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Tema do Mês

Novembro - Ano X - nº 106

Sumário

Retrato do saci

A velha e o saci

O saci em Aparecida

O saci pererê

Pulando numa perna só

Saci

Monteiro Lobato e o saci

 

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Saci Pererê

Monteiro Lobato e o saci

Esses métodos brasileiros de trabalho, sem base, sem estudos, sem responsabilidades, sem seriedade, me dão uma raiva danada. E agora que é moda fazer inquéritos disto e daquilo, — é a propósito de inquéritos folclóricos mesmo que andava eu precisando falar. Ou precisando desabafar, o que dá na mesma.

O que acontece é que, de vez em quando, ao abrir um jornal, deparo com uma seção folclórica (sic), onde um folclorista de gabinete, de boa fé excessiva para um cientista que se preza, pede informações a um problemático leitor, interessado em tradições populares; pede que contem lendas e superstições, pessoas que podem ter ouvido as tais lendas de fontes mais que suspeitas, como programas de rádio pessimamente organizados, ou de reminiscências de leitura.

Recebo, por exemplo, uma carta de Luís da Câmara Cascudo ou de Amadeu de Queiroz e sei que eles entendem bastante do riscado. Vaqueiros e cantadores e outros livros, do primeiro, indicam uma orientação séria, um rumo sem desvios. Amadeu de Queiroz não é folclorista, mas em João e em Voz da terra, além dos seus Contos de Carimbamba, dá-nos uma notícia fiel da terra, da sua gente e dos seus costumes. Mas, se recebermos uma carta de um João da Silva, ou de um Antônio de Oliveira quaisquer, postada em qualquer canto do mundo, como saber se as informações são verídicas. Como saber se não constituem ficção de alguém desejoso de se ver em letra de fôrma. Demais, faltam as indicações principais, imprescindíveis para identificação de informante. Falta a idade, a procedência. É verdade que se pode deduzir da carta o grau de cultura, mas essa mesma dedução é precária. Um analfabeto bem pode pedir a um escriba que lhe redija a carta. Falta indicação do meio que o informante freqüenta. Falta a terminação da zona, se é rural, se é urbana. Falta saber de onde aprendeu a lenda, ou seja o que for que comunique.

Em suma, falta tudo. Como confiar num missivista que não se conhece, cujo nome não se sabe, que não tem crédito na praça literária, e que além disso, talvez não tenha cultura necessária — e é claro que em noventa e nove por cento dos casos não tem — para saber o que é ou o que não é folclórico, dada a confusão e a leviandade com que se tomam os estudos e os assuntos.

O importante, em qualquer caso, é a pesquisa de campo, uma honesta, consciente, determinada e boa pesquisa de campo. O importante é a vontade de trabalhar, que não é muita, no caso dos folcloristas. O importante é estudar, ter base, ter noção de responsabilidade, o que parece não ser desenvolvida nos folcloristas, em média, no Brasil. E também é importante a modéstia. E, acima de tudo, honestidade.

Bem. O trabalho miúdo, de pesquisador, pode não ser de agrado dos senhores letrados. Porém, ele é tão necessário, como é necessário o alicerce numa casa, para repetir uma imagem que já se tornou lugar comum.

Jamais me refiro a esse assunto de pesquisas e pesquisadores, sem que me venha à lembrança o velho exemplo de Monteiro Lobato e o do saci. O saci do criador do Jeca-Tatu nasceu de um inquérito d'O Estado de São Paulo sobre o demônio-mirim de uma perna só. As contribuições foram muitas e variadas. Reunidas formaram o delicioso livro de Lobato, O saci, feito para crianças. Naturalmente, nem tudo se aproveitou. Nem um centésimo, talvez, das cartas recebidas, continham informações de interesse folclórico. No entanto, lendo O saci, observei esta coisa curiosa; tudo o que ali se diz se refere ao folclore valparaibano. O saci de Monteiro Lobato é o saci que existe de Taubaté para baixo, até o início da baixada fluminense. O jeito, o assobio, a cor, as "artes", as lendas, a maneira como nasce, como vive, com quantos anos morre, tudo isso é valparaibano. Será que o mito saci conserva no Brasil inteiro essa unidade, essa integridade, sem variante de lendas, nem da figura, nem do nome? Será que o saci é um só, do Oiapoque ao Chuí?

Os fatos folclóricos desmentem essa suposição. Jamais aconteceu um mito inteiriço, em várias latitudes diferentes, tenha ele a vitalidade do demônio, ou a extensão da mãe do ouro, a sombria fama do lobisomem, ou a moleque atividade do pererê.

Será então que somente a gente do vale se abalançou a escrever para O Estado de São Paulo?

Eu que conheço a minha gente valparaibana sei que isso não aconteceu. Fomos talvez os últimos a dar preguiçosamente a nossa informaçãozinha, depois que o inquérito já estava popular.

Será que o saci é mito privativo do vale?

Disto nem se cogita. Não há mito brasileiro tão intrometido e popular, tão visto, ouvido e sofrido, como esse terrível saci, de negregada fama.

Então qual foi o critério seguido para a escolha, qual a seleção feita, como e por que foram retirados da massa os fatos folclóricos do vale do Paraíba.

Seria porque Lobato era do Vale? Seria essa uma razão? Depois de Urupês, é ocioso responder a uma questão posta nestes termos.

Então?

Então é que Lobato tinha a intuição do genuinamente popular. Sendo valparaibano, conhecendo o meio rural, sabia distinguir o que era tradição do que não era. Tenho a impressão de que ele aproveitou o já ouvido. Que as informações lhe reavivaram a memória. E que criou esse saci tão plástico, tão verídico, tão vivo, tão saci-pererê porque já o conhecia, já tinha brincado com ele em terreirão de fazenda, em quadras de bater café, atrás das touceiras de taquara poca; já lhe tinha, talvez, algum dia escondido o gorro e o pito, ou dado com o negrinho zoiudo de uma perna só, algum galope temerário, por esses caminhos de pedra e buraco.

Monteiro Lobato era o Pererê do Vale. Como herói brasileiro, genuíno, tinha as suas grandes qualidades e os seus grandes defeitos. Agora o vejo, ora Pererê, ora Macunaíma.

(Guimarães, Ruth. "Monteiro Lobato e o saci". Jornal de Notícias. São Paulo, 10 de junho de 1951)

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