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Tema do Mês

Março 2009 - Ano XI - nº 122

Sumário

As baratas no folclore

As castas das baratas

As baratas na medicina popular

Baratas na alimentação

Comadre, puxa daqui ! (Expulsão de baratas)

Expressões, ditados e adivinhas

 

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Baratas no folclore

As castas das baratas

Karol Lenko e Nelson Papavero

Desconhecendo as bases científicas da sistemática zoológica, nosso povo possui seus próprios conceitos para classificar os animais. No caso das baratas, em especial, está em completo desacordo com os zoólogos, colocando neste grupo não só as "baratas verdadeiras", mas qualquer outro animal de contorno oval ou elíptico, achatado dorsoventralmente, de coloração escura e vida oculta.

A classificação popular divide este mundo de baratas conforme o "porte" (tamanho) – baratão ou baratona, barata e baratinha. Depois, qualificam-nas segundo o ambiente em que vivem, resultando assim num curioso paralelo da nomenclatura binominal dos cientistas; temos assim: barata de casa ou caseira, barata do mato, barata d'água, barata da praia.

Além desta última divisão, várias "culidades" ou "castas" são distintas. As principais são:

1. Avuadera: Tratam-se assim as formas maduras ou aladas das espécies Periplaneta americana e P. australasiae.

2. Branca: Nome aplicado às ninfas das baratas que recentemente trocaram de pele (sofreram ecdise); até que sua quitina endureça, permanecem com coloração branca; nomes equivalentes para este estágio são Descascada, De corpo mole, Noiva. Na planície amazônica, um sujeito albino é apelidado de barata branca – "Olha a cara daquela barata branca; tem medo de abrir os olhos" (R. Moraes, 1931).

3. Cascuda: Especialmente os representantes do gênero Blaberus, que costumam domiciliar-se em habitações humanas. Existem também as Cascudas do mato, que vivem sob as cascas das árvores e sob paus podres, pertencentes aos gêneros Monastria, Petasodes e outros.

4. Chimanga: Não tivemos ocasião de ver esta barata. Recebemos este nome de Minas Gerais, com a anotação de que se trata de "uma barata caseira, de cor vermelha" (inf. Dona Maria Franca).

5. Das miúda: Este termo abrange todos os estágios imaturos das baratas; em particular refere-se à barata cosmopolita Blatella germanica.

6. De corpo mole: Denominam-se assim as baratas que mudaram de pele recentemente, a cutícula nova não tendo endurecido suficientemente.

7. De luxo: Baratas bonitinhas, de cor verde, que costumam aparecer em certas épocas do ano, à noite, nas casas, atraídas pela iluminação. Pertencem ao gênero Panchlora.

8. De oito baixos: São as ninfas maiores de Periplaneta americana e P. australasiae, ainda desprovidas de asas e mostrando seus segmentos abdominais, cujo aspecto foi associado pelo povo com as dobras de uma sanfona de oito baixos.

9. Descascada: O mesmo que barata branca ou de corpo mole.

10. Granfina: O mesmo que barata-de-luxo.

11. Miudinha: Ninfas dos primeiros estágios das baratas de diversos gêneros.

12. Noiva: O mesmo que barata branca, de corpo mole, ou descascada. É bastante conhecida a trágica história do casamento da baratinha noiva com o rato, aqui apresentada numa versão de João Ribeiro (1969, p.61):

"Foi uma vez uma baratinha. Ela amanheceu um dia toda vestida de branco (itálico nosso). Enfeitou-se e pôs-se à janela, com a idéia de achar um noivo para se casar. Passou um boi. Ela perguntou:

– Boi! queres casar comigo?

– Quero sim; – disse o boi.

– Como é que fazes de noite?

– Faço: Uh!. .. u ... uh!

– Não quero não, – disse a baratinha. – Tenho muito medo de tuas falas.

Em seguida passou um cão:

– Cachorro! queres casar comigo?

– Quero sim.

– Como é a tua fala de noite?

– Uau! au-uau!

– Não quero não. Tua fala me mete medo.

Passou depois um gato:

– Gato! queres casar comigo?

– Quero, sim.

– Como é que fazes de noite?

