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Tema do Mês

Novembro 2008 - Ano X - nº 118

Sumário

Velório da cruz

Não quero choro nem vela

Ritos de purificação

Um capítulo de nosso folclore poético

O cemitério novo; Funeral pagão; Festividades religiosas; Comemoração dos mortos

Da morte e dos funerais dos índios

 

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Finados

Ritos de purificação

Guilherme Santos Neves

É bem conhecida a velha praxe ligada à morte, segundo a qual quando morre alguém numa casa, logo após a saída do corpo, toda a água que se contém nos potes, moringas ou filtros, deve ser lançada fora. Na praia de Manguinhos, anotamos o mesmo ritual, no seguinte registro: Quando morre alguém num lugar (aldeia, vila, povoação), no dia seguinte, todos os potes, garrafas, talhas e latas de água devem ser esvaziados, porque o defunto tomou banho em todos eles. Idêntica crendice é corrente também em Caçaroca (Cariacica), segundo nos informa Dalmácia Ferreira Nunes.

Essa crendice, tão ingênua e simplória, não é só da gente humilde de nosso interior. Há tempos, divulgamos através deste jornal (A Gazeta, edição de 4 de novembro de 1959), o fato aqui observado na morte de um cigano, cujo grupo acampara ali na "Capichaba": "Logo que se verificou a morte do velho cigano, todos os potes, bacias e vasilhas que continham água e se encontravam na barraca, foram esgotados do seu conteúdo, mantendo-se assim até a saída do enterro". Nessa mesma ocasião, referimos tópicos do que escrevera Câmara Cascudo em Superstições e costumes (Rio de Janeiro, 1958), acerca de "Um rito fúnebre judaico". O eminente folclorista de Natal ali dá notícia de que, entre os judeus, era comum derramar ou mandar derramar a água dos cântaros e potes, quando alguém morresse – praxe vigente também em Pernambuco, conforme o refere à página 221 desse seu interessante livro.

A mesma praxe vejo registrada no clássico livro do folclorista francês Arnold van Gennep, Manuel de folklore français contemporain (Paris, 1946). Trata-se – segundo o consagrado mestre, – de um velho rito de purificação, segundo o conceito "contagionista", que considera a morte "como uma qualidade positiva, transmissível por contato, e que deve ser eliminada pelos meios apropriados, a fim de preservar os vivos" (tomo 1, v.2, p.655). Mais adiante, van Gennep, ao referir a prática preservativa generalizada na França (lançar fora a água que se acha quer no quarto do defunto, quer em outros compartimentos da casa) – localiza o costume em inúmeras regiões francesas, entre as quais, Alsácia Lorena, Normandia, Quercy, Picardia, Ilha-de-França, Gasconha, Sabóia, Bretanha, Limosina, Turene...

A razão por que se esvazia a água nesse ato de purificação varia, conforme o testemunho de van Gennep. escreve ele: "porque a alma passa por esses líquidos (água ou leite), quando se vai"; "porque a alma poderia aí afogar-se"; "porque nessa água, a alma lavou seus pecados e impurezas"; "porque a alma demoraria mais tempo na terra, até beber a água", etc. (p.674 e seguintes)

Pensam do mesmo modo que a gente humilde de Caçaroca e Manguinhos (tais como os antigos romanos, "que supunham vir a alma lavar-se no leite" (Van Genneo, obra citada, p.675) – os camponeses citadinos de Anjou, Berry, Borgonha, Champanha, Malne, Langedoc e de outras partes da França.

Pode-se incluir também entre os ritos de purificação dentro da concepção contagionista de que nos fala van Gennep, outro antiquado costume corrente entre nós (Barra do Jacu): Quando o defunto é levado de casa para o cemitério, pessoas amigas – não parentes do morto – devem logo varrer a casa, atirando fora o cisco. Mas é preciso que essa limpeza não se faça com o defunto ainda em casa, porque senão – reza outra crendice capixaba – corre-se o risco de varrer, juntamente com o lixo, a própria alma do defunto.

Lê-se, em Adré Ruffat, La superstition à travers les ages (Paris, 1951, p.46), que na Austrália, como em todas as sociedades primitivas de África e América, costuma-se, com o mesmo propósito de purificação, queimar os objetos que pertenceram ao morto, e lavar todos os utensílios da casa. Estiveram eles em contato com o falecido, e "o que tocar no cadáver ao cadáver pertence", como o confirma mestre Câmara Cascudo, repetindo a sábia voz do povo (Anúbis e outros ensaios, Rio de Janeiro, 1951, p.17).

A água onde se lavou a alma do morto, a poeira ou o cisco do ambiente em que ele respirou e viveu, os seus pertences e coisas do seu uso pessoal, devem ser destruídos ou jogados fora da casa, porque com essa água, com esse pó e esses utensílios e pertences teve contato o morto, e esse contágio lhes transmitiu a letal influência da Morte indesejável...

(Neves, Guilherme Santos. "Ritos de purificação". A Gazeta. Vitória, 12 de novembro de 1966)

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