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Tema do Mês

Novembro 2008 - Ano X - nº 118

Sumário

Velório da cruz

Não quero choro nem vela

Ritos de purificação

Um capítulo de nosso folclore poético

O cemitério novo; Funeral pagão; Festividades religiosas; Comemoração dos mortos

Da morte e dos funerais dos índios

 

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Finados

Não quero choro nem vela

Guilherme Santos Neves

Dos portugueses recebemos como lembrança das mais antigas e firmes, o uso da vela de estearina ou cera em quase todos os atos e ritos ligados à morte.

Com vela acesa nas mãos é que se prepara, ainda hoje entre nós, o agonizante para a jornada. Tão constante e difundido o costume, que se tornou proverbial a expressão: estar com a vela na mão, isto é, estar à morte ou a morrer. Outrora, em vez de vela, dizia-se candeia. Lá está no Auto chamado da Lusitânia, de Gil Vicente, representado "na era do Senhor de 1532":

Nem sentem as criaturas
Que há de morrer sem candeia
E expirar às escuras
Como triste em terra alheia...

Aliás, tal hábito figurava até em certos estatutos ou compromissos velhos. Por exemplo, no Compromisso do Hospital das Caldas, em Portugal, datado de 1512: "E quando o enfermo estiver assim, em passamento, o vigário lhe porá um círio aceso na mão direita..." (Glossário apenso às Obras completas de Gil Vicente, nota de Marques Braga, Lisboa, 1944, v.6, p.274).

Aqui no Brasil é corrente o costume. No excelente estudo de Téo Brandão, Cantos e ritos funerários de Alagoas, publicado pela Rivista Folklore (Nápoles, ano 10, fasc.1-4) se registra o uso da vela na hora extrema: "Aproveitando-se de uma vertigem ou desmaio do 'enfermo', o exaltador (exortador, aquele cuja função é exortar ou ajudar o moribundo a morrer, o moribundo na hora da passagem para a outra vida), o exaltador chama a família para assistir-lhe à morte. Acende uma vela, coloca-lhe à mão..." (p.31)

Aliás, em todo o Nordeste assim se procede. Confirma-o, por exemplo, Getúlio César, em Pernambuco, no livro Crendices do Nordeste (Rio de Janeiro, 1941, p.137) e Carlos B. Ott, na Bahia, em Formação e evolução étnica da cidade de Salvador (Salvador, 1955, v.1, p.139).

A razão por que se procedia e se procede assim com os agonizantes é sabida, creio.

Em nota de pé de página ao Auto dos anfitriões, o professor Hernani Cidade esclarece: "Punha-se a vela à mão dos moribundos como símbolo litúrgico da iluminação pela fé religiosa" (Obras completas de Luís de Camões, Lisboa, 1948, v.3, p.20). O povo, porém, entende de outra maneira o velho ritual. Para ele, "acende-se uma vela e põe-se na mão do moribundo que podia morrer sem os sacramentos, mas não pode dispensar a velinha para alumiar-lhe o caminho eternidade a fora". (Téo Brandão, idem, p.31). Carlos B. Ott, em seu citado livro (p.198), entende que tal costume "é inspirado pela idéia antiga de afastar os maus espíritos, para a alma poder seguir sossegadamente o seu caminho que leva para o reino dos mortos".

Podemos acrescentar outra opinião séria, embora não diretamente ligada ao ato que antecipa a morte. Em sua famosa obra, La rama dorada, sir James Georges Frazer, ao focalizar, no capítulo 39, o "Ritual de Osíris", fala de uma importante cerimônia ao tempo de Plutarco. Diz assim: no Egito, havia intensa iluminação noturna em louvor, ou remembrança dos mortos, "as pessoas acendiam lâmpadas de azeite postas nas fachadas das casas e que ardiam toda a noite"; e relembra aí, "a difundida crença, segundo a qual as almas dos mortos visitam seu antigo domicílio em uma noite do ano, e nessa ocasião solene, todos se preparam para a recepção aos espíritos, deixando fora das casas, alimentos para os mortos, e acendendo lâmpadas para guiá-los em seu sombrio caminho", até à casa e de volta ao sepulcro. (La rama dorada, México, 1944, p.450)

Também no velório usam velas. A cena é comum em toda a parte. Câmara Cascudo a ela faz referência em Anúbis e outros ensaios:

"Preparado o corpo, disposto o caixão, acendem-se as velas, queimando-se incenso, guardam os amigos e a família o morto durante as horas que antecedem o sepultamento". (Rio de Janeiro, 1951, p.18)

Nesses velórios, às vezes, se entoam as dolentes incelências e benditos. Téo Brandão recolheu, em Alagoas, "um dos mais belos benditos que ouvi(u) cantado a duas vozes". (Obra citada, p.30)

Nele, se fala de velas:

Na segunda-feira
eu vi Jesus com seus discipros
Na igreja do Horto
acompanhá a Santa Cruz

É tanta lampa
é tanta vela, é tanta luz
Tudo são candeia
que alumeia o Bom Jesus

Também o professor Renato Pacheco registrou os seguintes versos de um velório, ou sentinela, de criança, ou anjinho, ouvidos em Mucurici (A Gazeta, 19 de janeiro de 1958):

Este anjo morreu
numa noite escura
Pediu uma vela
pra sepultura

Ele é de Deus
é da piedade
Ele não quer choro
nem também saudade

Tal como o "anjinho" que "não quer choro" nem saudade, o adulto, por vezes, dispensa essas lembranças terrenas. Dalmácia Ferreira – de saudosa memória – dizia para nós esta conhecida trovinha popular, que ela ouvira em Caçaroca, sua terra:

Quando eu morrer
Não quero choro nem vela
Quero uma fita amarela
Marcada com o nome dela

(Neves, Guilherme Santos. "Não quero choro nem vela". A Gazeta. Vitória, 02 de novembro de 1969)

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