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Tema do Mês

Março 2009 - Ano XI - nº 122

Sumário

As baratas no folclore

As castas das baratas

As baratas na medicina popular

Baratas na alimentação

Comadre, puxa daqui ! (Expulsão de baratas)

Expressões, ditados e adivinhas

 

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Baratas no folclore

As baratas na medicina popular

Karol Lenko e Nelson Papavero

Apenas as formigas são comparáveis às baratas em popularidade no tocante ao seu emprego como remédio. Aqui, além dos depoimentos folclóricos, isto é, registros sobre o uso de baratas na medicina popular, reunimos também dados sobre o seu aproveitamento na medicina primitiva, na medicina antiga e no curandeirismo. Achamos que o conhecimento destes vários dados talvez ajude a explicar e determinar a origem e a razão de ser de certas receitas e práticas encontradiças em nossa medicina popular.

Alcoolismo: Combate-se este vício despejando secretamente o pó de barata torrada na pinga servida para o viciado (Barueri, SP, 1958). No matutino paulista Última Hora, de 27 de agosto de 1959 (primeira edição), encontramos uma interessante notícia sobre uma curandeira, moradora no bairro de Indianópolis, na capital paulista, que administrava a infusão de pinga com baratas para alcoólatras. Segundo informação do senhor. Wladimiro Zwetkoff (1965), na Ucrânia era comum o uso de infusões destes insetos na bebida, para tirar o vício do alcoolismo. Naturalmente, em todos estes casos, o alcoólatra não pode saber que "tempero" foi usado na bebida.

Asma e bronquite: Em Barueri (SP) registramos em 1954: barata torrada no toucinho de porco-capão; dá-se escondida na comida ou café para o doente de asma. Repete-se isso nove vezes (uma barata de cada vez) e só na lua minguante. O sr. W. Almeida Lima, de Presidente Prudente (SP), informou-nos em 1959 que a barata torrada e despejada no chá ou café é lá usada contra bronquite. O mesmo em Araraquara (SP), segundo a sra. Julieta Catroppa, em 1960. Também na Capital recomendam um chá de barata para a asma, segundo registro que achamos em notas do Arquivo da Comissão Paulista de Folclore (documento nº 6, 1947). A srta. Clara Soneghet, em 1960, informou que no Estado da Bahia atribui-se à barata poder mágico para a cura de asma – para tal fim põe-se a barata torrada num saquinho de pano, que é pendurado ao pescoço por apenas um fio de linha; quando, sem nenhum propósito, o fio se arrebentar e se perder o patuá, o doente ficará curado. Daniel Gouveia (1926, p.29-30) indica o seguinte: "Para asma, mas sem que o doente saiba, fazer um chá de baratas... A pessoa ficará boa (dizem), mas se algum dia souber, a moléstia voltará." O mesmo registrou A. Peixoto (1944, p.56), que diz ser eficaz mezinha para asma e bronquite asmática "barata torrada e moída, em café ou chocolate, mas sem se saber... ", pois "se o doente desconfiar, o remédio não serve e a doença volta."

Cólicas intestinais: Em Teófilo Otoni (MG) registramos: barata preta, torrada e despejada em qualquer bebida é remédio para as cólicas intestinais. Fausto Teixeira (1954, p.39) registrou em Sete Lagoas (MG) a seguinte receita: "comer três baratas torradas". Anotou ainda a este propósito Luís da Câmara Cascudo (1951, p.94-95): "Para cólicas intestinais o chá de barata é milagre verdadeiro. Nunca deixou de ser eficaz. Torra-se a barata em cima da chapa do fogão, pulveriza-se e faz-se o chá, bebido com açúcar e sem que se saiba do que foi feito."

Comichão: Plínio, o naturalista (Século I, DC), recomendava baratas moídas como excelente remédio para este mal (Blanchard, 1837, p.276).

