Sobre o saci, basta citá-lo para vermos sua figura, pretinha, de chapeuzinho vermelho, uma perninha erguida, pulando ou assobiando sempre. Dizem que, às vezes, saem chispas de fogo dos olhos e da boca do saci.
Está dentro dos nossos contos, das nossas lendas, e forma a composição misteriosa das histórias que ouvimos. Tirar o saci da nossa história é cortar a sensação que dá o pavor magnífico de uma linguagem que cativa porque prendeu a nossa infância e constitui grata e indelével recordação da velhice.
Não se interrompe uma história de saci; nenhum conto tem este poder que arrasta um labirinto mágico na imaginação.
Eis aqui alguns casos sobre o saci, que andou trepando em cavalo, acendendo cigarro, mudando fogão, e, mais ainda, o saci na descrição de uma negra de 75 anos, analfabeta e residente em Aparecida.
"O saci tem carapuça vermelha, olhos vermelho que intimida, só dente de ouro pro pessoal se enganá com ele.
Qualquer hora ele aparece, mais de noite que de dia. Pessoas que não reza, que não têm devoção com santo, nem com anjo da guarda, ele aparece, elas leva susto e até dá vertigem. E pra ele desaparecer só com reza e água benta. Ele não tem medo do Nosso Senhor, só de Nossa Senhora.
Saci demônino, lucifé ou cuzarruim é tudo uma coisa só. O saci-tererê é o mais levado, o que faz mais arte. Agora não aparece quase por causa da devoção e das rezas.
O saci-trique brinca só. Faz boneca no chão, com saia de renda e chapeuzinho de renda também. Faz boneca de barro na beira do Paraíba ou perto da olaria. Se conhece que é boneca de saci porque é muito mal feito.
Agora, o caminho é estivado de casa, mas no caminho sem casa ele vive assobiando: fiiiiite, fiiiiite, fiiiiite...
O saci tem um passarinho que lhe acompanha e que se chama curiangu. Ninguém vê. Aparece só de noite e cerca as pessoas no caminho e vai dizendo: curiangu... curiangu... E, às vezes, quer até senta na cabeça da gente. O morcego também imita o demônio. É bicho que o demônio fazia pra mostrar pra Deus que tinha poder."
O saci e o cavalo
O saci costuma, quando vai cair a tarde, abrir a porteira do piquete onde estão os animais. Ele abre a porteira e fica rindo, rindo do dono da casa e do pessoal que mora lá, porque não acredita nele.
Depois ele dá três assobios, ajuntando tantos sacis quantos os animais que estão no piquete.
E cada um, tomando o seu cavalo, depois de cansar bem o animal com piruetas, pulinhos, deixa uma lembrança para o dono da casa. Essa lembrança não é nada mais, nada menos, do que uma trança na crina. Mas uma trança que ninguém desfia. O dono da casa é obrigado a tosar o cavalo.
Quem tudo isto me contou, rematou:
— Eu já vi um cavalo com uma trança assim na fazenda do meu pai. O coice que ele dá quando a trança não é cortada é que nem um pulinho do saci.
(Informante: um homem de 60 anos, alfabetizado, residente em Aparecida)
O saci e a estrada
Quando uma mulher, acompanhada de crianças, vem na estrada, pula de repente uma turminha alegre de sacis. Todos correm até encontrar uma árvore e, um dando a mão para o outro, ficam cantando e assobiando em volta da árvore.
Não assustam a mulher, que fica olhando para eles e divertem a criançada. O saci mais velho fica jogando o chapeuzinho vermelho para cima, caindo direitinho na cabeça dele.
(O mesmo informante)
O saci e o fogão
No tempo da escravidão, a preta fazia a comida e sempre a comida estava suja. Ela perguntava: "O que será isto?"
E resolveu fazê a mudança. No meio da mudança, ela e os outros olhou pra trás e enxergaro uma figura feia, mais ou menos parecido com gente e carregando um murudu (cupim) nas costas.
Aí, com medo, perguntaram:
— Onde você vai?
— Nós não vamos se mudar?
Elas correram, chamaram o padre que benzeu a casa e ele sumiu.
(Informante: uma negra de 50 anos, alfabetizada, residente em Aparecida)
O saci e o cigarro
Uma vez, meu pai, na festa da Semana Santa, quando todo o mundo saiu de casa para ir na igreja, ele ficou sozinho. Ele estava com um cigarro de palha atrás da relha. Nisso, o saci assobiou, mas meu pai não teve medo, porque era homem de coragem.
O saci entrou dentro da casa, tirou o cigarro da orelha do meu pai e acendeu, e colocou onde estava.
Foi quando meu pai ficou com medo e foi no oratório rezar e disse para minha mãe quando ela chegou: "Nunca mais fico sozinho na Sexta-feira Santa".
(Informante: uma aparecidense de 81 anos, alfabetizada)
O saci e a árvore
Na minha terra, o saci carregou um acriança e pôs na copa de um pinheiro. A mãe procurou a criança e não achou e ia passando a vizinha e ouviu o choro da criança. Olhou pelo chão e não viu nada. De repente, o saci deu uma risada na copa do pinheiro e ela viu a criança. Voltou para avisar a mãe. Aí a mãe foi muito contente chamar o padre, que trouxe quadro de santo e o saci não soltou a criança. Só quando chegou a madrinha de representação — a mamã — que trouxe a toalha e pôs no braço, no jeito que ia fazer batizado e que rezou a reza do batizado foi que o saci deu risada e soltou a criança na toalha.
(Informante: uma mineira de 50 anos, alfabetizada, residente em Aparecida)