É incomparável a riqueza do folclore infantil: os jogos, as rondas, as canções, as adivinhas, as parlendas...
Não há nada mais curioso e agradável que fazer-lhe a história cotejar-lhe os paralelismos na migração desses ingênuos entretenimentos através de terras distantes e diversas. As suas variantes são numerosas, pitorescas; e ainda as mais disparatadas e infiéis traem e denunciam uma fonte comum e longínqua São mensagens e recados de raça a raça, de povo a povo, de século a século, sem sair da perene onda infantil que os leva a ignorados destinos.
Há um labirinto de dificuldades e complicações que é preciso com argúcia desvendar e simplificar, reduzindo-as às suas feições primitivas.
Imagine-se que, quase todas, estas criações infantis se arraigam em tradições remotíssimas, às vezes pré-históricas. As crianças sempre fizeram o que viam fazer as pessoas grandes e os jogos infantis são freqüentemente a simulação de atos de cultos, ritos e cerimônias antigas estilizadas e perpetuadas pelo ritmo.
Alguns são fingimentos de guerra, de apostas, de arremesso de dardos ou de malha, entre rapazes; outros revelam as cerimônia de casamentos, ou, como no uso das bonecas, os primeiros surtos do instinto da maternidade, ou ainda os fatos da agricultura. Todos esses atos elementares aparecem como incertos debuxos da atividade infantil e reduzidos risonhamente a uma espécie de desporto.
A arqueologia e a história demonstram aliás a antigüidade destes jogos. Deles fala Homero na Odisséia. O strombos dos gregos e o turbo dos romanos é o mesmo jogo do pião das crianças de hoje, e data pelo menos da pré-história da civilização idade micenaica o upelásgica, pois figuram os piões de argila primitivos na coleção de Schliemann. Em túmulos de crianças do IV século antes de Cristo, na Grécia, foram sempre achadas bonecas sob forma humana ou de um pássaro; também as acharam no Peru do tempo dos Incas os antropologistas Reiss e Stübel. Seria, pois, inútil aqui dissertar sobre este ponto. [1]
A aproximação dos jogos infantis que nos parecem sem significado, aos atos da vida primeva, longe de ser uma explicação ou hipótese pedantesca, ao contrário é a mais fácil e a mais simples de todas e a que mais se adequa às leis da própria imaginação, que consiste sempre em apropriar os elementos da realidade. Um dos assuntos constantes desses brinquedos são de interesse culinário, tema principal na imaginação infantil. E, sem dúvida, a esta ordem pertencem as parlendas dos bolos, do forno de Bento frade, e várias outras, entre as quais o Vintém queimado ou o Vilão do Cabo, de que vamos estudar apenas as pitorescas variantes brasileiras.
Estas variantes são curiosas sob o aspecto das deturpações da linguagem popular e só o estudo comparativo extensivo às línguas européias pode restituir as formas primitivas.
O forno do Bento frade é uma história à parte.
Os pãezinhos queimados lembram os do jogo infantil inglês:
Your bannocks are burning and ready fo turning, como diz uma das personagens.
Outro diálogo entre uma senhora e salteadores que a insidiam lembra o do Vilão do Cabo:
Lady:
How many pounds will set me fre?
Robbers:
Twenty pounds will set you free.
A analogia aqui é apenas do ritmo. (Mother Goose’s Book of Nursery Rhymes, 168).
O Vilão do Cabo, de que vamos tratar, é de mais considerável importância entre os desportos infantis da nossa tradição.
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Nota
1. Uraite Kinderspielzeug, de El. Lemke em Z. f. Volskunde, v.183)
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