– Faço: miau! miau!

– Não quero não. Tenho muito medo de ti.

Afinal, passou um ratinho.

– Rato! queres casar comigo?

– Quero sim.

– Como é que fazes de noite?

– Faço: Cuí! Cuí! Cuí!

– Bom. Não tenho medo de ti, não. Quero casar contigo.

O rato chamava-se João Ratão. Foi logo tratado o casamento. No dia marcado veio o padre e vieram os convidados, que ficaram todos na sala enquanto se preparava lá dentro um banquete.

João Ratão, de luvas, casaca e gravata branca, estava muito contente e recebia muitos cumprimentos.

Mas, sentindo o cheiro do jantar, aproveitou uma distração da noiva, saiu e correu para a cozinha.

A panela fervia e rescendia a cheiro de toucinho.

João Ratão, que dava a vida por um pedaço de lardo, não pode resistir. Debruçou-se sobre a panela, mas tão desastradamente o fez, que caiu dentro dela e morreu.

A festa acabou em choro e o noivado em dia de enterro. Entrou por uma porta e saiu pela outra. El-rei nosso senhor manda que conte outra."

Dignas de apreço são também as seguintes linhas da poesia A barata de Gustavo Teixeira (1959):

Múmia escamosa, o odor que exala causa nojo.
Cauta, vive a espreitar do fundo do seu fojo
A lesma que rasteja e o pássaro que voa.
Mas raia uma hora azul também em sua vida:
De branco, um dia, acorda! E é bela, assim vestida,
Como a noiva que o amor ao pé do altar coroa .. .

13. Paulista: Este termo foi registrado em Corumbá (MT; inf. José Feliciano Batista Neto) e designa as espécies do gênero Periplaneta. Os mato-grossenses culpam os paulistas pela introdução dessa praga e daí seu nome. Em outras partes do mundo os nomes populares documentam muito bem as acusações mútuas de diversos povos sobre a importação de baratas cosmopolitas. Assim, por exemplo, os poloneses chamam a Blatella germanica de prussak (prussiana), pois acreditavam que os prussianos as introduziram na Polônia. Também os russos afirmavam que esta espécie chegara a seu país com os exércitos que retornaram da Prússia, após a guerra de 1756-1762, tratando-as por prusák. Enquanto isto, os ucranianos acusavam os russos pela introdução da Blatta orientalis, denominando-a moscaI (moscovita); os suecos também são acusados, sendo as baratas chamadas schwied.

14. Vermeia: Espécies do gênero Periplaneta.

As espécies que vivem fora das habitações humanas, especialmente nas florestas, são denominadas baratas do mato. Estas recebem em geral os nomes específicos das plantas sobre as quais são mais frequentemente encontradas:

1. Baratas da indaiá: Na região de Teófilo Otoni (MG) chamam-se assim as baratas muito comuns nas palmeiras de indaiá, que importunam bastante os garimpeiros em seus barracões.

2. Barata dos coqueiros: Nada tem a ver com as verdadeiras baratas; são assim denominadas larvas de besouros pertencentes ao gênero Coraliomela, da família Hispidae, que vivem em várias espécies de nossas palmeiras.

3. Baratão do café: Registramos este nome em Araraquara (SP). Infelizmente não tivemos ocasião de ver o inseto. Segundo nosso informante, senhor. Luiz Capra, vive este animal sob a casca dos cafeeiros velhos e abandonados.

As chamadas baratas d'água servem mais como exemplo de classificação errônea popular, pois trata-se realmente de percevejos aquáticos, da ordem Hemiptera (Fam. Belostomatidae).

Também impropriamente são denominados como baratinhas d'água ou baratinhas da praia certos crustáceos da praia, que acompanham a linha das marés, vivendo entre pedras. Ainda certos parentes destes últimos, pertencentes à ordem Isopoda, geralmente conhecidos como tatuzinhos ou papa-breu, são às vezes erradamente tratados pelo povo como baratinhas.

(Lenko, Karol; Papavero, Nelson. Insetos no folclore. São Paulo, Conselho Estadual de Artes e Ciências Humanas, 1979 (Coleção Folclore, 18), p.49-54)

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