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Meteorologia

O manda-chuva

O bom caipira, que vive em contato direto com a terra, sabe da importância de uma chuva ou de um dia de sol, e desde cedo acostuma-se a olhar as fases da lua, a interpretar os fenômenos da natureza. O ritual meteorológico popular é a mistura de crenças religiosas e de outras tradições, que vai passando de geração em geração.

Cada região tem seu santo forte, que interfere no andamento do tempo — em alguns lugares é São Jorge, em outros é Santo Antônio, às vezes a crença em São Benedito é maior, e também São Sebastião costuma ser rogado.

Começou a faltar chuva, o povo inquieta-se e põe-se a fazer novenas todas as noites, suplicando a seu santo para salvar a colheita. O padre capelão está sempre à frente, dirigindo as rezas, as procissões e as ladainhas. Quando o santo tarda a atender o pedido, o caipira não desiste e em muitos lugares, além da penitência que pratica voluntariamente, dá um castigo ao santo, mudando-o de capela, ou virando-o de costas. A crença é que, aborrecendo-se de ter saído do seu nicho, onde foi sempre venerado, ele manda chuva copiosa, a fim de voltar à sua capela.

O padre quase sempre permite e avisa aos fiéis o dia em que devem ir buscar o santo. É enorme o comparecimento do povo para assistir à cerimônia. Às vezes, mal chegam com o santo castigado à cidade, a chuva cai, abundante. Terminadas as chuvas, voltam com o santo para o altar de onde foi tirado, acompanhando-o com cantos e rojões.

Os caipiras costumam dizer: "A chuva braba cai no dia 2 de fevereiro, dia de Nossa Senhora das Candeias, e a chuva miúda no Natal. Vento seco no dia de São Bartolomeu, 24 de agosto. A primeira chuva nós a esperamos no dia 8 de setembro, que é o dia de Nossa Senhora das Brotas".

Orações para chamar chuva

Ó meu Deus, ó meu Sinhô, vós por nós óie e tenha dó. Vós nos dá chuva que nos móie e dá o pão que nos console. Tenha dó dos inocentes, não deixai morrê a fome, nem a fome nem a sede. Sinhô Deus de misericordi.

*

Virge Santa, vós venha me remediá, vós nos dá a chuva que nos móie e dá o pão que nos consola. Vós tenha dó dos anjo inocente, não deixai morrê de fome, nem a fome nem a sede. Não deixai morrê a fome. Misericordi Sinhô.

*

Sinhora Santana, socorrei nós da miséria, sinhô deus di misericordi. Minha Sinhora Santana vós socorrei nós da miséria. Vós tenha dó dos inocente, não deixai morrê a fome, nem a fome, nem a sede. Sinhô Deus di misericordi.

*

Santa Madalena. Madalena Santa, ó Virgi, sinhora, vós nois dai chuva na terra, Santa Madalena, Madalena Santa, peço pra vós chuva na terra. Santa Madalena, Madalena Santa, pede a Virgi Sinhora, que nos dê chuva na terra

Mas também assim

Buscar água em canequinhas ou tigelas no rio e despejá-las na santa cruz de beira de estrada e ajoelhar para rezar.

Novena e dar para uma criança lavar os pés dos santos.

Fazer procissão passando pelos quatro cantos da roça.

Colocar Santo Antônio de cabeça para baixo no sol quente.

Fazer uma cruz de cinza no quintal. É bom recolher-se logo, pois virá mesmo chuva.

Matar sapo é ter chuva na certa.

Matar sapo, colocá-lo de barriga para cima.

Pisar em formigueiro chama chuva.

Cantar desafinado traz chuva (ou chama chuva).

Quando não querem trabalhar e o patrão não se esconde da chuva, os caipiras dizem: "Bata chuva grossa, porque da fina o patrão não gosta". Ou então: "Mandai Mãe de Deus, mandai, São Pedro, destampa a porta do céu, derrama o pote".

Pedra de raio não presta em casa, porque quando começa a chover, ele está em cima da terra. Não presta ter braças, depois de sete anos ela está em cima da terra. Não presta ter a pedra de raio (machado de pedra) em casa, pos atrai raio.

Quando chove, não presta falar o nome do raio: é chamá-lo!

Jacarandá chama raio, não preta fazer batente de porta com essa madeira. Para a casa deve-se usar aroeira, que não chama raio.

Nem se deve ter cachorro nem gato perto, na hora da chuva; o pêlo deles tem eletricidade que atrai o raio.

