Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Tema do Mês

Outubro 2008 - Ano XI - nº 117

Sumário

Jogos do folclore infantil

Variantes brasileiras

O Vilão do Cabo

Ex-libris nas escolas

Ainda as crianças

Amanhã é domingo

Rimas e facécias

 

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Temas do folclore infantil

Variantes brasileiras

João Ribeiro

Desde logo assentemos que a expressão vinte e um pães nada tem de arbitrária corno poderá, ao primeiro exame, parecer. Vinte e um pães é uma conta precisa e definida, é o que se chama uma data de pães, e provavelmente representa uma antiga contribuição, imposto ou taxa já obsoleta. Em qualquer caso, uma data de pães são vinte e um deles. Passemos às versões brasileiras.

Um folclorista do Norte, o dr. Júlio C. Monteiro, recolheu a seguinte e curiosa variante daquele jogo infantil nas regiões áridas do Nordeste brasileiro.

A sua singularidade começa logo pelo título: Bolotinha de cabra. Não faço previamente inteira descrição desse brinquedo infantil, por me parecer escusada, tão conhecido é ele. Os rapazes que o jogam reúnem-se em cadeia, travando-se por mãos e braços; os que ocupam os extremos mantêm o diálogo, que principia pelas palavras que denominam essa diversão.

Ei-la, a variante cearense, segundo o texto comunicado:

Bolotinha de cabra

(Diálogo):
– Bolotinha de cabra?!
– Senhor, meu amo!
– Quantos pauzinhos queimou hoje?
– Vinte e um contados.
– Qual foi este? (quem o contou)
– Foi o barriga de soro azedo (ou foi aquela besta ou qualquer insulto equivalente, e é o que se costuma dizer por apóstrofe).

“Em seguida, ao dizerem baixinho as crianças umas às outras: – Lá vem a morte! – ouve-se a detonação de um tiro – puhm! e após caem todas no chão.

“Há ainda alguma coisa mais” (diz o comunicante com certo laconismo que nada me deixa subentender).

Ajuntarei que esse jogo infantil ainda no Ceará é denominado Bolão de cabra, variante digna de registro, porque Bolão se avizinha do outro título de Vilão por que é conhecido no sul do país.

Do norte para o sul, encontramos, pois, as denominações bem sugestivas – boião de cabra (Ceará), Pilão do Carmo (Centro), Vilão do Cabo (Bahia) – que oferecem grande dificuldade desde que se não tenha horror às etimologias populares e se não esteja amarrado às teias de aranha da fonética.

Efetivamente Vilão o Cabo facilmente se alteraria em Bolão de Cabra e esta por analogia de sentido em Bolotinha de Cabra. Outra razão ainda ajudava essa transformação popular, é que este jogo, na península, como já o diziam Bluteau e D. Francisco Manuel nas suas Cartas, era e é ainda chamado de Juan de las Cadenetas.

Cadeneta é a cadeia de lavor, e trancelim; e precisamente neste brinquedo os rapazes se entrecruzam os braços em trança. Em Portugal, o povo por zombaria transformou aquela expressão em Jam da caganeta, como se prova com o modismo colhido pelo autor das Enfermidades da língua de Payva (página 132) desde o século XVIII.

Ora, caganeta ou caganita designa particularmente o excremento da cabra.

E aí está, no vocábulo, segundo creio, a razão que faz predominar no extremo norte o título de Bolão e bolotinha de cabra para um jogo que primitivamente se havia de chamar Vilão do Cabo ou Jam de Caganeta, conforme as versões que se teriam de encontrar até que se reduziram a uma única denominação.

A outra variante do titulo — Pilão do Carmo — parece ser a mesma Vilão do Cabo, de origem portuguesa. É possível que vilão fosse substituído por peão, pois que se equivalem quanto ao sentido; e que peão ou pião julgado corruptela dialetal se recompusesse em pilão.

