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Tema do Mês

Novembro 2008 - Ano X - nº 118

Sumário

Velório da cruz

Não quero choro nem vela

Ritos de purificação

Um capítulo de nosso folclore poético

O cemitério novo; Funeral pagão; Festividades religiosas; Comemoração dos mortos

Da morte e dos funerais dos índios

 

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Finados

Um capítulo de nosso folclore poético

Aluísio de Almeida

Trata-se das excelências, chamadas pelo povo da roça de encelências, por corruptela.

No chamado norte do Estado, ou melhor, vale do Paraíba, da região mais antigas, se destaca Silveiras, que virou cidade morta, desde os episódios trágicos de 1842, cerco de um conservador num sobradinho que ainda lá está e verdadeiro combate de liberais com soldados legalistas vindos diretamente do Rio de Janeiro (província e cidade). Descendente das famílias fundadoras, a professora Maria de Sene de Carvalho conhece bem a sua terra montanhosa e a gente montanhesa, mais segregada das outras gentes, mais conservadora de antigos costumes.

Pois as excelências são quadrinhas cantadas no guardamento dos defuntos, após o cantar dos galos, para espantar o sono. Compõem-se, geralmente, do número fixo de 12, mais ou menos sabidas por todos, e essencialmente religiosas. Além dessas, improvisam à vontade mais excelências, também quadrinhas religiosas. Para os dois casos, aproveitam-se versos já conhecidos dos benditos e orações religiosas, com alguma modificação mais profana, porém, respeitosa. Enfim, um terceiro modo de fazer as excelências é parodiar as quadrinhas religiosas com assuntos leves e, por vezes, cômicos.

Para bem entender todo esse tríplice processo, é preciso lembrar que o guardamento do defunto é uma reza cantada, com o terço, os benditos, as ladainhas. O tom, a toada desses cantos é tristonha e comovente.

Agora, passada a meia-noite, transformam, lá em Silveiras, o tom dessas rezas, ou talvez só a letra, em coisas mais leves, cada vez mais leves, até ficarem quase alegres, satíricas. A interpretação do curioso costume tem de ser a da informante: espantar o sono que vem pesando após meia-noite. O sono não se vence com a repetição dos comoventes benditos que, como O Senhor amado, fariam chorar as pedras. É preciso manter o espírito vivaz, atento.

Excelências fixas:

Bendita sejais
Senhora das Dores
Coroada de estrelas
Cercada de flores

Uma excelência
Da mãe de São Mateus
Pegai esta alma
Levai-a com Deus

Uma excelência
Do meu São Joaquim
Santa Teresa
Senhor do Bonfim

Exemplos de excelências improvisadas:

Quando for à missa
Passe por aqui
Senhor Crucificado
Eu vim aqui beijar

Uma excelência
De São Serapião
Tomara que venha logo
Café com pão

Exemplo de excelências em paródia:

Virgem Santíssima
Vós não permitais
Que eu viva no mundo
Pra bobo dos mais

Pra bobo dos mais
Não hei de viver
Que perna boa
Terei pra correr

Aqui vão as duas belas quadrinhas parodiadas:

Virgem Santíssima
Vós não permitais
Que eu viva nem morra
Em pecado mortal

Pecado mortal
Não hei de fazer
A Virgem Santíssima
Me há de valer

O autor não esqueceu nem mesmo de repetir o quarto verso, fazendo-o o primeiro na quadra seguinte.

A propósito, é de cinco sílabas a métrica das orações e benditos antigos. Tendo estudado a coleção das poesias de Anchieta, feitas para serem cantadas, notamos logo essa medida e podíamos procurá-la entre os poetas dos séculos XV e XIV. É a redondilha maior. E sobre o fato da repetição do verso anterior, carece lembrar que, nas poesias do desafio, o poeta é obrigado a repetir o último verso do companheiro; é uma técnica que podia ser usada para as poesias religiosas também.

Apraz recordar ainda o hábito de parodiar orações como o Padre nosso e o Credo, existente na Idade Média e até hoje, por exemplo, na França. Trata-se, pois, de uma interferência de um elemento folclórico, essa paródia, com outro, as excelências, de sorte que, a priori, será possível existirem estas, independentemente daquelas. Em seguida, a ocasião dessas quadrinhas cantadas: foi o ato religioso do guardamento. É lícito concluir sobre a possibilidade do costume em outras rezas. São hipóteses de trabalho e orientação para novas pesquisas, a quem se interessar por assunto tão curioso. O interesse aumentaria se se pudesse registrar o costume noutras zonas. A palavra excelência não pode ser, senão boas qualidades, elogio de boas qualidades de alguém. Porém, segundo o costume tão bem caracterizado, é um louvor seguido de versos jocosos. O mistério da existência humana entre risos e lágrimas. O povo é, como se tem dito, uma criança grande. E que cena engraçada a da criança, que já está rindo através das últimas lágrimas do choro precedente!

Bem. Encontramos em outras regiões, reminiscências desse costume no teor dos versos, ao menos. Em várias zonas de todo o Estado, ao final das rezas em honra dos santos e da santa cruz, o capelão põe-se de lado, convida os fiéis para "beijar o santo" e, enquanto o fazem, entoa cantos que diferem dos outros, em serem menos religiosos quanto ao assunto. Onde há órgão, harmonium, orquestras, toca-se uma alegre despedida nas igrejas.

Eis aqui uma reminiscência de versos:

Ó, excelência
Da Senhora da Bahia
Os anjos lá no céu
Estão cantando de alegria

Note-se como uma das quadrinhas silveirenses fala expressamente em beijamento do crucificado. E já que não se usa beijar a cruz na reza de guardamento, o que passou para esta reza em particular, vindo das outras em geral, foi o canto sem o gesto, o canto das excelências. E, contudo, sempre fica o inesperado da transição para versos alegres, os quais, se não fazem parte das excelências gerais, são indispensáveis nas excelências de defuntos.

Uma explicação da informante: seria louvor indireto ao defunto. Aliás, morreu? Era um santo. É costume antigo conversar sobre os gostos e hábitos do morto.

Não sendo muita coisa a nossa biblioteca de folclore, não pudemos encontrar nos autores a menção das excelências. Oxalá fosse ainda coisa inédita, valorizando a pesquisa de dona Maria de Sene! Assim o cremos. Que é uma excelente informação, não há dúvida.

(Almeida, Aluísio de. "Um capítulo de nosso folclore poético". O Estado de São Paulo. São Paulo, 24 de agosto de 1948)

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