Constipação: Sir Hans Sloane (1725) relata que os autóctones da Jamaica bebiam cinzas de baratas como remédio em casos de constipação.

Dentes: No Ceará, para acabar com dor de dentes, "manda o nosso camponês que se esprema uma barata, ainda viva, e se aplique o que dela resultar num algodão, no dente cariado" (Campos, 1955, p.85). Francisco Brasileiro (1951, p.369) registra para dor de dentes a seguinte prática: "Coloca-se na cavidade dentária, sem que o paciente saiba, vísceras de baratas e cobre-se a cárie com algodão."

Digestão: Os habitantes de Formosa (Taiwan), segundo Takahashi (1924), removiam a cabeça e os órgãos digestivos da Periplaneta americana, colocavam sal no corpo e fritavam e comiam o inseto; isto, diziam eles, ajudava o processo digestivo. Também cozinhavam as fezes duras e escuras dessa barata como remédio para suas crianças.

Dor-de-urina: Segundo Campos (1955, p.115), no Maranhão, "se a pessoa tem 'dor-de-urina' (gonorréia), deve esmagar uma barata no azeite doce, levar a pasta ao fogo até ficar morna e com ela untar o pênis."

Escrófula: Plínio afirmava que as baratas com asas e pés retirados curavam escrófula (Blanchard, 1837).

Espasmos: O cirurgião W. H. B. Webster (1834) dizia que um certo capitão William Owen, da Marinha Britânica, utilizava infusão de baratas como antiespasmódico muito poderoso.

Ferimentos de arraia: Segundo Russel & Lewis (1956), certos aborígenes borrifavam as feridas produzidas por peixes venenosos, principalmente arraias, com extrato de baratas maceradas com fígado de peixe.

Fleimão: O já citado R. Nonato (1958, p.18) comunica que "pó de bucho de barata" é usado no Rio Grande do Norte "para estourar fleimão."

Fraturas: Nosso colega W. N. Alin (1953, p.3), que realizou pesquisas em farmácias chinesas de Harbin (Manchúria), constatou que duas espécies de baratas eram aproveitadas com finalidades terapêuticas – Eupolyphaga sinensis Wlk. e Polyphaga plancyi Bol. Entre outras aplicações registrou ele o uso destes insetos no caso de fraturas de ossos para facilitar a soldadura.

Furúnculos: Procede de São Paulo (capital) o seguinte registro: ''furúnculos curam-se com tripa de barata e fumo" (Arquivo da Comissão Paulista de Folclore, documento nº 6, 1947). Plínio já recomendava baratas esmagadas como excelente remédio para curar esse mal (Blanchard, 1837).

Gripe: Clausen (1954, p.54), cita o New York Times de 12 de novembro de 1944: durante uma epidemia de gripe, em Iquitos (Peru), um dos remédios mais comumente usados era uma infusão de baratas vermelhas em "pisco".

Hidropisia: Contra este mal, pó preparado com a barata Blatta orientaIis é remédio popular na Rússia étnica (Bei-Bienko, 1950, p.99). Burr (1954, p.256) registrou que em certas partes da Europa vendiam-se baratas em pó, sob o nome de pulvis tarakanae, como remédio para pleurite e pericardite; o tratamento havia chegado da Rússia, onde o pó era utilizado na cura da hidropisia; como já vimos, tarakan é o nome da barata em russo.

Indigestão: Ainda segundo Clausen (1954, p.54), em um artigo de L. Hearn, "The creole doctor", publicado no New York Times, de 3 de janeiro de 1886, os negros da Luisiânia usavam baratas fritas em alho e óleo, em casos de indigestão.

Lactação: Alin (1953, p.3) registrou que as baratas vendidas nas farmácias chinesas da Manchúria eram utilizadas como drogas para influenciar as glândulas mamárias.