Como quer que seja, podemos estabelecer a filiação desses vocábulos pela seguinte árvore:

Peão do Carmo — Pião do Carmo; Pilão do Carmo — Vilão do Cabo

João das Cadenetas (Jam de Caganeta — Bolão de cabra — Bolotinha de cabra

Resta agora explicar a duplicidade e sentido dos dois nomes do mesmo jogo.

O primeiro – Vilão do Cabo – bem se vê nasceu de um recurso comum tanto à literatura popular como à erudita, de denominar qualquer espécie pelas primeiras palavras que ocorrem. E o jogo começa:

– Vilão do Cabo?! – (ou – bolotinha de cabra?!) que é uma chamada ou invocação feita ao rapaz que ocupa a extrema da cadeia.

Na variante espanhola diz-se – fray Juan! – e na portuguêsa – Vilão! e diz-se do cabo, isto é, do extremo, e tanto se deve assim entender que outra variante portuguesa colhida por Adolfo Coelho (nos Jogos infantis, p.54) consigna a expressão:

– Senhor de cima!
– Senhor meu!
– Quantos pães tem na arca?

e assim inicia o diálogo. O Senhor de cima é o do cabo, evidentemente.

Ao passo, pois, que as nossas variantes começam pelo primeiro verso do diálogo, apenas a espanhola conserva o título Juan de las Cadenetas, transparente nos resquícios já alterados da variante cearense (caganetas, ou bolotinhas de cabra).

Não me cabe aqui registrar as variantes inúmeras, peninsulares e italianas, deste jogo infantil, que estou analisando apenas sob os seus aspectos lingüísticos, que me parecem os mais interessantes e curiosos.

Contudo algumas versões sicilianas que se deparam em G. Pitré [1] mostram pela engenhosa combinação da cadeia de rapazes que aquele título de Vilão do Cabo não é fortuito, nem de pura imaginação.

No jogo italiano correspondente e chamado A tila tila, o rapaz que inicia o diálogo é o capo di fila:

– Tila, tila.
– Mezza cana di tila.
– A quanti mi la pagati?
– A tri tari e mezzu.
– Non vi la pozzu dari.
Chi voliti sonatu:
Lu violinu o la grancascia?

Cabe, pois, ao rapaz do outro extremo responder violinu! ou grancascia! (violino, ou bombo) conforme o prefere.

É certo, pois, que o segundo extremo é o violinu di capo ou o violão (viola) do cabo, das variantes portuguesas, transformado em Vilão do Cabo.

A afinidade é meramente verbal, mas quase todas as criações tradicionais devem suas formas a verdadeiros equívocos e trocadilhos de palavras.

Só a essência escapa a essas erosões e metamorfoses da linguagem.

Naturalmente obliterou-se a idéia de viola ou violão, porque o jogo se fundiu com a outra variante dos pães.

– Quantu pani c'é supra la banca?
– Un pani e mezzu.[2]

Quando o violão do cabo responde que prefere o bombo (grancascia), então o capo di fila sai batendo e clamando buhm! buhm! Ora, quem não vê aqui a ficção da variante cearense do troar de um tiro puhm! que prostra os rapazes foliões? Vê-se até onde vai o flatus vocis nessas ingênuas intrigas.

Nada mais curioso nem mais enredado que esse labirinto de versões várias entretecidas, umas por dentro de outras, que é tão difícil quanto é agradável desdar e reduzir aos fios que as compõem.

É esse talvez o único prazer e prêmio que se tem ao estudá-las.

As palavras em sua migração alteram-se e provocam, como símbolos novos, novas invenções e novas variantes da imaginativa. O epílogo musical buhm! do zabumba provoca a história de tiros, de ladrões e de cordas ou do inferno. A imaginação procede aqui como nos sonhos, por um leve estímulo que se engrandece em história. É aliás conhecida a teoria que faz derivar as histórias encantadas de antigas sugestões do pesadelo sobre gentes incultas e primitivas.[3]

O estado último de qualquer espécie folclórica é sempre representado por uma versão que prevalece sobre outras várias que ficam esquecidas, mas que se denunciam em uma ou outra sobrevivência.

