Foi à noitinha, ao voltar de um passeio pelo campo, que logo ali, naquela porteira velha e rangideira, encontramos o saci pererê. Paramos surpresos porque este cidadão é um estranho nos pagos do Rio Grande e só o conhecíamos através das leituras ou desenhos.
Assim, para esclarecer dúvidas, entabulamos um bate-papo.
O negrinho não se fez de rogado. Bateu o cachimbo, pôs fumo novo, pediu fogo e depois de duas ou três tragadas, contou:
— É, não sou gaúcho, não. E pouca gente me conhece por estas bandas. Em compensação, lá em São Paulo, Minas e outros estados, não há caboclo que não saiba da minha fama e não fique tremendo de medo ao me encontrar.
— Tremendo de medo, saci? Ué! Por que? Tu até que pareces ser um boa praça...
— Bem, é que eu sou um bocado brincalhão, gosto de pregar as minhas peças e me divirto tanto com isso que às vezes passo da conta. Por exemplo, se pego no campo um cavalo, fico passeando ou andando nele às carreiras durante toda a noite. De manhã, é claro que o bicho estará cansado e imprestável para o trabalho do sítio; o dono só pode ficar mesmo danado comigo, mas o que é que vou fazer? Também preciso me distrair!... Outras vezes, quando as donas de casa estão ocupadas, entro pé ante pé nas cozinhas e vou até o fogão acender meu pito. Acontece, porém, que o fogo, por acaso, quase sempre apaga depois disso e se o feijão não cozinha, a culpa é aqui do seu amigo...
— Que injustiça, saci! No fim das contas, és apenas um inocente bode expiatório, não é? Mas neste caso, como é que já ouvi contar que costumas assustar os viajantes que andam em lugares ermos com um assobio fino, comprido — e que te ris às gargalhadas quando o homem, assombrado por não saber quem chama, dispara estrada a fora? Isso não seria muito cristão, saci! E será verdade que podes ficar invisível?
O negrinho não gostou da observação, nem da pergunta. Pigarreou, tossiu disfarçando, puxou uma baforada comprida e mudou de assunto:
— Como é, por aqui não existem rodamoinhos?
— Rodamoinhos? — dissemos todos com cara de ponto de interrogação.
— É, rodamoinho. Pé-de-vento. — explicou pererê, já impaciente.
— Ah! redimunho, — disse o Joca, um gauchinho abagualado, que fazia parte do nosso grupo.
O sacizinho achou graça e confirmou:
— Isso mesmo. O pé-de-vento foi o meu meio de transporte por muito tempo. Mas a gurizada paulista já anda muito sabida. Quando vêem um, saem correndo em busca de uma peneira, pintam uma cruz no fundo e a atiram sobre o centro do redimunho, como diz esse aí. E lá fico eu preso. Mas estamos no Rio Grande. Poucos sabem aqui desse segredo. Vocês, que são meus amigos, não vão espalhar, não é mesmo?
Nesse momento exato, surgiu na estradinha que atravessa a porteira, uma nuvem de poeira que, girando e crescendo, foi chegando, chegando...
— Aí vem um, saci! Aí vem um! - gritamos.
Com um sorrisinho misterioso, ele disse:
— Eu sei, meu povo. E vou aproveitar a carona. Até a volta, pessoal!
Vimos o primeiro e o segundo salto de uma perna s[o que o sacizinho deu, mas já no terceiro, ele sumira na poeira.
— Que pena!... — dissemos em coro.
A poeirama foi uma boa desculpa que todos nós, meninos e meninas, achamos para explicar em casa os olhos avermelhados por uma que outra lagrimazinha traiçoeira...
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