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Temas do folclore infantil

O Vilão do Cabo

João Ribeiro

O jogo do Vilão do Cabo foi entre nós analisado pela primeira vez por Alberto de Faria. Este folclorista não é um mero coletor, como quase todos os nossos; é um dos raríssimos que, dotado de vasta erudição literária e familiarizado com os métodos de moderna investigação, sempre sabe dizer coisas novas e aproveitáveis.

Dele é a seguinte contribuição, que tomamos como ponto de partida neste ensaio:

“Um dos nossos mais curiosos entretenimentos infantis é o jogo do Vintém queimado, que subsiste no reino português e possessões com diferentes nomes: jogo do queimado e Vilão do Cabo, este antigo, porquanto aparece nas Cartas de Dom Francisco Manuel.[1]

“Não lhe conhecemos a parlenda lusitana [2], ignorando se perdura ou não

Esta é a versão de Campinas, São Paulo:

– Vintém queimado!
– Quem queimou?
– Pilão do Carmo (Vilão do Cabo)
– Quer que se prenda?
– Prendido vá.
Passa, passa cavaleiro,
Pela porta do carneiro!

– Tem uma corda
Pra me emprestar?
– Tenho; mas está suja.
– De quê?
– De cuspe de galinha.
– Vamos experimentar...
– Vamos!

“Finda a primeira série de perguntas e respostas, efetuadas por dois rapazes que constituem os extremos de uma cadeia deles, de mãos dadas, passam todos sob os braços em arco dos de uma ponta (a porta do carneiro); acabada a segunda arrebenta-se a cadeia (a corda) pela queda geral, a um forte empuxão. Em seguida, aqueles dois rapazes demarcam no solo o inferno, o purgatório e o céu, e um fica com a mão direita erguida e espalmada, para que os restantes, pulando à vez, batam nela com as respectivas cabeças; e os que isto conseguem vão para o céu, os que o não conseguem vão para o purgatório ou para o inferno, conforme o pulo realizado. Aos que vão para o inferno gritam os companheiros atroadoramente:

Cousa ruim, tem-tem
Pra ganhar vintém!

‘Suponhamos que o nome vilão do cabo proviria do tratamento a um dos rapazes dos extremos da cadeia (na Espanha, frei João das Cadeinhas). O nome vintém queimado é, sem dúvida, corruptela de veinte y un quemados, como se vê na parlenda castelhana da tradição quinhentista (Teófilo Braga, O povo português):

Ah, frey Juan de las Cadenetas!
– Que mandais, señor?
– Quantos panes hay en la arca?
– Veinte y un quemados.
– Quien los quemó?
– Ese ladron que está cabe vós.
– Pues, pase las penas que nunca pasó.

Com os que iam para o inferno travava-se, depois, este curto diálogo:

– En que estás, companero?
– En penas.
– Pues, sácote dellas.

Este fragmento de Alberto de Faria data de 1907, publicado na imprensa (Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro). Creio que ainda voltou ao assunto. Também suponho que do mesmo objeto se ocupou o dr. Sílvio de Almeida, mas não tenho à mão os seus escritos avulsos. Vejam-se todavia os dois artigos do mesmo Sílvio e de Alberto de Faria no Almanaque Garnier, de 1909 (p. 232 e 235), que tratam desta e outras espécies, e são ambos interessantes.

Registraram ainda este jogo infantil Alexina de Magalhães e Figueiredo Pimentel em livros que trazem o título de Brinquedos, expressão preferida a jogos, no Brasil. A versão do Vilão do Cabo em Figueiredo Pimentel (Os meus brinquedos, p.52) intitula-se Padeiro! padeiro! palavras que iniciam o jogo na variante carioca.

– Padeiro! padeiro!
– Senhor, meu amo!
– Quantos pães queimou por dia?
– Vinte e um queimados, etc.
(Os meus brinquedos, p.53-54)

Já no estudo de Alberto de Faria se explica como na versão paulistana vinte e um (pães) transformou em vintém e assim gera o disparate do vintém queimado que, sem o material comparativo da variante catelhana, seria incompreensível.

Sobre essa espécie ainda há muito que refletir e estudar. Uma variante alentejana diz:

– Sór Fernão Queimado!
Quantos pães tem na arca?
– Vinte e um queimados.
– Quem nos queimou?
– O diabo que aqui passou.

Está quase pelos mesmos termos na nova edição ampliada pelo Cancioneiro popular português, de Teófilo Braga (II, 556, edição de 1913). No Povo Português (1, 317/319) há outras versões interessantes; a da Andaluzia:

– Compadre ajo!
– Que manda mi amo?
– Cuantos panecitos hay en er tejáo?

e a versão catalã colhida por Maspons e Labros nos Jochs infantiles:

– Mossem Joam de las Abadessas!
– Qué mana mi senyó?
— Quantas fulias hi ha ai arbe?
– Trinta mil y un...

Esta variante já é urna adaptação; em vez de pãezivlzos inquire-se das folhas da árvore. Registradas nos Cantos pop. esp. I, de Rodrigues Marin e em Teófilo Braga, op. cit.

São estes os primeiros documentos do nosso tema. Resta, pois, compará-los e estudá-los em seus traços diferenciais.

É um excurso pitoresco.

Iremos ver como as variantes brasileiras, numerosas de norte a sul, todas se explicam por etimologia popular.

 

Notas

1 Refere-se ao seguinte tópico das Cartas familiares, 402: “Já me começou a danar este Vilão do Cabo.”
2 Perdura, sim, e ainda sob forma que éútil conservar, pois representa o inicio do diálogo.

 

(Ribeiro, João. O folclore. Rio de Janeiro, Organizações Simões Editora, 1969, p.49-52 (Coleção Folclore Brasileiro, 1))

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