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Tema do Mês

Outubro 2007 - Ano X - nº 105

Sumário

Sinais de tempo seco

O manda-chuva

Meteorologia popular

Fatos e crendices sobre o raio

Trovão e medo

Os santos que mandam na chuva

 

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Meteorologia

Folclore: Trovão e medo

Eduardo Campos

Com ar tímido, com receio de parecer que me estivesse contando uma história invertida, meu freteiro de Pacatuba foi soltando, aos poucos vencido pela minha curiosidade, a notícia dos efeitos de um trovão descomunal que naquela terra se ouviu ao expirar o ano passado, como bom prenúncio do bom inverno que todos acreditamos chegará este ano.

O trovão foi mesmo de estarrecer. A tirar pelo que me contou e pelo que pude escutar de outros moradores de cidadezinha serrana, foi o maior de quantos já se ouviram naquela região. Mais de dez crianças adoeceram, dezenas e dezenas de pessoas ficaram aflitas; quase um caso fatal — respeitável senhora sofreu uma síncope sobre o fogo onde preparava um cafezinho — e para arrematar os acontecimentos trágicos do dia, recebo a notícia de que o próprio inquilino de um sobrado que lá possuo, herança de meu pai, deixou a excelente moradia, alegando que o trovão quase fazia ruir o prédio.

Supersticiosos como são, de um modo geral, os habitantes da modesta cidade onde por felicidade conheci os melhores dias da infância já distante, têm razão de ainda agora, estar comentando o fabuloso trovão que abalou casas e serra, acovardou homens e mulheres, adoecendo crianças, à procura de explicações sobre essa petulante manifestação das forças celestiais.

E não é novidade que os pacatubanos de 1956 estejas impressionados com o trovão e que por sua causa eu haja perdido o inquilino do meu sobrado, vetusto edifício com janelas para a avenida do lugar onde suas calçadas servem também para secar arroz dos que amanham a terra. Sempre esteve o homem impressionado com o que a sua compreensão ainda não esclareceu de todo. Aprendi de pequeno que quando chove, abrem relâmpagos e o trovão estrondeia o melhor refúgio é atrás de uma porta; e se ela estiver ocupada, embaixo da mesa. Vivi uma infância entre familiares que em sua maioria sempre cultivou receios pelas trovoadas.

Mas de que virá este medo? Será apenas pelo perigo real? Se realmente fossem muitos os acidentes verificados em decorrência dos choques das nuvens, portadoras de energia contrárias, aí se pudessem levá-las em consideração, aceitando-se o temor dentro dos limites da razão. Mas levante-se uma estatística e ver-se-á que são poucos os acidentes ocorridos durante toda a quadra invernosa. Muito de raro em raro morre uma pessoa fulminada por um raio... e esses que morrem assim, em razão de uma lei física, não chegam a ouvir o barulho do trovão. E por que então, sabendo disso, mantemos medo?

Após ouvir a reportagem do seu modesto informante sobre os efeitos do grande trovão de Pacatuba, passei a buscar razões que me servissem de argumentos para uma tentativa de explicação desse terror coletivo. A verdade é que o trovão amedronta. Não adianta a voz do povo dizer que é "São Pedro fazendo as arrumações dos móveis no céu". Quando o relâmpago clareia o lugar onde estamos, mesmo se tendo certeza que mais nada de anormal acontecerá, é do trovão que sentimos medo. Ouvindo-o estalar e correr em atropelo pelo céu, sentimo-nos diminuídos, acovardados, a respiração agitada, o pulso rápido. Desaparece, como por encanto, aquele transbordamento de alegria popular pelo inverno. As pessoas idosas recolhem-se aos quartos e oram. Outras procuram ver atrás das portas fragmentos de orações que livram os de casa contra a tormenta dos céus.

