Como as aves que vagueiam
No seio da noite escura,
Assim serão meus suspiros
Sobre a tua sepultura.
Eu sou triste como o luto
Que cobre os tenros filhinhos,
Que na pobreza perderam
Da terna mãe os carinhos.
Dizem que almas não morrem,
São imortais... não têm fim...
A minha faz exceção,
'Stá morta dentro de mim!
Eu sou a tocha do morto
Com a luz já quase extinta,
Ou como a negra mortalha
Que por preta não se pinta.
Brilhava em céu azulado...
Negra nuvem me toldou...
Por perder quem me seguia,
Minh'alma aflita chorou.
De tanta terra enfeitada,
A terra que menos brilha,
É a porção que hoje cobre
Os restos de minha filha!
Erguei-vos flores da noite,
Tristes rosas da manhã;
Velem umas sobre as outras
O túm'lo de minha irmã.
Sempre foste minha estrela;
Eu com gosto te seguia;
Na tormenta te apagaste,
Fiquei sozinho e sem guia.
Envolto em tua mortalha
Meu coração tu levaste,
Antes contigo se fosse
A vida que me deixaste.
Morreste silencioso,
De ninguém te despediste;
Do mundo nada quiseste,
Ao mundo nada pediste.
A minha alma não morreu,
Desfaleceu no transporte,
Na ocasião do gemido
Que meu irmão deu na morte.
O' minha irmã Felisberta,
Se com a nossa mãe falares,
Não contes meus sofrimentos
Pra não lhe dar mais pesares.
Desabrochou de manhã,
De tarde se despediu;
Fiquei na noite sombria
Por onde ela se sumiu.
Meu filho, nada te fiz...
Por me faltar a ventura,
Foste pedir agasalho
Na terra da sepultura.
Minha mãe, entre seus filhos
Se lembre de mim um dia,
Que dos ramos que eles formam
Eu sou a flor mais sombria.
Descansa, esposo querido,
A par de Deus tão divino;
Pede-lhe, sim, que melhore
O meu infeliz destino.
Quando morreu minha Rosa,
O mundo ficou sem luz;
Porém ficou minha mãe
Pra carregar minha cruz.
Num ermo triste, isolado
Eu choro minha orfandade,
Pois assim deve fazer
Quem tem su'alma em saudade.
Eu sou triste como é triste
A sombria parasita,
Que sobre a terra do morto
Sua sombra deposita.
Pede a Deus por tua mãe
Meu pobre filho querido,
Que sobre a terra ela fica
Com o coração tão sentido.
Da terra voaste ao céu
Pra gozar a claridade;
Pede, esposo, ao Criador
Tenha de mim caridade.
Às vezes pareço crer,
Quando a terra flores dá,
Serem as cópias fiéis
Das flores que existem lá.
Sou triste como a caveira
No cemitério rolando,
Que vai com o correr do tempo
Em negro pó se tornando.
Sobre a tua sepultura
Um frouxo raio da lua
Parece a gota do pranto
Celeste, na terra tua.
Tu foste nuvem dourada,
Mas o sol te dissipou;
Como guardavas minh'alma
Contigo se desmanchou.
No canteiro de minh'alma
Plantei roxa maravilha,
Ao depois que te perdi
Adoro mais tua fllha.
Sou triste como a tesoura
Que corta a negra mortalha,
Ou da cova a dura terra
Que sobre o morto se espalha.
Quem chorará no sepulcro
De quem na vida foi só?
De quem tantas vezes triste
De si mesmo teve dó?
Quebrem-se os selos da campa,
De um Deus o poder e brilho;
Vem, Maria, abençoar
Tua afilhada e teu filho!
Se queres saber se eu choro,
Me empresta a tua mortalha,
Com ela enxuga o meu pranto
E o nosso filho agasalha.
Debaixo da terra fria
Contra o teu rosto de dó,
Mais aumenta a minha pena
O me lembrar que estás só.
As saudades que te trago
Foram da terra arrancadas,
Mas as que tenho por ti
Então n'alma enraizadas;
Ao passo que as que te trouxe
Como tu morrem também,
Minh'alma por infeliz
Bebe vida nas que tem.
Dorme, dorme, meu bom pai,
Descansa onde a estrela brilha,
Que ao trono de Deus irão
As preces de tua filha.
Se morreste para o mundo,
Não morreste para mim;
Eu seguirei teus caprichos
Até meus dias dar fim.
Os meus prazeres morreram
Quando morreu minha bela;
Dão hoje causa a meu pranto
Saudades que tenho dela.
O' flores que junto à campa
De meu filho vicejais,
Sede fiéis transmissoras
Dos meus doloridos ais!
Ao filho que a mão da morte
Roubou com desgosto tanto,
Contai as tristezas minhas,
Meu sentimento e meu pranto!
Aqui descansam os restos
De meu filhinho adorado,
— Botão de flor de rninh'alma
Tão rudemente arrancado.
Sorriam flores no prado,
Tu lutavas na agonia;
Antes da tarde morreste,
As flores no fim do dia.
Pra resistir tua falta
Minh'alma não tem coragem,
Só se iludido pensar
Que não perdi tua imagem.