A adaptação cearense dos pausinhos lembra a das folhas de árvore (Quantas fullas hi ha ai arbe?) da versão catalã, quando já obliterada a obrigação da data de pães, imposto provável a que se negavam os contribuintes das abadias e conventos (fray Juan e abbadessas em duas versões) talvez para oblatas. Data era um benefício e direito na antiga jurisprudência.

A cobrança da data segue-se a alegação dos pães queimados, os vinte e um da conta, ou o roubo e fraude e a pena que se lhe segue. O inferno, como sanção numa das variantes, talvez ajude a supor que andam frades na companhia.

É provável que esse antigo costume, caído em desuso, fosse adaptado como um desporto a qualquer entretenimento infantil da península; e só assim é possível uma explicação razoável das palavras que enfeitam o diálogo.

É o que me parece.

Post scriptum ao capítulo antecedente

Não vai fora de propósito nem do nosso intento ajuntar aqui uma ilustração e variante curiosa, porventura, desviada de outras fontes e que entretanto completa por algumas analogias externas a série do Vilão do Cabo.

É o brinquedo ou jogo do Bento Frade, que é uma aposta de corrida aos meninos mais destros e ligeiros:

– Bento que bento é o frade
(Coro): – frade!
– Da boca do forno...
(Coro): – forno!
–Vá tirar um bolo
(Coro): – bolo!
Etc.[4]

Fala neste jogo um mestre para a roda dos discípulos que formam coro. Em seguida a esse diálogo, o mestre manda que lhe tragam algum objeto que nomeia. Os retardatários recebem todos o castigo de bolos.

Há neste jogo, que aliás não é uma ronda, alguma anaiogia com o de Juan de las Cadenetas, ou do Vilão do Cabo, na versão italiana de Monferrato:

– Ó formato, é cotto il pane?

Cessa neste ponto a semelhança que me parece casual e, sem duvida, deriva do estreito círculo de idéias infantis que sempre se reproduzem: o bolo, o pão, o forneiro e quejandas.

– Luar, luar,
Quantos peixes há no mar?
– Vinte, senhor,
Que eu não posso mais contar.[5]

Não acontece o mesmo a outra parlenda, que é uma invocação à lua, que é muito generalizada sob diferentes formas, aspectos e sentidos, nos povos latinos.

Dessa extensa penetração no Ocidente é que alguns autores lhe assinalam a origem no antigo culto da lua, de que sobrevivem este e outros vestígios.

Sou pessoalmente muito infenso à teoria mitográfica das alegorias astronômicas, que ainda professa apenas um pequeno número de retardatários.[6]

Para mim, as fórmulas de invocação à lua resultam da observação mesma da natureza. A lua cresce e é como o símbolo das coisas que medram, prosperam e devem crescer. E por isso é a madrinha das crianças:

Bênção, minha madrinha,
Dá-me pão com farinha...

Fá-las crescer:
Luar, luar,
Tomai esta criança,
Ajudai-a a criar...

E por isso mesmo, anda companheira da outra fórmula conhecida com que se augura o crescimento Benza-te Deus – que se diz a todas as coisas, plantas e criaturas, nos seus melros dias.

Entre as rimas infantis de França há esta muito graciosa:

Bonsoir, madame la Lune,
Que faites-vous donc lá?
– J’fais murir des prunes
Pour tous ces enfants-là.

Uma variante portuguesa consiste em mostrar um vintém ou dez réis à lua e pedir que os multiplique:

Lua nova,
Tu bem vês....
(mostrando a moeda)
Dá-me dinheiro
Pra todo o mês. / L. de V.

