A primeira idéia associada às baratas é de asco, nojo, ou desespero; nossos caipiras, na hora da reiva, por causa dos danos ou incômodos que trazem estes insetos, insultam-nos de barataiada escamungada. Quando querem acentuar que no paiol ou nas habitações existe grande quantidade de baratas, dizem – "diluve de baratas", "desespero de baratas", ou ainda "miões de miões de baratas".
Mas isto só em hora de raiva ... A "baratinha", como a chamam no Brasil, traindo certa simpatia, não deixa de ter também sua utilidade (como aliás tudo neste mundo), sendo empregada em várias práticas médicas caseiras e mesmo como alimento, como veremos mais adiante. Talvez esta simpatia pelas baratas seja uma herança da infância, quando se cantava:
A barata diz que tem
Sete saias de filó;
É mentira da barata,
Ela tem é uma só.
Ah! Ah! Ah!
Ó, Ó, Ó.
Ela tem é uma só.
A barata diz que tem
Um sapato de fivela;
É mentira da barata,
O sapato é da mãe dela.
Ah!, etc.
A barata diz que tem
Um anel de formatura;
É mentira da barata,
Ela tem é casca dura.
Ah!, etc.
A barata diz que tem
Uma cama de marfim;
É mentira da barata,
Ela dorme é no capim.
No Rio Grande do Sul, segundo nos informou a colega Gilda Benvegnú Lé, as crianças brincam de roda, cantando:
Havia uma barata
Na careca do vovô!
Assim que ela me viu,
Bateu asas e voou!
Seu Joaquim-quim-quim,
Da perna tort-ta-ta,
Dançando val-sa-sa,
Co'a Ma'rico-ta-ta...
Do cancioneiro do mesmo Estado vem-nos este belo trecho, coligido por Chico Gaúcho (s.d., p.124):
Chega, chega, minha gente,
Que o choro vai começa!
Reparem como é gostoso
Este samba de matar.
A baratinha
A baratinha
A baratinha bateu asas e voou (bis).
A baratinha iaiá
A baratinha ioiô
A baratinha bateu asas e voou.
Perna de porco é presunto,
Mão de vaca é mocotó;
Quem quiser viver feliz
Deve sempre dormir só.
A baratinha, etc.
Minha menina faceira,
Cinturinha de retrós,
Bote a chaleira no fogo,
Pra fazer café pra nós.
A baratinha, etc.
Menina da saia curta
Que mora lá no riacho
Atrepa neste coqueiro
E bota cocos pra baixo.
A baratinha, etc.
Bota cocos pra baixo,
Qu'eu quero fazer cocada;
Tão gostosa como os beijos
Da boca da minha amada.
A baratinha, etc.
Mesmo quando causam aborrecimento em casa, as baratas não são exterminadas, mas apenas "afugentadas". É interessante notar que o mesmo respeito existia na Rússia (Rolland, 1881, p.286) – a presença de um tarakan (barata) preto em casa era presságio de felicidade; quando um russo mudava de casa, carregava para seu novo domicílio todos os tarakans pretos; se as baratas abandonavam a casa era sinal de desgraça. Na França, no Departamento de Gard, ainda segundo Rolland, matar um panatario (barata), dava azar. Na Inglaterra, ao se pisar numa barata, ouvia-se um trovão; por esta razão eram as baratas conhecidas em Lancashire por thunder-c1ocks (relógios-trovão).