antigos.
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