Sutileza idêntica mostrou Strepsiade nas Nuvens de Aristófanes (act. II, sc. 1) quando queria de uma feiticeira que aprisionasse a lua por não pagar os juros de suas dívidas. Ajuntemos ainda uma versão brasileira de Minas Gerais e que completa a variante registrada acima:

Lua, luar,
Toma teu andar
Leva esta criança
E me ajuda a criar,
Depois de criada
Torna a ma dar.[7]

São ainda numerosas as fórmulas de propriação à lua, que parece presidir como mãe nutriz a todas as sementes da vida. Ei-las, algumas, portuguesas e brasileiras:

Benza-te Deus, lua nova
E mais teus quatro crescentes...

*

Lua-Nova,
Benza-te Deus,
Minha madrinha
Mãe de Deus.[8]

*

A bença, minha madrinha
Me dá pão com farinha
Pra dar à minha galinha
Que está presa na cozinha.[9]

*

A bença, madrinha,
Dá-me pão com farinha, etc.

*

Xô! galinha
Vai pra tua camarinha. [10]

Confirma-se a interpretação que propomos com a verdade, ou superstição oposta de que os minguantes da lua mangram e fazem mirrar as sementeiras, o que é crença geral entre campônios e lavradores e talvez entre pessoas doutas. Era aliás o que dizia Plínio quando aconselhava o corte das madeiras alguns dias depois da lua nova. Seria curioso talvez notar a parte do material comparativo que se depara nos folcloristas europeus que mais importa conhecer.

Do folclore galego:

Luna, lunera,
Cascabelera,
Toma um ochauo
Para canela.

É um um desafio humorístico ou satírico que se repete com numerosas variantes espanholas que me parece enfadonho reproduzir.

N.B.

I
O movimento de vaivém, tomada a criança pelos braços, conforme descreve a escritora Icks, deve em português dizer-se – a bólandas – como também se diz no espanhol; esta expressão, aliás clássica, parece já obsoleta tanto em Portugal como no Brasil.

II
Não se há de esperar que eu venha tratar aqui do influxo da astrologia judiciária, a propósito da lua, conforme ainda atestam as expressões aluado, lunático, etc. É assunto demasiado banal.

 

Notas

1. Giuocchi fanciulleschi, p.241-244.
2. Pitré, id 243. Todas as versões são sicilianas, de diferentes lugares.
3. É a de Laistner na sua obra capital Raetsel der Sphinx; o defeito da teoria ou hipótese é ser exclusiva. Veja Ad. Thimme, Das Maerchen, p.52.
4. Veja Figueiredo Pimentel, Os meus brinquedos, 53.
5. É uma variante do Maranhão. Pode ter-se no livro Contos do sertão, de Viriato Corrêa, ed. Garner. 1912.
6. Tal é o caso do sr. Leite de Vasconcelos, nas Tradições e nos Ensaios etnográficos, aliás livros interessantes enquanto registros de fatos. A mesma preocupação da mitologia celeste em todos os assuntos (e que vem de Gubernatis e Max Müller) está em várias obras de Teófilo Braga. Contudo o Povo português, de T. B., é de muito superior às Tradições, quanto ao espírito e no que concerne ao material histórico e comparativo e é um dos melhores livros do autor.
7. Reg. em Os nossos brinquedos, de Icks, p.263, com o esclarecimento: “Logo nos primeiros dias de nascida a criança as comadres mineiras erguendo-a nos braços oferecem-na à lua imprimindo-lhe um movimento de vaivém, ao som da cantilena dos versinhos supra". A autora promete explicar em outro livro o sentido desta cerimônia.
8. Trad. pop., p.21; e outras muitas variantes no mesmo lugar.
9. Alex. Geddes (?) no Anuário de Minas Gerais, I, 1906.
10. É uma variante do Norte, colhida por Sílvio Romero e registrada nos seus Contos populares.

(Ribeiro, João. O folclore. Rio de Janeiro, Organizações Simões Editora, 1969, p.53-60 (Coleção Folclore Brasileiro, 1))

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