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Tema do Mês

Novembro - Ano X - nº 106

Sumário

Retrato do saci

A velha e o saci

O saci em Aparecida

O saci pererê

Pulando numa perna só

Saci

Monteiro Lobato e o saci

 

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Saci Pererê

Pulando numa perna só

A. J. B.

Não há país do mundo que não tenha incorporado a seu folclore e à sua própria vida, lendas e histórias fantásticas criadas na imaginação do povo. Embora a grande maioria seja de caráter internacional, como as crenças a respeito do lobisomem, dos vampiros e fantasmas de toda ordem, há algumas que têm características tipicamente regionais, originadas que foram do modo de vida em cada lugar.

No Brasil, por exemplo, embora as lendas variem acentuadamente de região para região, em todas pode ser encontrada o que os psicólogos chamam de "busca de uma ilusão" que, segundo a voz popular, "não faz mal a ninguém".

Assim, o negrinho do pastoreio, do Rio Grande do Sul, o uirapuru, do Amazonas, o caipora, da região do Rio Negro e Pará, o saci pererê, da região leste e o boitatá, também do sul, são alguns dos mitos brasileiros já incorporados à música e à literatura do país.

De gorro vermelho

De todas as figuras lendárias brasileiras, a mais popular, sem dúvida, é o saci pererê, um negrinho risonho e assobiador, que pula numa perna só, fuma cachimbo e usa um gorro vermelho que lhe dá grandes poderes.

Temido por alguns, que vêem nele uma entidade maléfica, o saci pererê tem sido através dos séculos, o motivo de alegria e zombaria para a garotada que sai à sua procura em dias de ventania.

Conta a lenda que nesses dias, quando há redemoinhos de poeira e folhas secas, o saci aparece no meio deles, dando gargalhadas e assobiando. Embora jamais alguém o tenha conseguido, afirmam os supersticiosos que, quem um dia prender o saci e colocá-lo sem o seu gorrinho dentro de uma garrafa bem fechada e com uma cruzinha na rolha, terá para sempre seus pedidos atendidos por um ente humilde e obediente. Mas, é importante que se tire o gorrinho vermelho, origem de toda a força do tal negrinho.

Quem perde, acha

Já no Rio Grande do Sul, é outra a figura de poderes sobrenaturais: o negrinho do pastoreio.

Contam os gaúchos que há muitos anos havia por aquelas paragens um fazendeiro temido por sua maldade e que tinha a seu serviço um menino escravo, tocador de cavalos.

Certo dia, montando o cavalo de seu dono em uma penca, o negrinho perdei a corrida. Como castigo, recebeu a incumbência de pastorear uma tropilha de trinta cavalos, durante trinta dias, porque trinta braças era o percurso da carreira.

Alta madrugada, vencido pelo cansaço, o negrinho adormeceu. Vieram os guaraxains, roeram as cordas que prendiam os animais e a tropilha fugiu. Quando voltou para casa, o fazendeiro, fora de si, chicoteou o molequinho a mais não poder e, como castigo, amarrou-o pelos pés e pelas mãos, colocando-o num formigueiro. Seria comido vivo pelas formigas. No dia seguinte, porém, para surpresa geral, o negrinho havia sumido e em seu lugar via-se apenas uma grande nuvem. "Milagre", gritavam alguns. "O negrinho é santo", retrucavam outros. E assim, nasceu a figura legendária do negrinho do pastoreio, que segundo os que nele acreditam, faz encontrar qualquer objeto perdido, uma vez invocando seu nome.

Som de cristal

Na Amazônia, é o uirapuru, um pássaro pequenino, pouco menor do que o canário, de cor verde-oliva e cauda avermelhada, que serve de talismã para muita gente.

Quando ele canta, com um som que se assemelha ao do puro cristal, os demais pássaros da floresta se calam e, pouco a pouco, vão se aproximando, numa atitude de respeito e veneração pelo "protetor das aves".

Dizem que quem consegue matar o uirapuru e guardar-lhe as cinzas, terá amor garantido por toda a vida.

Anão justiceiro

Pela região do Rio Negro, Solimões, Tapajós e por todo o Pará, há uma figura conhecida por ser o defensor da caça e da floresta. É o caipora, também chamado de curupira, responsável segundo afirmam os caçadores, pelo temor que se apossa de quem entra pelas matas.

É um anão de pés revirados e calcanhares para frente e com o corpo coberto de pêlos. Há ainda quem afirme que ele tem um olho só e que seus dentes são azuis ou verdes.

O caipora só admite a caça para matar a fome e nunca por simples prazer. Quando descobre um caçador mau, ele o ilude fazendo com que se perca na mata e morra de fome, e transforma seus parentes em futuras caças. O caipora anda montado num porco, com uma vara na mão e acompanhado de um terrível cachorro chamado Papamel.

Ferro de garantia

Uma aparição de olhos de fogo, que durante a noite enxerga tudo e assume a forma de cobra, é o boitatá, um dos seres mais temidos do sul do Brasil. O boitatá anda à noite, à procura da carniça de animais mortos, e surge em frente aos viajantes fazendo com que se atrasem. A única coisa que afasta o boitatá é o ferro. É por isso que os gaúchos usam sempre presa ao laço, uma argola de ferro, garantia contra "qualquer visita inesperada".

Assim, entre anões peludos, negrinhos misteriosos, aves portadoras do amor e fogos ondulantes, os brasileiros vão cultuando seus mitos e crenças, dando razão ao velho ditado espanhol: Yo no creo em brujas, pero que las hay, hay".

(A. J. B. "Pulando numa perna só". Correio do Povo. Porto Alegre, 19 de fevereiro de 1970, primeiro caderno, p.12)

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