Ouvido: Em Eduardo Campos (1955, p.107) encontramos curiosa receita proveniente do Ceará – a barata tornada em pasta e introduzida no canal auditivo, obturando-o, alivia prontamente as dores de ouvido. Segundo informações do sr. Erivelto Arcanjo, de Três Corações (MG), coloca-se no ouvido uma barata frita em óleo, em casos de otalgia. A mesma prática foi também registrada em São Paulo (Capital), como consta dos Arquivos da Comissão Paulista de Folclore (documento nº 6, 1947). R. Nonato (1958, p.18) informa que no Rio Grande do Sul o "pó de bucho de barata" é aplicado para dor-de-ouvido.

Segundo um médico, na Polônia, no ano de 1937 ou 1938, apareceu em seu consultório uma camponesa, queixando-se de não ouvir direito. Feito o exame, percebeu que o canal de um ouvido estava completamente obstruído. Limpo o canal, retirou de lá... restos de uma barata, e de tamanho bastante significante. Admirado, interpelou sua paciente de que maneira teria penetrado no ouvido um inseto desse tamanho. Como resposta, recebeu o esclarecimento – sofria ela de dor de ouvido, e foi aconselhada por uma vizinha a esmagar em óleo de girassol uma barata e introduzir essa massa no ouvido.

Nihil novi sub sole. O uso da barata em otalgias é antiquíssimo. Dioscórides, ou melhor, Pedânio Dioscórides, médico grego do primeiro século da era cristã e, segundo alguns, cirurgião militar a serviço do imperador Nero, afirmava que as entranhas da "sílfide" (possivelmente barata, segundo Blanchard, 1837, p.278), quando misturadas com óleo e postas no ouvido, curavam otite. Além de Dioscórides, Plínio o Antigo afirmava também que a "gordura" de certas baratas, quando amassada em óleo de rosas, era ótimo medicamento para as dores de ouvido.

A propósito, vale a pena notar que a influência de Dioscórides foi muito grande na Europa. Em Portugal, por exemplo, o ensino farmacológico na universidade quase que só a ele se limitava, até o século XVIII. Sua obra De Universa Medicina foi tratada por vários comentaristas e notadamente pelo grande médico português João Rodrigues de Castelo Branco (Amato Lusitano), em seu Index Dioscoridis (1536) e em Dioscorides de Materia Medica Libri Quinque Enarrationis (1556).

P. A. Matthioli, famoso médico italiano (1500-1577) recomendava entranhas de baratas, amassadas e cozidas em óleo, para o tratamento de ouvidos doloridos. Neste caso é evidente a influência de Dioscórides, pois Matthioli foi autor de célebres comentários sobre as obras do médico grego, publicadas em 1554.

Como a medicina popular, em muitos casos, se baseia em vetustíssimas tradições de antigas escolas médicas e também em noções emprestadas a velhos livros médicos dos séculos passados, achamos interessante apresentar os exemplos acima, para mostrar uma possível sobrevivência dos costumes romanos no folclore luso-brasileiro.

Para finalizar esta digressão, achamos interessante registrar aqui mais uma receita para otite, enviada pelo sr. B. A. Lua, em 1959, morador em Santana do Parnaíba (SP). Desta vez, não figura na receita uma verdadeira barata, mas um pequeno crustáceo da Ordem Isopoda, que, como já dissemos, é conhecido pelos nomes de tatuzinho ou baratinha. Na região de Santana do Parnaíba, para curar dor de ouvido, usam a seguinte prática: apanham nove tatuzinhos ou baratinhas, que são colocados num pano limpo, em forma de saquinho, e espremidos diretamente no ouvido do doente. Afirmam que é ótimo remédio.

Pneumonia: Conforme comunicação do sr. Mario Dary R., naturalista da Guatemala, "Las cucarachas, ya en infusión, ya en cocimiento, se tienen como remédio infalible para la pulmonía. Es corriente el uso de ellas con ese fin, en Guatemala y El Salvador, especialmente entre la población indígena. La especie utilizada es Periplaneta americana." (Carta de 29 de outubro de 1959).