Dom Luiz Antônio de Souza, o Morgado de Mateus, (lemos em Folklore dos bandeirante, de Joaquim Ribeiro), em missiva a Pomba, no ano de 1768, procurando explicar a epidemia que ali grassava, dizia: "Eu atribuo essa interperança aos contínuos relâmpagos que continuamente se viram cintilar por todos os meses em que por cá costuma ser o inverno, durante estes meteoros até chegaram a formar no hemisfério desta cidade uma terrível trovoada". E a explicação certamente não ficava somente restrita aos relâmpagos: a respeito da endemia de lepra que acometeu São Paulo, ainda por essa época, o mesmo Morgado buscou motivo dela no "maligno influxo das estrelas".

Como se vê o próprio céu — o que possuímos de mais bonito e impressionante — sempre teve seu reverso inquietante. Eestrelas, relâmpagos, trovões, o sol, cometas, através dos tempos, não deixaram jamais de atormentar a humanidade. As estrelas, inspiradoras dos poetas, para os antigos não eram corpos materiais como a terra. É o que nos lembra o autor de Estranhas superstições e práticas de magia, acrescentando: "Platão fala delas como 'deuses'. Durante todo o período medieval, quando a crença na astrologia era praticamente universal, as estrelas ainda eram consideradas como forças espirituais ativas sobre o homem".

Utilizemos ainda o conhecimento alheio, Brewton Berry, que escreveu Você e suas superstições, esclarece-nos: "A natureza não usa sempre os mesmos sinais e símbolos para falar aos homens, muitas vezes, ela escolhe coisas elevadas, no seu reino — cometas, estrelas, lua, raio, eclipse, em Sumatra, avisa aos nativos próximas calamidades. Os cometas mostram aos akambas africanos que a morte e a fome vão chegar; a palaungas, predizem a guerra. A volubilidade dos cometas faz com que a Natureza use o arco-íris como porta-voz:

Arco-íris de noite, marinheiros alegres
Arco-íris de manhã, marinheiros alertas

E a lua? Que poderes possui? Sua influência é considerável. O agricultor teme seus efeitos; o doente piora na lua cheia. Afiança o povo que, quem é doido deita a correr quando a lua surge com força. E as mulheres? Seu próprio corpo padece sob os efeitos da lua. E a nos ensinar tudo que a lua pode fazer, aí está o Lunário perpétuo, cita Nicolau Florentino "médico peritíssimo", em seu capítulo dedicado ao "juízo das enfermidades pela idade da lua": "para julgar o sucesso da enfermidade se hão de saber duas coisas. A primeira, o próprio dia em que começou a enfermidade, ou se sentiu mal disposto; e a segunda, o dia da conjunção perpassada. Sábias estas duas coisas bem e finalmente, se verão os dias que houver, desde o dia da conjunção até o dia em que começou a enfermidade, inclusive".

Exemplo: "Se alguém enfermar no próprio dia da conjunção da lua, se há de temer até o dia 14, 21 e 28, dias de sua enfermidade, porém depois melhorará da saúde". E por aí vai o livro responsável em parte pelas superstições e crendices que povoam a mente do nosso homem do campo que vê nas manifestações celestiais pronunciamentos de forças misteriosas, conflito eterno, entre os gênios do bem e do mal. O trovão é ruído, é rompimento da normalidade. Dá a idéia de insatisfação de Deus, do castigo. A alma sertaneja, moldada num misticismo que coloca as populações rurais muitas vezes a caminho do fanatismo, mal aprende o que tentam agora os missionários explicar sobre os castigos a que estamos sujeitos. O demônio é a força maior, do mal, manifestando-se com trovoadas, coriscos etc. A idéia do chão tremer quando o cão se enfurece está presente até nos versos populares:

O negro soltou um grito
Ali desapareceu
Uma catinga de enxofre
A casa toda se encheu
Os cães uivavam na rua

O chão da casa tremeu

Não é de estranhar que o povo simples de minha terra ainda esteja, a esta altura dos acontecimentos, relembrando, com temor, o trovão de estalo que ouviu.

(Campos, Eduardo. "Folclore: trovão e medo". Estado de Minas. Belo Horizonte, 20 de março de 1956)

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