Não presta olhar no espelho que atrai raio. Quando chove, deve-se cobri-lo.

Quando se colocar uma galinha para chocar, deve-se riscar os ovos com carvão para que os raios e trovões não os gorem.

"São Barnabé, lá no alto da serra, manda chuva na terra pá num dexá os inocentes morrê de fome". Rezar uma Salve Rainha e "Ó Virge Santíssima", que a chuva virá mesmo.

Mudar Santo Antônio de lugar no oratório é chuva na certa.

Como parar

"Senhô, meu Jesus, amado de todo meu coração, trago-vos o meu coração guardado, por toda a santa fé que tenho em vós. A chuva que vóis mandô pra nóis já chega, agora peço pra vóis uns dias de sor pra tempero da chuva e depois o Senhô Amado meu Jesus vós sabe do meu coração e eu não sei do coração de vóis, pela santa fé que tenho em vóis, tenho certeza que vóis me favorece, por este meu pedido que peço pra vóis. Pelas dores da vossa Mãe Santíssima, vossa amorosa mãe, pelo amô da Virgi Santíssima nossa soberana, pelo amô de vóis que este meu pedido será aceito que vóis está aqui no meu coração guardado e vóis me favorece, Sinô Deus de Misericordi."

Maneiras de afastar

Jogando-se farinha com açúcar sobre um formigueiro de formigas ruivas. Dizem que as formiguinhas alvoroçadas e expostas ao relento passam a rogar a Deus que fala vir o sol o quanto antes.

Queimar palma benta é bom para fazer passar a tempestade, chuva de trovoada.

Abrir o oratório e acender vela benta.

Pondo-se um São José na chuva, ela parará logo.

Olhar para o lado onde vem a trovoada; tirar o sapato do pé direito; andar de um lado para outro, rezando a oração de Nossa Senhora do Parto... e a trovoada cessa. Caso demore, fincar no chão um machado encabado até o "olho". A trovoada muda de rumo.

Quando dá relâmpago, dizer: "Valei-me, São Jerome e Santa Barba", ou então: "Valei-me, Santa Narba e Sanjerome, quem num tem barba, num é home".

Para acabar com a chuva: "Santa Barba, Santa Virge, lá do céu tem três escrito, cheio de água benta que arreponta essa tormenta". Dizer três vezes, benzendo-se e olhando para o lado da chuva, que ela vai-se embora.

Para parar de chover é bom colocar um ovo para Santa Clara. Deve-se pedir à santa: "Santa Clara faça sol, para enxugar o meu lençol".

Crenças

Chover no dia do casamento significa sorte para o novo casal.

Comer na panela é ter chuva no dia do casamento

Bode espirrando muito, vôo rasteiro e entrecortado de anu, ou grito de tucano no mato, é sinal de que a chuva logo vem.

Quando se vir um burro, se ele mexe muito com a orelha, chove, e se não mexe, pode estar fazendo o tempo feio que estiver, não virá chuva.

Pêlo de animal molhado chama raio. Cigarra quando canta muito está chamando chuva. Macaco quando pula da árvore no chão é porque as folhas vão cair, sinal de mudança de tempo. Mosquito voando muito é chuva que vem. Dor nos calos e nas juntas, quebraduras, chuva próxima. Vento sul traz chuva. Quando morre uma pessoa, se chover é porque ela era muito bondosa.

Manhã ruiva, ou vento ou chuva. Céu pedrento, chuva ou vento. Quando a chuva começa na minguante vai até o mês entrante. Bugio ronca na serra, chuva na terra. Lua com circo, água traz no bico. Circo (círculo) na lua, lama na rua. Ventania que chuva não deu, é algum podre que morreu. Sol com chuva, casamento de viúva. Chuva com sol, casamento de espanhol.

Mostrar o arco-íris com o dedo traz verrugas. Arco-íris em seguida à chuva faz mudar de sexo o menino ou menina que passar por baixo dele. Não há sábado sem sol, domingo sem missa e segunda sem preguiça, como não há sábado sem sol nem velha escarangada sem dores e moça bonita sem amores. Vendo uma estrela cair, pedir três coisas antes que ela desapareça, que o pedido será realizado. Quando vir o rabo de estrela (cadente) não contar a ninguém durante sete anos para não morrer de morte trágica. Caminho de São Tiago passando por cima da casa, se tiver filha moça, sinal de que vai se casar logo.

 

("O manda-chuva". Diário de Minas. Belo Horizonte, 29 de abril de 1966)

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