Regras: Nas farmácias chinesas de Harbin (Alin, 1953, p.3) as baratas Eupolyphaga sinensis e Polyphaga plancyi são vendidas como reguladoras de regras.

Sarna: Plínio recomendava baratas esmagadas para curar este mal (Blanchard, 1837).

Tétano: O já mencionado W. H. Webster (1834), ainda baseado nas informações do capitão Owen, informou sobre o uso da infusão de baratas no combate ao tétano. No artigo de L. Hearn, também já mencionado, acha-se a notícia de que os negros da Luisiânia usavam chá de baratas contra o tétano, suplementado por um emplastro de baratas fervidas sobre a ferida.

Tosse: No Ceará (Campos, 1955, p.109), para debelar a tosse, aconselham chá de "jasmim de cachorro" com barata torrada.

Tosse comprida: Radbill (1945) dizia que entre os índios Nanticoke, para curar tosse comprida, fazia-se a seguinte simpatia: conseguiam-se tantas baratas quantas fossem as crianças afetadas por essa doença. Cada barata tomava o nome de uma das crianças. As baratas eram colocadas numa garrafa, que era bem fechada. Acreditava-se que a doença passasse com a morte. Durante esse período, como parte da simpatia, as crianças recebiam doses de purgante. Webster (1834) também relatou que nas Bermudas uma infusão de baratas era usada como antisséptico em casos de tosse comprida.

Tumores: No Ceará, segundo depoimento de E. Campos (1955, p.84): "A barata, mais uma vez, surge como um dos remédios milagrosos do sertão, espécie de penicilina para nós outros da cidade. Machucada, até transformar-se em papa, vai imediatamente acrescentada ao tumor. Dizem que tem grande força para abortá." Anotamos que o nosso velho conhecido Plínio já recomendava o mesmo remédio (Blanchard, 1837).

Úlceras: Sir Hans Sloane (1725) afirmava que os Índios da Jamaica amassavam baratas, misturavam-nas com açúcar e aplicavam a mistura a úlceras e cânceres para fazê-los supurar. Plínio receitava baratas para úlceras consideradas incuráveis.

Vermes: Ainda segundo Sloane, na Jamaica usavam-se baratas como vermífugos para crianças.

Já que estamos tratando do assunto, gostaríamos de dizer que, em fins do século passado, vários cientistas, principalmente alemães e russos, entre outros Bogomolov (1876, 1882), Budde (1878), Dorland (1951), Fronmüller (1879), Husemann (1882), Illingsworth (1915), Koehler (1878a-b, 1879), Kurz (1879), Ockel (1887), Paul (1879), Steinbrück (1881), Tscher-nyschew (1882), Unterberger (1897), Weiss (1925, 1946, 1947) e Wyshinski (1879), inspirados pelo largo e freqüente uso destes insetos na medicina popular, estudaram o valor terapêutico das baratas, especialmente o da Blatta orientalis. Resultou daí, na época, a introdução na farmacopéia oficial russa, de pós e decoctos preparados com estes insetos. Ainda nas últimas décadas voltaram ao estudo desta matéria, verificando certo efeito terapêutico das baratas em vários casos, os pesquisadores Vartiainen, Tolvi & Virtaneu (1933), na Finlândia, e Scharrer (1955), nos Estados Unidos.

Como dizia Coelho Neto: "A alma do povo é mais velha do que as Academias e tem sobre elas a vantagem de uma longa experiência. Não riamos do que nos parece absurdo... "; e ainda: "Todas as superstições apóiam-se em experiências. Em todo sortilégio vai a ciência descobrir a razão de ser e supre o que era bruxedo pela revelação positiva."

(Lenko, Karol; Papavero, Nelson. Insetos no folclore. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979 (Coleção Folclore, 18), p.54-60)

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